Há um argumento que tem sido usado com frequência para descredibilizar o trabalho do epidemiologista Manuel Carmo Gomes na Comissão Técnica de Vacinação contra a Covid-19. Vários internautas - alguns dos quais são membros de grupos de Facebook com publicações negacionistas da Covid-19 e antivacinação - garantem que este perito da DGS tem um doutoramento em migração de sardinhas.

“Entre os peritos da Comissão de vacinação da DGS temos um controlador de sardinhas, depois do arrumador de traineiras”, escreve um utilizador no Twitter.

Confirma-se que Manuel Carmo Gomes é doutorado em migração de sardinhas?

O Polígrafo contactou a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), instituição na qual Manuel Carmo Gomes trabalha, para perceber se a informação avançada pelos internautas é verdadeira.

A instituição garante ao Polígrafo que a tese de doutoramento de Manuel Carmo Gomes teve como tema a “Modelação de Ecossistemas, com o título principal Predictions Under Uncertainty. Fish Assemblages and Food Webs on the Grand Banks of Newfoundland, aplicado ao grande banco da Terra Nova”. De acordo com a FCUL, este tema não está relacionado com sardinhas, ao contrário do que tem sido dito nas redes sociais. O Polígrafo consultou a tese de doutoramento do especialista e também não encontrou qualquer referência a sardinhas.

A Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa esclarece ainda que “este doutoramento em Biologia foi terminado em 1991” e que Manuel Carmo Gomes “iniciou a sua colaboração com a Direção-Geral da Saúde em 1995”.

O Polígrafo questionou a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa sobre se o facto de Manuel Carmo Gomes ter estudado modelação de ecossistemas o torna um epidemiologista menos capaz de fazer o seu trabalho. A resposta da instituição, validada pelo próprio epidemiologista, garante que não: "os instrumentos matemáticos usados para lidar com sistemas complexos (muitas variáveis, parâmetros, interações) e acerca dos quais existe incerteza, quer sobre os valores numéricos dos parâmetros, quer sobre a ligação entre as suas componentes, são instrumentos que tanto se podem revelar úteis para analisar ecossistemas como para analisar a propagação de uma pandemia. O que há em comum entre as duas coisas é a complexidade e a imprevisibilidade.”

  • Novo coordenador do Plano de Vacinação contra a Covid-19 é um veterinário?

    Após a extinção da "task force" e o retorno do vice-almirante Henrique Gouveia e Melo ao Estado-Maior-General das Forças Armadas (EMGFA), compete ao coronel Carlos Penha Gonçalves assumir o protagonismo na liderança do Núcleo de Coordenação do Plano de Vacinação contra a Covid-19. Mas em várias publicações nas redes sociais alega-se que é um médico veterinário, carecendo supostamente de formação adequada ao cargo que está a desempenhar. Verificação de factos.

A FCUL vai mais longe e explica que “no caso do doutoramento, o sistema complexo sob análise foi um ecossistema onde além de peixes, mamíferos marinhos e crustáceos, há outros intervenientes, nomeadamente a ação dos humanos”. A mesma nota informa que “este doutoramento terminou em 1991” e que “depois disso houve um percurso de mais de 25 anos dedicado a outro tipo de sistemas complexos: a propagação de doenças infecciosas”.

“O professor Manuel Carmo Gomes tem trabalho publicado em vacinação, tuberculose, sarampo, difteria e pertússis, além de colaboração de mais de 20 anos na Comissão Técnica de Vacinação”, remata.

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Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking (verificação de factos) com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

Na escala de avaliação do Facebook, este conteúdo é:

Falso: as principais alegações dos conteúdos são factualmente imprecisas; geralmente, esta opção corresponde às classificações "Falso" ou "Maioritariamente Falso" nos sites de verificadores de factos.

Na escala de avaliação do Polígrafo, este conteúdo é:

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