"Senhor deputado Pedro Delgado Alves: eu sei que contornar a verdade é o seu método habitual de debate, mas o senhor deputado não disse tudo. Quando falou da senhora presidente do Conselho Regional da Europa, esqueceu-se de dizer a verdade. É que a senhora presidente demitiu-se - e cito o que estou a ler - 'porque não se queria encontrar com André Ventura em encontros de deputados'. Ou seja, tínhamos uma representante na Europa que nos representa a todos, mas achava que não se precisava de encontrar com um dos partidos e preferiu ir-se embora. Fez muito bem, que não volte", argumentou esta sexta-feira de manhã o líder do partido Chega, depois de uma intervenção de Pedro Delgado Alves (deputado do PS) na Assembleia da República.

De facto, em fevereiro de 2020, Luísa Semedo, então Conselheira das Comunidades eleita para o Conselho Regional da Europa, demitiu-se do cargo de presidente desse órgão motivada por uma "situação absolutamente impossível" com o Chega, partido de André Ventura.

"Eu saio desse cargo, de representação dos Conselheiros, e passo a ser uma Conselheira que fala por ela própria e responde pelos eleitores que a elegeram. […] Enquanto presidente eu teria de o convidar [André Ventura] e ser anfitriã da reunião. Normalmente os convidados chegam, falam comigo e eu sou a principal interlocutora", explicou à data Semedo, em declarações à Agência Lusa.

O anúncio foi feito pela própria nas redes sociais, a 8 de fevereiro de 2020:

"Após séria reflexão, decidi com pesar, mas em consciência, demitir-me das minhas funções como Presidenta do Conselho Regional da Europa do Conselho das Comunidades Portuguesas. Considero não reunir as condições necessárias para continuar a representar a totalidade das Conselheiras e Conselheiros deste digno órgão de representação das Comunidades portuguesas na Europa."

  • André Ventura nunca se referiu à "teoria da substituição" por não ter dados suficientes?

    O líder do Chega assegurou ao Polígrafo, em grande entrevista, que não gosta de "usar coisas sem ter os dados completos" e que, por isso, não se iria referir a "susbtituição" para designar a, segundo André Ventura, "adulteração cultural da Europa". Mas será possível que o deputado tenha utilizado essa mesma expressão, disseminada por supremacistas brancos, em outubro de 2021 no Parlamento?

"Desde outubro do ano passado deu entrada na Assembleia da República um novo partido denominado Chega, representado pelo deputado André Ventura. As leis do nosso país e a nossa Constituição resultante da Revolução de 25 Abril de 1974, que arrancou Portugal das garras da ditadura e de que sempre nos orgulhámos por ser um baluarte contra o fascismo, não nos conseguiram, afinal, proteger da entrada na Casa da Democracia de quem a põe em perigo", acusou Semedo, em texto divulgado no Facebook.

"Não concebo dialogar, dar legitimidade, banalizar quem defende práticas criminosas que contrariam os valores de Igualdade, Justiça e Liberdade essenciais numa Democracia", justificou a Conselheira (cargo que mantém até ao fim do mandato). "Enquanto portuguesa, mulher, emigrante, antifascista, afrodescendente e mãe sinto-me diretamente atacada pela ideologia disseminada por este partido e pelo seu representante. O diálogo entre opiniões adversas é possível quando os interlocutores se reconhecem como Iguais. Não posso ser a anfitriã e a interlocutora de quem me considera como inferior", concluiu.

Nas declarações à Agência Lusa, Semedo acrescentou: "É uma situação absolutamente impossível de fazer porque eu não considero nem o Chega nem o André Ventura como legítimos no cargo onde estão. Não vou falar com uma pessoa que é racista, fascista e tem no seu programa várias medidas intolerantes."

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