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Poeiras que chegam do Saara são tóxicas e fazem parte de uma conspiração para envenenar a Europa?

União Europeia
O que está em causa?
Nos últimos meses com maior frequência, têm chegado pelo ar ao Sul da Europa, estendendo-se até ao Leste, partículas oriundas do Norte de África. Um vídeo mostra agora o magnetismo destas substâncias e garante que tal característica é a prova da sua toxicidade. Outros vídeos de teor semelhante falam mesmo de um plano para envenenar a Europa, retomando a teoria dos “chemtrails”.

A areia no Saara é atraída por um íman como um aspirador (filmagem feita por um amigo). Ninguém quer saber o que está dentro? Pergunto-me como é que eles interagem com radiação eletromagnética 5G? Veremos outra onda de doenças de todos os tipos [versão traduzida]”.

O texto acompanha, nesta publicação efetuada no Facebook, um vídeo que pretende ser demonstrativo do caráter químico (no caso, metálico) das poeiras vindas do deserto do Saara. Para tal, o autor do vídeo usa o que parece ser uma espécie de íman, para atrair aquelas substâncias que supostamente chegaram à Europa (no caso, à Roménia) pelo ar, pretendo assim comprovar o seu magnetismo.

A lógica de quem faz a publicação é a de que as poeiras contêm magnetismo porque são químicas, logo, tóxicas (“interagem com radiação eletromagnética”). Outras contas nas redes sociais, aparentemente também de pessoas romenas, vão mais longe e explicitam a sua teoria da conspiração: produtos químicos ou outras substâncias são propositadamente lançados no céu para contaminar a Europa (teoria dos chemtrails) .

Os episódios de poeiras do deserto do Saara e todo o Norte de África arrastadas até à Europa têm sido frequentes, os dois últimos quase consecutivos (terceira semana de março e primeira semana de abril deste ano).

Estas poeiras são tóxicas e podem envenenar através do ar?

A AFP na Roménia contactou vários especialistas em áreas científicas ligadas a este tema e todos refutam a interpretação da toxicidade veiculada nas redes sociais.

Lucian Petrescu, professor de Geologia e reitor da Faculdade de Geologia e Geofísica da Universidade de Bucareste, explica que os vídeos nas redes sociais “indicam que a poeira contém minerais contendo ferro, é por isso que as partículas de poeira são atraídas pelo íman”. O também reitor da Faculdade de Geologia e Geofísica da Universidade de Bucareste não tem dúvidas: “A poeira do Saara e do Sahel – que é frequentemente detetada na Grécia, Itália, Portugal ou Espanha, e agora também na Roménia – contém minerais naturais com qualidades magnéticas (…) o que não prova que também seja venenosa”.

Já em março, também à AFP, dois investigadores internacionais associaram estas poeiras a fenómenos naturais e desmistificaram os perigos de radioatividade ou outro qualquer tipo de toxicidade. Juan Cruz Larrasoaña, do Instituto Geológico y Mineral de España, afirmou que “cerca de 6% a 7% do peso da poeira do Saara é composta de óxidos de ferro, principalmente magnetita e hematita, e estes são fortemente magnéticos“. Athanasios Godelitsas, professor do departamento de Geoambiente da Universidade de Atenas, referiu que sua pesquisa “não encontrou partículas projetadas ou episódicas que pudessem representar um perigo, nem encontrou radioatividade”.

Também em março, a diretora do Serviço de Pneumologia do Hospital de Santa Maria, Cristina Bárbara, afirmou ao Polígrafo que “não há nenhuma evidência científica” de que as poeiras oriundas do Norte de África tenham efeitos cancerígenos, notando que esse risco só existiria se houvesse “uma exposição prolongada, durante bastante tempo e crónica”.

É, pois, falso que o facto das poeiras terem caráter magnético signifique que transportem químicos e sejam venenosas. Resulta, sim, da fragmentação originária de minerais, como o ferro, que possuem essa qualidade (magnetismo).

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UE

Este artigo foi desenvolvido pelo Polígrafo no âmbito do projeto “EUROPA”. O projeto foi cofinanciado pela União Europeia no âmbito do programa de subvenções do Parlamento Europeu no domínio da comunicação. O Parlamento Europeu não foi associado à sua preparação e não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores do programa. O Parlamento Europeu não pode, além disso, ser considerado responsável pelos prejuízos, diretos ou indiretos, que a realização do projeto possa causar.

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Avaliação do Polígrafo:

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