-
O que está em causa?No debate de ontem entre Nuno Melo e Pedro Marques, o cabeça-de-lista do CDS-PP às eleições europeias foi criticado pelo do PS por causa da possível aprovação no Parlamento da contagem integral do tempo de serviço dos professores. Numa das respostas, Melo sublinhou: "Agora estão a virar-se para a direita porquê? Então e a tal maioria estável e duradoura? Eu recordo-me de Paulo Portas, em 2015, na tomada de posse da dita 'geringonça', dizer que 'os senhores depois não venham cá pedir ajuda!'" Verdade ou falsidade?
Em plena campanha das eleições para o Parlamento Europeu (as quais vão realizar-se em Portugal no próximo dia 26 de maio), os cabeças-de-listas do CDS-PP (Nuno Melo) e do PS (Pedro Marques) enfrentaram-se ontem à noite num debate transmitido pela RTP3. A primeira metade do debate foi praticamente monotemática: a recente iniciativa no Parlamento de aprovação (na especialidade, em comissão parlamentar, a 2 de maio) da contagem integral do tempo de serviço dos professores, com os votos favoráveis do PSD, CDS-PP, BE e PCP.
O diploma ainda terá que ser aprovado (ou não) em reunião plenária, mas a abertura dessa possibilidade abriu desde logo uma crise política, na sexta-feira, dia 3 de maio, com o primeiro-ministro António Costa a ameaçar demitir-se no caso de ser mesmo aprovado.
Perante as insistentes críticas de Marques, referindo-se várias vezes a "uma bomba orçamental", Melo acabou por lembrar um suposto aviso do ex-líder do CDS-PP, Paulo Portas, logo em 2015, quando o Governo de coligação PSD/CDS-PP foi derrubado no Parlamento, resultando na formação do atual Governo do PS (baseado em acordos de incidência parlamentar com o BE, PCP e PEV).
Eis a declaração de Melo, dirigindo-se a Marques: "Agora estão a virar-se para a direita porquê? Então e a tal maioria estável e duradoura? Eu recordo-me de Paulo Portas, em 2015, na tomada de posse da dita 'geringonça', dizer que 'os senhores depois não venham cá pedir ajuda!' E os senhores em 2015, tendo perdido eleições, serviram-se do Parlamento, para permitir que António Costa, que as perdeu, fosse primeiro-ministro. E agora que o Parlamento decide outra coisa qualquer, a culpa é do Parlamento? Mas que democratas é que os senhores são?"
É verdade que Portas avisou Costa em 2015 que depois de formar a "geringonça" não contaria mais com a ajuda da direita?
Sim, é verdade, mas não precisamente nos mesmos termos citados por Melo. E também não foi na tomada de posse da "geringonça", ou mais corretamente do atual Governo do PS, liderado pelo primeiro-ministro António Costa. Esse aviso de Portas foi proferido no dia 10 de novembro de 2015, quando foi votada no Parlamento a moção de rejeição (apresentada pelo PS) ao programa do segundo (e breve) Governo de coligação PSD/CDS-PP, liderado pelo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho.
No mesmo discurso, poucos minutos antes, Portas já tinha lançado outra profecia: "O que a vossa ‘geringonça’ nos oferece é uma espécie de bebedeira de medidas, tudo a correr e de preferência ao mesmo tempo. Ora, como todos sabemos, as bebedeiras têm um só problema: chama-se 'ressaca'".
Naquele que seria o seu último discurso formal no cargo de vice-primeiro-ministro, dirigindo-se a Costa (sentado na primeira fila da bancada parlamentar do PS), Portas afirmou: "Se mais adiante não conseguir gerir a pressão explosiva - podem crer que será explosiva - da demagogia em competição entre o Bloco e o PCP, de um lado, e do realismo e dos compromissos em Bruxelas, do outro, não venha depois pedir socorro" (pode conferir aqui, na gravação em vídeo de partes do discurso).
No mesmo discurso, poucos minutos antes, Portas já tinha lançado outra profecia: "O que a vossa ‘geringonça’ nos oferece é uma espécie de bebedeira de medidas, tudo a correr e de preferência ao mesmo tempo. Ora, como todos sabemos, as bebedeiras têm um só problema: chama-se 'ressaca'".
Em suma, Melo não citou Portas precisamente nos mesmos termos, nem indicou o momento exato da declaração, mas a ideia que transmitiu é verdadeira. De facto, em 2015, Portas avisou Costa que depois de formar a "geringonça" não contaria mais com a ajuda da direita. "Se mais adiante não conseguir gerir a pressão explosiva (…), não venha depois pedir socorro".
Avaliação do Polígrafo: