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“Primeiro restaurante” do mundo que serve “carne humana” foi inaugurado no Japão?

Sociedade
O que está em causa?
A alegação não é propriamente recente, mas ganhou um novo fôlego nas redes sociais nas últimas semanas. Com base no que aparenta ser informação avançada por um canal televisivo, indica-se que um restaurante em Tóquo, Japão, terá começado a apostar na preparação de pratos que contam com um ingrediente fora do comum: “carne humana”. Verdade ou mentira?

“Fim do mundo… Primeiro restaurante que vende carne humana”: eis a legenda que acompanha um vídeo que se encontra a circular nas redes sociais, do que aparenta ser um excerto de um noticiário televisivo de um país de língua espanhola. Nele, ouve-se a pivô a avançar uma informação que pode chocar os mais impressionáveis: “Abriu o primeiro restaurante onde vendem carne humana. Fica em Tóquio. Chama-se ‘Irmão Comestível’. Juro que se chama assim: ‘Irmão Comestível’.”

De acordo com a jornalista, a “carne” alegadamente servida aos consumidores “provém de pessoas que vendem o seu corpo para fazer comida”, tratando-se de uma decisão que será tomada “antes de morrerem”. Cada prato, segundo este relato, custa “cerca de 26 mil pesos” – nome dado à moeda de vários países que foram, no passado, colónias espanholas, como a Argentina, o México e a Colômbia, entre outros.

Japão

O excerto “noticioso” termina com a constatação de que quem “provou” esta nova iguaria “assegura que o sabor é muito semelhante ao da carne de porco”.

Mas será que se confirma que abriu, na cidade japonesa de Tóquio, o “primeiro restaurante” do mundo que assume servir “carne humana”?

Facto é que a alegação não é nova e começou a circular nas redes sociais em finais de 2017, tendo sido já desmentida por vários órgãos de comunicação social internacionais, como a “Snopes”, a “Newtral” e a Associated Press.

Na altura, Thomas Mattingly, um porta-voz da embaixada japonesa em Washington, assegurou a esta agência noticiosa que não existia qualquer restaurante naquela cidade japonesa a oferecer carne humana no seu menu, apesar da informação – que assegurou ser falsa – que circulava online. Até porque, segundo a mesma fonte, “o canibalismo não foi legalizado no Japão”, reportou a Associated Press.

De onde surgiu, então, essa narrativa, aparentemente associada a um restaurante chamado “Irmão Comestível”? De um artigo publicado no site “La Voz Popular”, datado de 12 de julho de 2016, que relatou o seguinte: “O primeiro restaurante canibal do mundo chama-se ‘Resu ototo no shokuryohin’, que significa algo como ‘irmão comestível’, e está localizado na cidade de Tóquio, num bairro bastante afastado do centro, que se tornou numa zona muito frequentada por curiosos desde a abertura do ‘el Resu’.”

Porém, a verdade é que este se trata de um portal, como o próprio assume, de natureza “satírica”, cujo “único fim é o entretenimento”. E acrescenta: “O seu conteúdo é fictício e não corresponde à realidade e, se corresponder, é por coincidência.”

Isto já depois de um blog ter publicado, a 1 de abril do mesmo ano – Dia das Mentiras –, um artigo que apresentava uma alegação semelhante, dando conta de que o governo japonês teria concordado com a abertura de uma loja de noodles de carne humana. Lê-se na publicação: “O governo japonês acaba de aprovar a abertura de uma loja de noodles com caldo feito de ossos e carne humanos, anunciou o Ministério da Saúde e Bem-Estar do Japão.”

À Associated Press, Thomas Mattingly, em representação da embaixada japonesa em Washington, sustentou a tese de que a história terá surgido “de um artigo de 2016 num site de sátira que tem muitos dos mesmos detalhes” apresentados na narrativa viral. O que permite concluir que não existe qualquer tipo de fundamento para a formulação de tais alegações.

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Avaliação do Polígrafo:

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