O alerta é dado através de um documento em formato PDF, no qual consta um comunicado com o seguinte título: "Como funciona o golpe do telefone". O texto, ocupando praticamente uma página inteira, denuncia uma fraude precisamente através de chamadas telefónicas que estará a afetar utilizadores em território nacional. 

Na missiva é explicado o modo de operação dos criminosos: ligam para um equipamento fixo ou móvel e, com o pretexto de que "estão a testar o telemóvel, pedem-lhe para discar 90#". Após esta ação do proprietário do telefone, quem está do outro lado da linha informa que o teste foi bem sucedido e que não há registo de qualquer anomalia no equipamento. Porém, segundo o alerta, após premir as teclas não há nada a fazer: "Daí em diante, todas as ligações feitas por aquela pessoa que lhe telefonou inicialmente serão debitadas na sua conta de telefone".

O documento avisa ainda que "até agora, as companhias telefónicas não sabem como parar, detetar ou evitar esta fraude". Por isso, "é importante" que a informação seja partilhada pelo maior número de pessoas.

Por um lado, por mais estranha que possa parecer a técnica de burla, o comunicado ganha credibilidade e verosimilhança, uma vez que a sua redação é atribuída a Jorge Monteiro, alegadamente um inspetor da Polícia Judiciária.

Por outro lado, o texto também apresenta algumas características que se encontram com frequência em notícias falsas: é vago e contém várias expressões em português do Brasil, como por exemplo "discar" ou "você acaba de habilitar sua linha", além de recorrer a verbos no gerúndio.

Posto isto, a dúvida é legítima: será que o documento é autêntico e, portanto, a fraude em causa é uma ameaça real para qualquer português que utilize um telefone, fixo ou móvel? A resposta é não.

Em primeiro lugar, a identificação do inspetor da Polícia Judiciária que supostamente redigiu a carta indica que o polícia pertence ao Instituto Superior de Polícia Judiciária e Ciências Criminais. Ora, o tal Instituto já não existe desde 2008, ano em que passou a designar-se apenas como Escola de Polícia Judiciária. Mais recentemente, em 2019, adotou a designação de Instituto de Polícia Judiciária e Ciências Criminais. Significa isto que, existindo a possibilidade de ser autêntico, o alerta será muito antigo.

Nesse sentido, o Polígrafo contactou a Polícia Judiciária. Carlos Farinha, diretor nacional-adjunto, admite que, de facto, o inspetor que alegadamente redigiu o alerta "trabalhou na Polícia Judiciária". Porém, está "aposentado desde 2013 e fora do exercício de funções há quase uma década", pelo que "nada teve a ver com a produção do documento" em causa.

Mais, Carlos Farinha garante que "o documento mencionado não corresponde a nenhuma comunicação oficial da Polícia Judiciária" e que "não existem quaisquer fraudes a serem cometidas com recurso ao modo de operação referido".

No contacto feito pelo Polígrafo, a Polícia Judiciária esclareceu também que o falso alerta já é do conhecimento desta polícia desde 2005: "Em diferentes momentos e ocasiões, diligenciámos pela remoção do mesmo de todas as plataformas onde possa estar alojado". No entanto, ciclicamente, o alerta fraudulento volta a circular no espaço virtual.

Em conclusão, tanto é falso que a Polícia Judiciária esteja a alertar os cidadãos para uma fraude através de chamadas telefónicas, como é falso que esteja em curso, neste momento, qualquer fraude relacionada com ligações de voz, nos moldes que são descritos na denúncia.

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