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Papa Francisco autorizou o Fórum Económico Mundial a reescrever a Bíblia?

Internacional
O que está em causa?
Alega-se na rede social X que o sumo pontífice autorizou o Fórum Económico Mundial a reescrever as escrituras sagradas de forma a eliminar a "desinformação" presente na Bíblia para que esta se torne "muito mais política, com um lugar central para o primazia da natureza, e muito menos sobre Deus". É verdade?

Para assinalar o dia 25 de dezembro, alega-se num tweet que “o Papa Francisco também tem uma mensagem de Natal” para si. E prossegue-se: “O Fórum Económico Mundial (FEM) recebeu autorização do Papa Francisco para reescrever a Bíblia Sagrada, de acordo com uma fonte do WEF que revela que o papa deseja que a nova versão ‘verificada de fatos’ da Bíblia seja muito mais política, com um lugar central para o primazia da natureza, e muito menos sobre Deus.”

O tweet afirma ainda que o “Papa Francisco já declarou que Klaus Schwab [fundador do FEM] é mais importante que Jesus Cristo e agora está determinado a desmantelar o Cristianismo por dentro e substituir a palavra de Deus pela visão demoníaca da elite global”. Acusa-se mesmo o sumo pontífice de, entre outras coisas, ser um “satanista escondido à vista de todos“.

Mas será verdade que o Papa autorizou que se reescrevesse a Bíblia?

A alegação provém, segundo indica o tweet, do “The People’s Voice”, que é uma reformulação do “News Punch”, um site norte-americano que difunde recorrentemente fake-news e desinformação.

Na suposta notícia é partilhada uma captura de ecrã (a mesma partilhada no tweet), proveniente da conta verificada do Papa Francisco, em que é dito que “a desinformação na Bíblia sagrada deve ser verificada e apagada”. Além de a fonte para a notícia ser logo uma pista para a autenticidade da alegação, ao verificar a conta do Papa na rede social X também não se encontra nenhum tweet que sustente que o sumo pontífice queira “reescrever a Bíblia Sagrada”.

Pelo contrário, o Papa Francisco apela à aproximação destas escrituras numa leitura acompanhada de oração. Disse-o, por exemplo, na audiência geral de 27 de janeiro de 2021, quando afirmou: “Devemos aproximar-nos da Bíblia sem segundas intenções, sem a instrumentalizar” e que as palavras escritas na Bíblia “devem ser acolhidas, devem ser compreendidas, para que o encontro se realize.”

Também não existe qualquer notícia – de fonte credível – que esteja de acordo com o que o site “The People’s Voice” aponta, nem nenhuma indicação por parte do FEM de que tenha recebido uma autorização nesse sentido, o que seria improvável caso fosse esta a vontade do Papa.

Em declarações à AFP, em 2019, o especialista em temas do Vaticano e diretor do Departamento de Humanidades da Universidade de La Sabana, Hernán Olano, garantiu que estas notícias falsas “provêm não apenas de círculos anticatólicos, mas também de reações dentro do Catolicismo contra a implementação na atualidade da doutrina do Papa“.

Olano sublinha que “em nenhum momento o Papa disse que a Bíblia deve ser mudada, nem os mandamentos, nem o Antigo Mandamento, nem os sacramentos”, ainda que admita “tudo deve estar em consonância com todos os momentos da Humanidade”.

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Avaliação do Polígrafo:

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