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Paracetamol na gravidez é a causa do aumento dos casos de autismo, como diz Trump?

Saúde
O que está em causa?
Numa conferência de imprensa, Donald Trump sugeriu que o paracetamol aumenta o risco de autismo e a leucovorina reduz os sintomas da doença. Confirma-se?
DR: Francis Chung/EPA

Numa conferência de imprensa na Sala Oval na Casa Branca, Donald Trump alegou que “o uso de paracetamol (comumente conhecido como Tylenol, nos Estados Unidos da América) durante a gravidez pode estar associado a um grande risco de autismo”. Segundo o presidente dos EUA, a toma deste medicamento na gravidez é o motivo do aumento do número de casos de autismo. Por isso, recomenda que as grávidas não tomem paracetamol, a não ser “em casos de febre extremamente alta”, que não se consiga suportar.

Foi ainda revelado que se vai passar a receitar leucovorina (ácido folínico) em casos de autismo, devido aos seus supostos “potenciais benefícios na redução de alguns sintomas” da doença. Existe evidência científica que corrobora as alegações de Trump? 

Está comprovado que tomar paracetamol durante a gravidez aumenta o risco de autismo?

Em declarações ao Viral, o psiquiatra Carlos Filipe e o especialista em Medicina Geral e Familiar Paulo Santos adiantam que não há evidência científica robusta de que tomar paracetamol durante a gravidez aumenta o risco de autismo, como diz Trump.

Ao que tudo indica, “o autismo tem uma causa predominantemente genética”, começa por sublinhar Carlos Filipe (ver também aqui). 

Eventualmente, “existem alguns fatores que podem facilitar o aparecimento do autismo”, mas o único que “tem uma demonstração mais robusta” é “a idade dos pais, sobretudo a idade do pai e a diferença de idades entre o pai e a mãe”, prossegue o diretor clínico da Associação Portuguesa para as Perturbações do Desenvolvimento e Autismo de Lisboa.

“Quando existe a passagem dos genes do pai e da mãe para a criança, os genes com mais idade são, de facto, mais propensos a dar erros nessa transmissão”, sustenta.

A questão do paracetamol levantada por Trump pode ter surgido a propósito de “trabalhos observacionais que apontam no sentido de poder haver uma relação entre o paracetamol e o autismo”, sublinha Paulo Santos.

No entanto, explica o professor na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), “os estudos observacionais não provam relações causais”, porque “há todo um conjunto enorme de fatores confundidores” que podem ser difíceis de isolar completamente.

É isto que acontece nos estudos observacionais que referem uma possível ligação entre a toma de paracetamol e o autismo. Nestes trabalhos, “quando se ajusta para o facto de algumas crianças terem o mesmo componente genético, essa associação entre o paracetamol e o autismo desaparece”, explica Paulo Santos.

Isto significa que, “provavelmente, o componente genético justifica mais o aparecimento de um caso de perturbação do espetro do autismo do que propriamente a toma do paracetamol” (ver também aqui e aqui).

Assim, defende o médico, “neste momento não temos base de evidência que nos permita fazer o tipo de alarmismo social que o presidente dos Estados Unidos fez no seu discurso”.

“Tanto quanto nós sabemos, o paracetamol continua a ser seguro durante a gravidez e não levanta questões significativas”, salienta o especialista.

Segundo Paulo Santos, “não existe nenhuma opção melhor para tratar a dor e a febre durante a gravidez”, porque todas as outras opções, sejam “anti-inflamatórios” ou “analgésicos opioides”, além de “serem mais arriscados em termos de efeitos secundários, não baixam a febre, apenas tiram a dor”.

Apesar disso, é importante perceber que a recomendação geral durante a gravidez continua a ser “só tomar medicação (incluindo suplementos) se for realmente necessário”. Havendo essa necessidade, recorre-se a medicamentos seguros do ponto de vista da evidência, como o paracetamol.

No seguimento das alegações de Trump, o Infarmed emitiu um comunicado em que reforça que o “uso de paracetamol durante a gravidez mantém-se inalterado na UE” (União Europeia).

De acordo com a informação disponível no site do Infarmed, “o paracetamol (também conhecido como acetaminofeno) pode ser utilizado para reduzir a dor ou a febre durante a gravidez, se clinicamente necessário” e, “atualmente, não existem novas evidências que justifiquem alterações às recomendações da UE relativamente ao seu uso”.

Segundo a informação do medicamento “relativa ao paracetamol na UE, uma grande quantidade de dados provenientes de mulheres grávidas que utilizaram este medicamento durante a gestação indica que não existe risco de malformações no feto em desenvolvimento nem nos recém-nascidos”, lê-se no mesmo comunicado.

Os casos de autismo aumentaram muito ao longo dos anos?

Durante a conferência, Donald Trump alega ainda que os casos de autismo têm aumentado muito desde o início dos anos 2000. Mas, segundo Carlos Filipe, a interpretação dos dados não pode ser assim tão taxativa.

De facto, “existem estudos que apontam para um ligeiro aumento da prevalência de autismo”, mas afirmam-no “com grande insegurança”, sublinha.

Em causa está o facto de “os estudos serem feitos a posteriori, devido à dificuldade de diagnóstico de autismo no bebé”. Isto significa que se sabe “a prevalência (todos os casos, novos e antigos)” do autismo, “mas não se sabe a incidência (novos casos)”, explica o psiquiatra.

Também a Federação Portuguesa de Autismo (FPA) refere a existência de um aumento do número de casos diagnosticados nos últimos 30 anos, ressalvando que “este crescimento pode, em parte, ser resultado de uma maior consciencialização relativamente ao autismo, das mudanças nos critérios de diagnóstico do autismo e do facto de as crianças serem diagnosticadas cada vez mais cedo”.

Nos Estados Unidos, sobretudo, “os critérios de diagnóstico de autismo foram de tal forma alargados que hoje são classificados como tendo autismo pessoas que, há uns anos, nunca teriam sido classificadas como tal”, sublinha Carlos Filipe.

A leucovorina trata sintomas de autismo?

A leucovorina, referida pela administração de Trump como um fármaco que pode reduzir os sintomas de autismo, trata-se de ácido folínico, uma forma de folato (uma vitamina), parecida com o ácido fólico.

Tal como explica Paulo Santos, “o ácido fólico é utilizado, em doses baixas, durante a gravidez para a prevenção dos defeitos do tubo neural”.

Por outro lado, o ácido folínico é utilizado “de forma profilática em alguns doentes com cancro” e em pessoas que estão a tomar certos antibióticos “que interferem com o metabolismo do ácido fólico dentro do organismo”.

Além disso, ambas as formulações podem ser recomendadas em casos de défice comprovado de ácido fólico.

Carlos Filipe explica que o défice de ácido fólico durante a gravidez “pode provocar alterações do comportamento e a nível intelectual nas crianças”.

Em casos em que isso acontece, “a administração de ácido fólico melhora ligeiramente a performance cognitiva e diminui fatores como a irritabilidade e alterações comportamentais” nas crianças.

Segundo o psiquiatra, “o défice intelectual e as alterações do comportamento também podem estar presentes no autismo”, mas estas alterações, por si só, não implicam a presença de uma perturbação do espetro do autismo.

Uma criança pode ter autismo e não ter défice de ácido fólico e outra pode ter défice de ácido fólico e não ter autismo. Só nos casos em que há défice desta vitamina é que a suplementação pode melhorar os sintomas cognitivos.

Na perspetiva dos médicos, o autismo é uma doença séria, com um grande impacto na vida dos doentes e das suas famílias e promover ideias sem evidência científica robusta é perigoso e desrespeitoso.

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