O primeiro jornal português
de Fact-Checking

Portugal é o 2.º país do mundo com maior percentagem de população que se identifica como LGBTQIA+?

Sociedade
O que está em causa?
Uma publicação recente no Facebook mostra um gráfico em que estão representados 25 países. O indicador em comparação é a "percentagem de população adulta que se identifica enquanto LGBT". Alega-se que Portugal ocupa o pódio, enquanto o segundo país do mundo com maior número de adultos gays, lésbicas, bissexuais e trans. A alegação tem fundamento?

No Facebook, está a ser partilhado em tom de crítica um gráfico que se refere à “percentagem de população adulta que se identifica enquanto LGBT“. Portugal figura no segundo lugar, com 9,9%, logo depois do México, com 12%.

Em tom irónico, o autor do post escreve: “Nalguma coisa haveríamos de ser dos melhores do mundo…” E de seguida garante, apoiando-se na estatística exibida, que “somos o segundo país do mundo com maior percentagem de LGBTI+”.

Será verdade?

O autor do post no Facebook aponta como fonte para os dados mencionados a página “World of Statistics”. Na descrição desta conta na rede social X (ex-Twitter) lê-se o seguinte: “Existem três tipos de mentiras: mentiras, mentiras descaradas e estatísticas”.

De facto, no dia 4 de junho de 2023, esta conta publicou a estatística que está agora a ser replicada no Facebook, referindo-se ao indicador mencionado: “População adulta que se identifica enquanto LGBT”. Não é referida qual a fonte primária da informação divulgada. Apenas é apresentada a lista de 25 países com o México a liderar com a maior percentagem de população LGBTQIA+ e com a Húngria situada no último lugar, com apenas 1,5%.

Vários comentários no tweet remetem para a inexistência de fonte para os dados e há até quem refira que em países mencionados, a Índia, por exemplo, não existem sequer estatísticas oficiais. Da mesma forma, também não identificámos dados oficiais em Portugal sobre a orientação sexual e/ou identidade de género. Aliás, em abril de 2021, o “Público” destacava a “invisibilidade das pessoas lésbicas, gay, bissexuais, ‘trans’ e intersexo” no inquérito do Censos 2021. A ausência de questões relacionadas com identidade de género e orientação sexual no levantamento que estava a ser feito motivou  críticas por parte da ILGA e do Bloco de Esquerda.

Por outro lado, um recente estudo a propósito do mês do orgulho LGBT, da autoria da IPSOS, que realiza estudos de mercado e outras estatísticas, revela que 6% da população portuguesa se identifica como gay, lésbica, bissexual e pansexual. O relatório aponta como base para a estatística divulgada uma amostra de 22.514 inquéritos a adultos online, dos 16 aos 74 anos, em 30 países. Tendo como base esta estatística, Portugal surge nos últimos lugares. Brasil, Espanha e os Países Baixos ocupam o pódio do gráfico, com 14%, 12% e 11%, respetivamente.

Nota-se também na legenda do gráfico que “as amostras no Brasil, Chile, Colômbia, Índia, Irlanda, México, Peru, Portugal, Romênia, Cingapura, África do Sul, Tailândia e Turquia tendem a ser mais urbanas, educadas e/ou ricas do que a população em geral“.

O relatório avalia também a percentagem de pessoas com determinada identidade de género nos mesmos trinta países. Portugal surge no final da lista, com apenas 1% dos inquiridos a identificarem-se enquanto transgénero, não binário, ou com outro género que não o masculino ou feminino.

Assim, o Polígrafo classifica enquanto imprecisa a informação relativa a Portugal ser o segundo país do mundo com maior percentagem de população LGBTQIA+. Não existem dados que o comprovem e não temos acesso às fontes utilizadas pela página “World of Statistics”. No entanto, outros estudos estatísticos fornecem dados completamente diferentes dos apresentados e colocam Portugal num lugar distante do pódio.

___________________________

Avaliação do Polígrafo:

Partilhe este artigo
Facebook
Twitter
WhatsApp
LinkedIn

Relacionados

Em destaque