"Vamos fazer esta besta famosa para a polícia", apela-se em publicação que conta com mais de 4 mil partilhas no Facebook. Na fotografia pode ver-se um jovem a agarrar um cão pelo cachaço.

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Mas será que este método de agarrar nos cães lhes causa dor?

Questionada pelo Polígrafo, Margarida Marques Pereira, veterinária, sublinha que quando os cães são bebés e não estão completamente desenvolvidos é prática comum ver as mães a pegar-lhes pelo cachaço. "Não sentem grande dor e é uma forma de fazer uma correta imobilização do cão", explica.

"Quando já são jovens ou adultos, é claro que dói, ainda que o grau de tolerância à dor dos cães seja diferente da nossa", distingue. "Mesmo entre raças essa tolerância é diferente. Pode ser traumatizante para os animais. Se for momentâneo, o animal pode não se sentir confortável, mas não se sentir traumatizado. Depende sempre do contexto".

"Quando já são jovens ou adultos, é claro que dói, ainda que o grau de tolerância à dor dos cães seja diferente da nossa", distingue a veterinária Margarida Marques Pereira. "Mesmo entre raças essa tolerância é diferente. Pode ser traumatizante para os animais. Se for momentâneo, o animal pode não se sentir confortável, mas não se sentir traumatizado. Depende sempre do contexto".

"Não acredito que lhes cause alguma lesão física, a não ser a pessoa seja violenta ao ponto de provocar um hematoma. No mínimo, não é confortável mas que se possa dizer que está a provocar lesões por pegar nele assim, não me parece. Se fosse um cão mais pesado, poderia ser mais complicado. Mas de qualquer das formas vê-se na fotografia que o animal não está confortável", ressalva.

Por sua vez, Gonçalo da Graça Pereira, veterinário e especialista em Comportamento Animal, acredita que o dono do cão esteja a exercer aquela força por desconhecimento de causa. "O jovem está a segurar o cão pelo cachaço (pele solta do pescoço), sem eu saber o motivo que o leva a fazê-lo. Poderá ser para mostrar a dominância, poderá ser para demonstrar que controla o cão, poderá ser como forma de repreensão, poderá ser como forma de exibição... O que está na origem deste comportamento do jovem, não sabemos", ressalva.

"Da perspetiva do cão, esta manipulação, é algo que é feito pela progenitora numa fase muito precoce da infância do cachorro. A partir de certa altura a cadela deixa de o fazer. Ainda assim, baseados nestas observações comportamentais da cadela, e numa teoria dos anos 70 (denominada como 'teoria da dominância'), em que se acreditava que os cães eram como os lobos e que viviam num sistema hierárquico linear em que um determinado estatuto social (alfa, líder) era adquirido pela força, alguns profissionais passaram a recomendar e a usar técnicas como esta para demonstrarem que são eles quem manda, e na tentativa de controlar o cão", afirma Pereira.

A pele tem recetores da dor, denominados como nociceptores, além de que, ao agarrar desta forma, estamos a manipular outras estruturas anatómicas além da pele. No entanto, lesões graves poderiam apenas ocorrer em situações em que esta manipulação seja mantida durante longos períodos ou o cão se debata e acaba por originar lesões neurológicas e/ou ortopédicas ao nível do pescoço", sublinha o veterinário Gonçalo da Graça Pereira.

Mas este tipo de manipulação causa dor ao animal, garante. Contudo, neste caso específico, por se tratar de uma fotografia desprovida de contexto, diz que não se pode assumir que o cão esteja a sofrer. "Na fotografia podemos presumir que o cachorro está numa postura de 'freeze', que é utilizada em situações de medo, stress, apaziguamento, ou dor. A pele tem recetores da dor, denominados como nociceptores, além de que, ao agarrar desta forma, estamos a manipular outras estruturas anatómicas além da pele. No entanto, lesões graves poderiam apenas ocorrer em situações em que esta manipulação seja mantida durante longos períodos ou o cão se debata e acaba por originar lesões neurológicas e/ou ortopédicas ao nível do pescoço", sublinha.

"Em termos 'psicológicos' e comportamentais, este tipo de manipulação, apesar de se basear em suposta ciência, como anteriormente mencionado, feita nos anos 70, atualmente temos muitos outros estudos que demonstram que apenas estamos a confundir o cão, a causar medo e a deteriorar o relacionamento entre o tutor e o seu animal. De facto, muitos dos problemas comportamentais que consulto no meu dia-a-dia devem-se a erros de comunicação e desconhecimento da parte dos tutores", conclui.

Desconhecendo o contexto e o tempo durante o qual o animal foi agarrado, não é possível averiguar se este cão em concreto esteve ou não em sofrimento, ou se lhe foi causada qualquer tipo de lesão. De qualquer modo, não é uma forma correta de pegar nestes animais.

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Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking (verificação de factos) com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

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Verdadeiro: as principais alegações do conteúdo são factualmente precisas; geralmente, esta opção corresponde às classificações "Verdadeiro" ou "Maioritariamente Verdadeiro" nos sites de verificadores de factos.

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