Quando escreveu a canção “Venus”, em 1969, o holandês Robbie van Leeuwen, dos Shocking Blue, acertou em cheio na construção musical mas falhou, logo ao primeiro verso, na ortografia. Em vez de “Goddess" (deusa), Leeuwen escreveu “Goddness”. Uma gralha que a vocalista Mariska Veres pronunciou na perfeição e que não impediu o tema de chegar ao primeiro lugar nos tops de 9 países, em 1970: França, Bélgica, Espanha, Itália, África do Sul, Nova Zelândia, Austrália, Canadá e EUA.

Todas as inúmeras versões posteriormente gravadas iriam corrigir o erro de Leeuwen, incluíndo a das britânicas Bananarama, que cantam “Venus” nas suas atuações desde que se juntaram, em 1979. A gravação em disco aconteceu apenas ao terceiro longa duração, "True Confessions”, de 1986, e teve a mão do trio de produtores Stock, Aitken e Waterman, responsável pelo hit “You Spin me Round (Like a Record)”, dos Dead or Alive, ou “I Should Be So Lucky", de Kylie Minogue.

Bananarama

Venus” é espelho do efeito Stock, Aitken e Waterman nas Bananarama: uma versão com ritmos mais dançáveis, e (ainda) mais orelhuda que o original que acabaria por afirmar-se como a versão definitiva do tema. A canção regressou ao número um nos EUA, 16 anos mais tarde, e é uma das poucas a conseguir este feito.

A canção conseguiu, ainda, passar incólume pela ironia primária de Beavis & Butt-Head, a dupla de desenhos animados teenagers completamente alienados criados por Mike Judge para a MTV. Beavis e Butt-Head tentaram, sem êxito, encontrar uma palavra que rimasse com “Venus”, mas à medida que o teledisco avança surge em cena uma versão feminina do diabo e uma vampira e a sua atenção focou-se nessas figuras que, de alguma forma, remetiam para o universo gore de uma das suas bandas preferidas, os Gwar, cujos elementos surgem em cena sempre vestidos de monstros, como se tivessem saído de um filme de terror. Daí a sugerirem um cruzamento entre as Bananarama e a banda de heavy metal foi um passo: «os seus filhos iriam dominar o mundo.»

Regressando aos Shocking Blue, existe outra canção da banda, também de 1969, que, ao contrário de “Venus”, só se tornou conhecida/reconhecida depois de ter sido gravada por outra banda. A nova versão não foi, contudo, um êxito imediato nem atingiu a popularidade de "Venus". Porque a banda que a recuperou e a sonoridade que ajudaram a consolidar num género que viria a ser batizado de grunge, ainda não tinham atingido o estatuto entretanto conquistado.

Bleach

O tema em questão é “Love Buzz” e foi regravado em 1988 para aquele que seria o primeiro single dos Nirvana. A canção estaria no alinhamento do primeiro longa duração da banda de Kurt Cobain: é a quinta faixa de Bleach. Cobain não foi tão meigo com a canção dos Shocking Blue como tinham sido as Bananarama, dois anos antes. Os riffs estridentes de guitarra, a sua voz e gritos roucos, aliados à atmosfera punk do grunge de Seattle, transportaram o original para outra dimensão. E assim uma canção perdida durante quase 20 anos, sem ter aparecido em qualquer tabela de vendas ou preferências, voltou a ver a luz do dia e atingiu um estatuto que nunca estaria ao seu alcance, não fosse o toque de Cobain.

Avaliação do Polígrafo:

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