A publicação encontrada pelo Polígrafo no Facebook, datada de 23 de outubro, está dividida em três partes e conta já com mais de quatro mil partilhas. O autor afirma que "Portugal em 1974 não devia um cêntimo, tendo uma das maiores reservas de ouro do mundo! Hoje tem a maior reserva de gatunos”, depois partilha uma tabela que mostra a evolução da dívida de 1997 a 2020 e, por fim, a imagem de um soldado e as palavras "Acorda Portugal".

Os dados apresentados estão corretos?

Em 1974, de acordo com dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) a dívida pública equivalia a cerca de 13,5% do Produto Interno Bruto (PBI).

Dívida de Portugal em 1974 créditos: © FMI

Atualmente, o último relatório do Conselho de Finanças Públicas disponível, referente a 2020, indica uma dívida pública de 133,8%, "um aumento que interrompeu a trajetória descendente deste indicador, anulando o esforço de redução efetuada nos três anos anteriores". Dados mais recentes, apresentados pelo Eurostat a 22 de outubro, indicam que a dívida portuguesa representa 135,4% do PIB, a terceira mais elevada da União Europeia depois da Grécia (207,2%) e da Itália (156,3%).

créditos: © Eurostat

Assim, é falso que Portugal não "devia um cêntimo" em 1974, apesar de o valor ser bastante inferior. Em 2012, um artigo do "Dinheiro Vivo" fazia a comparação entre os valores: "a dívida de então era de 10 mil milhões a preços de 2012. (...) Passou de 10 mil milhões para 203,7 mil milhões em 2012. Há 40 anos, seria o equivalente a 100 jackpots de 100 milhões de euros do Euromilhões. Atualmente, a dívida já equivale a 2037 daqueles jackpots. Com base numa população de exatamente 10 milhões, é como se cada português devesse 20 mil euros agora e apenas 1000 euros em 1974."

Ao Polígrafo, Ricardo Cabral, economista e professor do ISEG, lembra que a comparação que está a se feita mostra dois cenários muito distintos. "A situação não é comparável, em 1974, não existiam muitos dos serviços que existem agora, por exemplo, a escolaridade obrigatória, o Serviço Nacional de Saúde gratuito e a segurança social que obrigaram à contratação de muitos funcionários públicos".

"Antes existia a despesa com guerra, que consumia cerca de 50% do orçamento, mas tratam-se de duas economia diferentes com objetivos diferentes", acrescenta.

Quanto às reservas de ouro, Portugal estava no oitavo lugar a nível mundial em 1974. Salazar chegou mesmo a ser referido num artigo da "Bloomberg" como o “melhor investidor sem ganhos do mundo”, por ter adquirido 695 toneladas de ouro à base de exportações de volfrâmio ou de atum enlatado, em apenas 24 anos.

De acordo com os dados mais recentes do World Gold Council, referentes a junho de 2021, Portugal está na 17.ª posição a nível mundial do ranking de países com as maiores reservas de ouro, com 382,6 toneladas.

créditos: © World Gold Council

No relatório de "Atividades e Contas" de 2020 do Banco de Portugal (BdP) indica-se que a reserva de ouro nacional representava "18.989 milhões de euros no final de 2020, um acréscimo de 2.335 milhões de euros face a 2019, decorrente da evolução positiva da cotação em euros. Esta evolução deveu-se à valorização do preço do ouro em USD (+24,5%), em parte compensada pelo efeito da desvalorização do USD face ao EUR (9,2%). A quantidade desta reserva manteve-se inalterada nas 382,6 toneladas".

Em suma, é falso que Portugal não tinha dívida pública em 1974, mas é verdadeiro que o país tinha, nessa altura, uma das maiores reservas de ouro do mundo. O Polígrafo classifica a publicação como imprecisa por incluir dados falsos e porque junta duas referências - valor da dívida e reservas de ouro - que não têm uma relação direta.

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Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking (verificação de factos) com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

Na escala de avaliação do Facebook, este conteúdo é:

Parcialmente falso: as alegações dos conteúdos são uma mistura de factos precisos e imprecisos ou a principal alegação é enganadora ou está incompleta.

Na escala de avaliação do Polígrafo, este conteúdo é:

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