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Colégio de Pediatria da Ordem dos Médicos desaconselhou a vacinação para a Covid-19 em crianças?

Sociedade
O que está em causa?
No facebook, o partido ADN partilha um parecer assinado pela direcção do Colégio da Especialidade de Pediatria e indica que este revela que a "Ordem dos Médicos [é] contra a vacinação em crianças". O parecer é real, mas será que se posiciona contra a vacinação contra a Covid-19 em crianças?

“Ordem dos Médicos contra a vacinação em crianças… Parecer da Ordem do Colégio de Pediatria da Ordem dos Médicos sobre a vacinação Covid-19″, começa por destacar um post no Facebook do partido Alternativa Democrática Nacional (ADN).

De seguida é citado um documento partilhado na publicação, assinado, alegadamente, pela direcção do Colégio da Especialidade de Pediatria em que se afirma o seguinte: “Nesse sentido, somos de parecer que a situação epidemiológica da Covid-19 em Portugal, no que toca a gravidade e mortalidade em setembro de 2023, não justifica que se considere a vacinação generalizada de crianças ou adolescentes.”

“O partido ADN congratula-se por esta mudança de mentalidade que está a haver na sociedade portuguesa e, em particular, na Ordem dos Médicos”, conclui o post.

Será então este parecer real?

Sim, no site da Ordem dos Médicos, na categoria “Colégio da Especialidade de Pediatria”, identifica-se o parecer a que se refere o partido ADN. Este foi publicado no site no dia 18 de setembro com o título “vacinação infantil contra Covid-19“.

“Atualmente há um recrudescimento do número de infecções e risco de contágio, todavia sem a gravidade ou mortalidade dos primeiros surtos da infecção pelo SARS-COV2. Como é do conhecimento geral, as sucessivas variantes têm revelado alta contagiosidade, mas reduzida mortalidade. Essa evolução tem justificado a redução de medidas de isolamento individual, afastamento social ou de novo uso generalizado de máscaras, como tem sido reconhecido pelas autoridades de saúde e pelo Director do Programa de Prevenção e Controlo de Infecções e de Resistência a anti-microbianos da DGS, em declarações recentes à imprensa”, começa por apontar o documento.

De acordo com o parecer “a situação epidemiológica da Covid-19 em Portugal, no que toca a gravidade e mortalidade em setembro de 2023, não justifica que se considere a vacinação generalizada de crianças ou adolescentes”.

No entanto, a publicação do ADN carece de contexto. Ou seja, para além de estar em causa a situação epidemiológica da Covid-19 em Portugal menos gravosa que motiva este posicionamento, o mesmo acrescenta que “consideração individual poderá e deverá ser ponderada em crianças e jovens com graus de comorbilidades que justifiquem a proteção que possa ser conferida pela vacinação, reiterando as considerações dos documentos emitidos em 2021”.

O Polígrafo contactou o presidente do Colégio de Pediatria da Ordem dos Médicos, Jorge Amil Dias, que rejeitou que o parecer se posicione contra a vacinação Covid-19 em crianças e adolescentes.

“O documento é claro, não diz lá nada sobre isso. Aquele documento refere-se unicamente à não conveniência de recomendar a vacina universal em todas as crianças“, começa por esclarecer Amil Dias ao Polígrafo.

“O que lá diz é que cada situação em crianças e adolescentes deve ser avaliada individualmente e se o médico entender que há razão de uma proteção adicional por outras doenças que tenha, aí fará a recomendação adequada. Mas, como se disse em tempos que era necessário vacinar as crianças todas, nós achamos, e está plasmado no documento, que não é o nosso ponto de vista”, frisa o pediatra.

Em 2021, Amil Dias já manifestava algumas dúvidas relativamente à vacinação generalizada contra a Covid-19 em crianças, tendo até sido alvo de queixa apresentada por 16 médicos. Na altura, o presidente do Colégio da Especialidade de Pediatria alegou que falava a título pessoal e defendia que “em momento algum” falou em nome da Ordem ou do bastonário.

Quase dois anos volvidos, Amil Dias faz a ponte entre a sua opinião de então e a atualidade. “Em 2020 e 2021 havia uma situação epidemiológica substancialmente diferente, em agressividade do vírus e gravidade de infeções, mesmo assim, felizmente, as infecções em crianças foram benignas, foram excecionais os casos de alguma complicação e que não tiveram que ver com a gravidade da doença, mas com uma reação individual. Uma parte substancial das crianças ficaram imunizadas sem precisar de tomar vacina nenhuma e, portanto, achei inapropriado fazer uma recomendação universal de vacinar todas as crianças porque não havia risco substancial e tratava-se de uma vacina poderia ter alguns inconvenientes como se tem visto”, afirma.

“Hoje a situação epidemiológica é completamente diferente, a infeção apesar de estar muito difundida não tem gravidade, é uma infeção como são as gripes ou constipações e, portanto, há ainda menos evidência de benefício em estar a expor crianças e gastar dinheiro em vacinas. Portanto, hoje há ainda menos razão para recomendar a vacinação universal das crianças e é só isso que dizemos”, conclui o pediatra ao Polígrafo.

Em suma, o documento não se posiciona contra a vacinação contra a Covid-19, manifesta-se antes contra a recomendação de vacinação a todas as crianças. Este parecer, tendo em conta a situação epidemiológica menos grave do que em 2020 ou 2021, considera que a vacinação deve ser recomendada mediante avaliação individual de cada criança.

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Avaliação do Polígrafo:

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