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Pfizer disponibilizou vacinas especiais para a Covid-19 aos seus funcionários?

Coronavírus
O que está em causa?
Publicação no Facebook garante que, na Austrália, a farmacêutica preferiu proteger os seus trabalhadores da Covid-19 com uma vacina diferente da que disponibilizou à restante população. E apresenta um vídeo que alegadamente o comprova. Será assim?

“Funcionários da Pfizer afirmam, em uma audiência no Senado na Austrália – que receberam um lote ‘especial’ da ‘vacina’ contra a Covid-19. Diferente daquele que foi distribuído ao público. Qual seria a diferença do lote entre os funcionários da Pfizer e de todos os povos? Talvez os funcionários da Pfizer tenham tomado placebo, enquanto ao resto do mundo injetaram a arma biológica”. Este é o texto de uma publicação no Facebook – que entretanto se tornou viral – ilustrada por um vídeo, curto, que, alegadamente, confirma o seu conteúdo.

fb

O registo em causa dura somente 20 segundos, tem a chancela do senado australiano (área de educação e emprego) e é constituído por estas pergunta e resposta de pessoas que não estão identificadas naquele trecho: “Lemos que o vosso mandato de vacinas usava um lote de vacinas especialmente importado para a Pfizer, que não foi testado pelo TGA [equivalente ao Infarmed]. Isto é rigoroso?”; “Senador, a Pfizer comprometeu-se a importar um lote de vacinas especificamente para o programa de vacinação dos funcionários.”

O vídeo partilhado é autêntico?

Sim. Através da consulta do website do parlamento australiano constata-se que aquela sessão, de facto, existiu. Ocorreu no dia 3 de agosto deste ano (dois dias antes da publicação ora verificada), na Comissão de Educação e Emprego, e os inquiridos foram Brian Hewitt, responsável máximo pelos assuntos regulatórios da Pfizer Austrália e Krishan Thiru, diretor clínico da Pfizer Austrália.

E as imagens apresentam a resposta completa?

Não. A versão integral, quer da transcrição quer do vídeo (a partir das 18h 04m 58s), mostra que a resposta divulgada na publicação é incompleta e que a parte que foi cortada é determinante para entender o seu sentido global.

À pergunta do senador Malcolm Roberts, do Pauline Hanson’s One Nation (partido consensualmente considerado populista de direita), Brian Hewitt (é ele o inquirido no trecho apresentado) responde assim: “A Pfizer comprometeu-se a importar o lote de vacinas especificamente para o programa de vacinação dos nossos funcionários. Tal foi feito para que nenhuma vacina fosse retirada dos stocks do governo. A vacina estava a ser entregue nas clínicas conforme necessário.”

Toda a segunda parte da resposta foi omitida na publicação e é esta que permite perceber o racional da ação da Pfizer: um lote autónomo de vacinas (mas não de composição diferente, para que o contingente de vacinas para a população em geral não tivesse qualquer tipo de subtração por causa da vacinação dos próprios funcionários da farmacêutica).

O mesmo foi explicado pela Pfizer Brasil no comunicado que enviou à “Agência Lupa“: “Quando a vacina ComiRNAty se tornou disponível na Austrália, decidimos disponibilizar a proteção para os funcionários da companhia na região, sem diminuir a quantidade de vacinas disponíveis naquele país. Dessa forma, importamos doses adicionais que foram disponibilizadas para os funcionários da Pfizer. Ressaltamos que os colaboradores da Pfizer receberam as mesmas vacinas e ao mesmo tempo em que o público geral da população australiana.”

É, assim, falso que a Pfizer tenha disponibilizado aos seus próprios funcionários na Austrália uma vacina para a Covid-19 diferente da que forneceu à restante população do país. A publicação de Facebook que veicula esta informação baseia-se num vídeo com a resposta incompleta do responsável da Pfizer.

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Avaliação do Polígrafo:

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