Francisco Ramos, coordenador do grupo de trabalho responsável pela criação e operacionalização do plano de vacinação contra a Covid-19 em Portugal, deu uma entrevista ao jornal "Expresso", publicada no dia 21 de janeiro, na qual fez o balanço do primeiro mês de administração das vacinas.

Questionado sobre a razão pela qual, ao contrário de outros países europeus que começaram pelos mais velhos, a idade não foi um critério per se na priorização da vacinação, Francisco Ramos respondeu da seguinte forma: "O Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças [ECDC] fez, há poucas semanas, uma recomendação, com base nas seguintes estimativas: se vacinarmos mais idosos, evitamos 43% da mortalidade por Covid-19; mas se, além da idade, acrescentarmos as patologias e baixarmos a fasquia etária, conseguimos evitar 97% da mortalidade por Covid-19. Foi esta a recomendação que seguimos. A base destes números é a de que as mortes por Covid-19 estão quase sempre associadas à existência de outras doenças".

Poucas horas depois da publicação da entrevista, Miguel Poiares Maduro, ex-ministro do Governo de Pedro Passos Coelho, utilizou o Twitter para acusar Francisco Ramos de mentir sobre o documento que citou: "Acabo de ler a entrevista do presidente da comissão de vacinação. Falta à verdade sobre as prioridades do relatório do ECDC, que determina as recomendações da Comissão Europeia para a prioridade serem os +80 [pessoas com mais de 80 anos]".

Quem tem razão?

Em primeiro lugar, importa referir que o plano de vacinação português estabelece que, além dos profissionais de saúde, das forças armadas e das forças de segurança, residentes em lares de idosos e internados em unidades de cuidados continuados, vão ter prioridade no acesso à vacina pessoas com 50 ou mais anos de idade, com doenças graves. Significa isto que as pessoas com 65 ou mais anos, sem patologias, só serão vacinadas depois, por volta do início da Primavera.

Ao invés, vários outros países europeus dão prioridade, logo na primeira fase, a pessoas com mais de 80 anos, estabelecendo assim a idade como critério principal para a prioridade na administração do fármaco. De facto, é acima dos 80 anos que se regista a grande maioria das mortes por Covid-19, também em Portugal.

No que diz respeito à priorização, a recomendação do ECDC traça dois cenários possíveis: um em que a vacina é eficaz em prevenir a doença sintomática, mas não a transmissão; e outro em que a vacina também previne a transmissão. No primeiro caso, o relatório salienta que "quando se trata de maximizar os benefícios para a saúde num cenário de oferta limitada de vacinas, a maior eficiência em termos de mortes evitadas é obtida com a vacinação de adultos com 80 anos ou mais, mas em termos de anos de vida salvos, a estratégia mais eficiente é estender o plano a adultos mais jovens com patologias prévias". No segundo caso, em que a vacina pode prevenir a transmissão, o relatório salienta que "durante o fornecimento limitado de vacinas inicial, a maior eficiência em termos de salvamento de vidas obtém-se através da vacinação de adultos com 80 ou mais anos".

Perante os dois cenários, Tiago Correia, professor de Saúde Internacional, não tem dúvidas sobre aquele que se adapta aos conhecimentos atuais sobre o fármaco: "A vacina, efetivamente, apenas diminui a doença, mas não diminui a transmissão. Ou seja, eu recebo a vacina, não me causa doença, mas eu posso transmitir o vírus".

Tendo em consideração este cenário, o relatório do ECDC admite duas hipóteses de ação: ou começar por vacinar pessoas com mais de 80 anos, para salvar um maior número de vidas; ou estender a prioridade a pessoas mais novas, com doenças associadas, para salvar mais anos de vida, ou seja, pessoas que poderão viver mais tempo.

Foi este segundo cenário que Portugal adotou, o que não significa que está a fugir às recomendações do relatório, mas sim a divergir da tendência dominante (i.e., vacinar, primeiro, as pessoas com mais de 80 anos) no resto da Europa.

Constantino Sakellarides, antigo diretor-geral da Saúde, contactado pelo Polígrafo, garante que "nenhum outro país interpretou" o relatório do ECDC "da mesma forma" que Portugal.

Nesse sentido, Sakellarides vai mais longe. "A Comissão Europeia foi, muito recentemente, taxativa na sua recomendação: até ao fim de março, ter vacinados 80% dos profissionais de saúde e 80% dos maiores de 80 anos", sublinha.

De facto, o referido documento da Comissão Europeia, divulgado no dia 19 de janeiro com o objetivo de estabelecer "uma frente unida para combater a Covid-19", recomenda a priorização dos mais velhos. É com base nesta comunicação que Tiago Correia acredita que Portugal vai acabar por mudar a estratégia de vacinação: "Tem de ser o primeiro país a cumprir, como mensagem política, estando Portugal na Presidência do Conselho da União Europeia".

O Polígrafo também contactou Francisco Ramos que, não querendo alargar-se no comentário sobre o assunto, reitera a informação que deu ao "Expresso". No entanto, de acordo com o documento do ECDC, a estratégia apresentada pelo antigo secretário de Estado da Saúde, de evitar 97% da mortalidade se, "além da idade, acrescentarmos as patologias e baixarmos a fasquia etária", implica que, a par dos mais novos com patologias, também se vacinem os mais velhos. Algo que, para já, não está a acontecer, porque o plano de vacinação não o prevê e porque as vacinas são escassas.

É por isso que Pedro Simas defende que a solução deve passar por "utilizar a vacina de uma forma inteligente" para chegar a mais pessoas, de modo a controlar a pandemia num espaço de tempo mais curto. Em entrevista ao Polígrafo, o virologista considera que "pelo menos, tem de estender-se a segunda dose para 42 dias e, para mim, fazer como os ingleses: administrá-la ao fim de três meses, uma vez que o risco de a vacina não funcionar ao fim de três meses é muito pequeno".

Em conclusão, embora Portugal não esteja a violar as recomendações do ECDC no que respeita à priorização de administração das vacinas, é verdade que está desalinhado com as opções que a maioria dos países europeus tem tomado a esse respeito.

_______________________________

Avaliação do Polígrafo:

Siga-nos na sua rede favorita.
Verdadeiro
International Fact-Checking Network