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Passos Coelho foi “o Primeiro-Ministro que teve a lata de aconselhar os jovens a emigrar”?

Política
O que está em causa?
Esta semana gerou controvérsia por ter apresentado o livro "Identidade e Família", mas o antigo Primeiro-Ministro é um alvo recorrente nas redes sociais, com especial incidência em "memórias" do período da "Troika". E as críticas nem sempre têm sustentação factual, como neste caso específico sobre a emigração dos jovens.
© Agência Lusa / Miguel A. Lopes

Em recente publicação no Threads invoca-se uma “memória” segundo a qual “Pedro Passos Coelho foi o Primeiro-Ministro que teve a distinta lata (eu acho que foi uma argolada, só) de aconselhar os jovens a emigrar“.

Mas o facto é que não há registo público que comprove essa “memória”, durante o período de governação de Passos Coelho, entre 2011 e 2015, que coincidiu com a aplicação do programa de resgate financeiro da “Troika”.

Desde há muitos anos que tal equívoco circula nas redes sociais, tendo origem numa entrevista que Passos Coelho, nas funções de Primeiro-Ministro, concedeu ao jornal “Correio da Manhã” em dezembro de 2011.

Nessa entrevista, questionado sobre se aconselharia os “professores excedentários que temos” a “abandonarem a sua zona de conforto” e a “procurarem emprego noutro sítio”, Passos Coelho respondeu: “Em Angola e não só. O Brasil tem também uma grande necessidade ao nível do ensino básico e secundário de mão-de-obra qualificada e de professores.”

“Sabemos que há muitos professores em Portugal que não têm, nesta altura, ocupação. E o próprio sistema privado não consegue ter oferta para todos”, realçou o então Primeiro-Ministro.

Apontou também para “uma demografia decrescente” em Portugal, pelo que “nos próximos anos haverá muita gente em Portugal que, das duas uma: ou consegue nessa área fazer formação e estar disponível para outras áreas ou, querendo manter-se sobretudo como professores, podem olhar para todo o mercado da língua portuguesa e encontrar aí uma alternativa.”

Ou seja, Passos Coelho sugeriu “uma alternativa” de “emigração” para os professores desempregados. Não aconselhou “os jovens” em geral a emigrar.

Aliás, em dezembro de 2013, o mesmo Passos Coelho referiu-se à emigração de jovens qualificados como algo “doloroso“.

“Por isso nos dói tanto que entre aquilo que hoje são mais desenvolvidos e evoluídos do ponto de vista do conhecimento que adquiriram em termos académicos muitos deles tenham que escolher outras paragens para poderem aceder ou a estágios ou à sua realização profissional”, declarou, no âmbito de uma cerimónia de entrega de prémios de associativismo juvenil, em Lisboa.

Nessa altura sublinhou também que “tendo nós esta geração tão qualificada, objetivamente, depositamos nela uma grande esperança para que as transformações no tecido social e económico que precisamos de fazer possam ser transformações mais profundas do que aquelas que fizemos no passado”.

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Avaliação do Polígrafo:

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