A crença de que pessoas negras estão protegidas contra o cancro da pele por terem mais melanina é comum. E apesar de a ideia ter uma base real (a melanina, de facto, protege a pele de raios ultravioleta), é enganadora.
“O risco de cancro cutâneo, principalmente melanoma e carcinomas basocelular e espinocelular, é maior nos indivíduos de pele mais clara, mas não significa que estes cancros não afetem também pessoas com fototipos mais elevados [pele e cabelo mais escuros]”, explica Cecília Moura, diretora do serviço de dermatologia do IPO de Lisboa.
Em muitos casos, essa perceção errada leva a um diagnóstico tardio, com consequências graves para o doente.
Níveis elevados de melanina impedem o risco de cancro da pele?
É um mito comum, mas é falso. Pessoas com fototipos mais altos podem desenvolver cancro da pele e “devem verificar regularmente o tegumento cutâneo (pele) e respeitar os cuidados de fotoproteção indicados para o seu fototipo”, sublinha a médica.
É verdade que a maior quantidade de melanina presente em peles mais escuras oferece uma proteção natural contra os efeitos nocivos da radiação ultravioleta (UV), mas essa proteção não é absoluta.
De acordo com a Skin Cancer Foundation, o cancro da pele representa entre 1 e 2% de todos os cancros em pessoas com fototipo 6 (a classificação mais alta). É uma percentagem significativamente inferior à das pessoas de pele clara — mas não é nula.
E o risco está não só na incidência, mas sobretudo na deteção tardia. “Estes cancros cutâneos tendem a ser diagnosticados mais tardiamente, o que afeta a sobrevida do doente”, alerta Cecília Moura.
“Há famosos conhecidos que faleceram por melanoma, como o caso de Bob Marley”, que afirmou que a mancha escura que aparecera debaixo de uma unha era resultado de uma lesão de futebol. Era um melanoma, que acabou por evoluir e espalhar-se para várias partes do corpo.
Como é que se manifesta?
Os cancros da pele em pessoas negras não só existem como, não raras vezes, têm características específicas que dificultam a sua deteção precoce.
“Normalmente, o melanoma manifesta-se nos indivíduos de fototipos mais altos nas extremidades (mãos, pés, unhas), sendo menos frequente no resto da pele”, explica Cecília Moura.
Ou seja, ao contrário do que acontece frequentemente em pessoas com peles claras — em que o melanoma tende a surgir em zonas mais expostas ao sol —, em pessoas negras as lesões aparecem frequentemente em áreas como a planta dos pés, palmas das mãos, unhas e mucosas.
Outros sinais de alarme são a “modificação do aspeto de lesão pigmentada, nomeadamente no tamanho, forma, cor, modificação de cicatriz crónica, úlcera que não cura, banda pigmentada numa unha”, “similares aos sinais em peles mais claras”.
A ideia errada de que o cancro da pele não afeta pessoas negras pode levar os doentes a ignorar sintomas ou ao atraso na procura de cuidados médicos. “[O diagnóstico] pode demorar mais tempo se for considerado que não há risco de cancro cutâneo e se esta população não for alertada para os sinais de alarme”, sublinha a especialista.
Esta conclusão é também sustentada por dados científicos. Cecília Moura refere um estudo publicado em 2022 na revista Dermatology Practical & Conceptual, que analisou, ao longo de 20 anos, 38 589 casos de cancro da pele num hospital norte-americano. Entre esses, apenas 165 doentes eram negros, o que parece indicar menor prevalência. Os autores dizem que o número baixo pode também ser explicado, de forma mais indireta, pelo facto de haver “disparidades no acesso à saúde”.
A mesma investigação identifica características comuns nos casos de cancro da pele em pessoas negras. A forma mais frequente é um tipo chamado melanoma acral lentiginoso, o mesmo que afetou Bob Marley, que costuma aparecer nas palmas das mãos, plantas dos pés ou debaixo das unhas. Ao examinar estas lesões com um aparelho que amplia a pele (dermatoscópio), os médicos observaram um padrão chamado “parallel ridge”, em que a pigmentação escura segue as “cristas” da pele e não os sulcos. Outro sinal visual identificado foi um anel de pele mais clara à volta da mancha escura do tumor.
Este estudo reforça que o cancro da pele apresenta-se de forma específica em fototipos mais altos e que os profissionais de saúde devem estar treinados para reconhecer essas particularidades.
Que cuidados se deve ter?
A fotoproteção e a vigilância cutânea são essenciais para todos os fototipos. A crença de que não é necessário para pessoas com peles mais escuras usar protetor solar ou vigiar lesões por “não apanhar escaldões” é incorreta e pode ser perigosa.
“A melanina absorve e dispersa a radiação UV e atua também como antioxidante. É fundamental para a proteção da pele”, explica Cecília Moura. “Os indivíduos albinos, alguns de origem africana, têm risco muito elevado de cancro cutâneo e risco de falecer em consequência do cancro cutâneo”. Mas ter maior concentração de melanina não confere imunidade à doença.
A recomendação da especialista é clara: todas as pessoas, independentemente do seu tom de pele, devem observar regularmente a pele e adotar medidas de fotoproteção adequadas — como evitar exposição solar intensa e aplicar protetor solar com FPS ajustado ao fototipo.
Além disso, é fundamental que os sinais de alarme do cancro da pele sejam divulgados para que o diagnóstico seja feito a tempo, considera a médica.
Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.
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