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“Portugal foi o país com maior área ardida em toda a Europa desde 2015”, realça-se no Facebook

Sociedade
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O que está em causa?
"Ardem em média 155 mil hectares por ano" em Portugal, desde 2015, "muito mais do que nos dois países" que se seguem no topo da tabela: "Espanha (87 mil hectares) e Itália (63 mil hectares)", indica-se na publicação em causa. Mais, "em Portugal, a área ardida é atualmente quase o dobro do que se verificava na década de 1980", também em média. Respondendo à solicitação de leitores, o Polígrafo confere.

“A vergonha sobre os fogos florestais. Desde 2015, Portugal foi o país com maior área ardida em toda a Europa, apesar da sua pequena dimensão territorial. Ardem em média 155 mil hectares por ano, muito mais do que nos dois países que acompanham Portugal no ‘top 3’: Espanha (87 mil hectares) e Itália (63 mil hectares)”, lê-se num post de 16 de julho no Facebook, remetido ao Polígrafo para verificação de factos.

“Em Portugal arde entre 9 a 10 vezes mais por cada hectare de área territorial do que nos três países que surgem a seguir. Em Portugal, a área ardida é atualmente quase o dobro do que se verificava na década de 80 do século passado (arderam, em média, 73 mil hectares por ano entre 1980 e 1989)”, acrescenta-se, para depois concluir: “Em Portugal, a ‘Indústria do Fogo’ continua cada vez mais próspera.”

Estas alegações têm fundamento?

De acordo com os dados recolhidos pelo Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais (EFFIS, na sigla em língua inglesa), no período entre 2015 e 2020, Portugal acumula o maior número de hectares de área ardida entre todos os países europeus: 67.200 hectares em 2015, 167.807 hectares em 2016, 539.921 hectares em 2017, 44.578 hectares em 2018, 42.084 hectares em 2019 e 67.170 hectares em 2020. Média anual no referido período: 154.793 hectares.

Na tabela dos países europeus com maior área ardida segue-se a vizinha Espanha: 103.200 hectares em 2015, 65.817 hectares em 2016, 178.234 em 2017, 25.162 hectares em 2018, 83.963 hectares em 2019 e 65.923 hectares em 2020. Média anual no referido período: 87.049 hectares.

Apesar de o território português ter uma área total (92.212 km²) que equivale a cerca de 18,2% da área total do território espanhol (505.990 km²), o facto é que, na maior parte dos últimos anos, a área ardida em Portugal é superior à de Espanha. Aliás, entre 2015 e 2020, a média anual de área ardida em Portugal é quase o dobro em comparação com a de Espanha.

Questionado sobre os meios aéreos disponíveis para o combate aos incêndios, o primeiro-ministro advertiu que "não é pela existência de meios aéreos que não há incêndios". Nesse sentido, declarou que "só não há incêndios se a mãozinha humana não provocar incêndios. Portanto, aquilo que temos que fazer é mesmo evitar o incêndio. Cada um de nós tem que ter o cuidado necessário, como tivemos na pandemia, temos que ter agora para não provocar os incêndios que depois atingem todos".

O EFFIS apresenta dados recolhidos desde 1980 e calcula a média de área ardida (por país) em cada década. Nesse âmbito verifica-se uma inversão de posições entre Portugal e Espanha a partir de 2000. De facto, tal como se alega no post sob análise, “em Portugal, a área ardida é atualmente quase o dobro do que se verificava na década de 1980″, também em média anual: de 73.484 hectares entre 1980 e 1989 para 138.084 entre 2010 e 2019.

Nas décadas de 1980 e 1990, a média anual de área ardida em Espanha – 244.788 e 161.319 hectares, respetivamente – foi superior à registada em Portugal – 73.484 e 102.203 hectares, respetivamente. Nas décadas seguintes de 2000 e 2010, porém, essa posição inverteu-se e a média anual de área ardida em Portugal – 160.985 e 138.084 hectares, respetivamente – suplantou a que foi registada em Espanha – 127.229 e 94.514 hectares, respetivamente.

Isto em termos absolutos, não em proporção da área total do território de cada país. Voltamos a sublinhar: o território de Espanha é mais de cinco vezes maior do que o de Portugal.

Decréscimo significativo em 2021

No entanto, os números apurados em 2021 (ainda na condição de provisórios, ressalve-se) parecem contrariar a tendência verificada nas últimas décadas, apontando para um decréscimo significativo da área ardida em Portugal. De acordo com o “8.º Relatório Provisório de Incêndios Rurais de 2021“, do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), “a base de dados nacional de incêndios rurais regista, no período compreendido entre 1 de janeiro e 15 de outubro de 2021, um total de 7.610 incêndios rurais que resultaram em 27.118 hectares de área ardida, entre povoamentos (8118 ha), matos (16144 ha) e agricultura (2856 ha)”.

“Comparando os valores do ano de 2021 com o histórico dos 10 anos anteriores, assinala-se que se registaram menos 54% de incêndios e menos 79% de área ardida relativamente à média anual do período. O ano de 2021 apresenta, até ao dia 15 de outubro, o valor mais reduzido em número de incêndios e o segundo valor mais reduzido de área ardida, desde 2011“, informa-se no documento.

O problema é que no presente ano de 2022, até ao dia 16 de julho, de acordo com os últimos dados do ICNF (obtidos com base no Sistema de Gestão de Informação de Incêndios Florestais), já arderam mais hectares (40.521 no total) do que em todo o ano de 2021 (ou até 15 de outubro de 2021, um total de 27.118 hectares de área ardida e, não havendo registo de grandes incêndios nos últimos dois meses e meio desse ano, o número final não será muito superior).

Em termos homólogos, ou seja, até ao dia 16 de julho, a área ardida em 2022 é a maior desde o fatídico ano de 2017, em que já tinha superado a fasquia de 74 mil hectares (no total desse ano foi atingido um ponto máximo de 537.131 hectares).

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Avaliação do Polígrafo:

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