É uma dúvida persistente nas redes sociais e já motivou diversos pedidos de verificação por parte de leitores do Polígrafo. Afinal, os cães e os gatos podem contrair Covid-19 e transmitir a doença aos humanos? Esta questão tornou-se ainda mais recorrente depois de um tigre do jardim zoológico de Bronx, em Nova Iorque, Estados Unidos da América (EUA), ter apresentado sintomas e testado positivo à Covid-19, doença resultante do novo coronavírus SARS-CoV-2.

No sentido de esclarecer os leitores, o Polígrafo questionou vários especialistas e consultou os escassos estudos científicos publicados que incidem sobre esta possibilidade de transmissão.

Nas situações reportadas de contaminação de animais - domésticos e selvagens - “houve sempre uma ligação com o humano infetado”, começa por salientar Fernando Boinas, investigador no Laboratório de Doenças Infeciosas da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa. “O sentido da infeção, até agora, tem sido sempre do humano para os animais” e não o contrário.

O Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA reconhece que existe a possibilidade de os animais domésticos poderem contrair a doença a partir dos seus donos, caso estes estejam infetados. “Existe a possibilidade de alguns animais ficarem infetados através do contacto próximo com humanos infetados. São necessárias mais provas para entender se os animais selvagens e animais domésticos podem transmitir a doença”, informa-se na página da CDC.

Também a Organização Mundial para a Saúde Animal (OIE) admite a “possibilidade de alguns animais ficarem infetados através do contacto próximo com humanos infetados”, mas sublinha que “a predominante via de transmissão da Covid-19 é de humano para humano”.

Quanto à eventual contaminação em sentido inverso, a partir dos animais, no dia 8 de abril de 2020 foi publicado um estudo científico na revista "Science" que analisa a possibilidade de replicação do vírus SARS-CoV-2 em diferentes espécies de animais. De acordo com as respetivas conclusões, os gatos e os furões surgem no grupo de espécies em que o vírus se replicou e foram contaminados com a Covid-19, enquanto os cães, porcos, patos e galinhas fazem parte do grupo que não apresenta uma grande reação ao vírus. No caso particular dos gatos chegou mesmo a existir contágio para outros animais não contaminados, mas a um nível reduzido.

Também a Organização Mundial para a Saúde Animal (OIE) admite a “possibilidade de alguns animais ficarem infetados através do contacto próximo com humanos infetados”, mas sublinha que “a predominante via de transmissão da Covid-19 é de humano para humano”.

“O mais importante aqui é que no caso dos gatos houve uma situação mais complicada porque os títulos, após infeção experimental, foram relativamente elevados e verificou-se que havia transmissão por via aérea. Mas era com muito poucos animais”, explica o investigador Fernando Boinas, em declarações ao Polígrafo.

No ambiente da experiência, a contaminação dos animais não ocorreu de forma natural, mas através da inoculação intranasal dos animais, com doses virais elevadas. “Não é uma situação real, é uma situação provocada e provavelmente também com quantidades enormíssimas de vírus. Uma situação de modo a garantir que a infeção - se o animal for susceptível - se vai verificar. Isto em condições ambientais normais pode até nem se verificar”, ressalva.

É também relevante ter em conta que o número de relatos de animais que testaram positivo à Covid-19 em todo o mundo é muito baixo, principalmente quando comparado com os valores reportados nos humanos. “Nós estamos a falar de milhões de pessoas infetadas e houve um ou dois relatos de animais que possam ter ficado contaminados”, destaca Alexandra Correia, imunologista veterinária e investigadora no Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto. Atualmente, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), foram identificados perto de dois milhões de casos positivos em humanos ao nível mundial.

“Isso já tinha acontecido com o SARS-CoV”, prossegue a investigadora, referindo-se à epidemia de 2003. “Nessa altura também não foi valorizado, nem foi provado sequer, que pudesse haver a transmissão dos gatos para os humanos ou que eles pudessem ser reservatórios. Não há caso nenhum que tenha sido reportado” em que um humano tenha sido contaminado pelo gato. “Eu diria que é muitíssimo improvável, não há dados absolutamente nenhuns, mas neste momento não é possível dizer - à luz dos conhecimentos que temos - que é impossível”, conclui.

“Agora temos sempre de ter cuidado. Isto é tudo muito novo, não sabemos o que é que pode acontecer. É preciso alguma cautela, alguma precaução e temos de tratar os animais da mesma forma que trataríamos uma pessoa com quem convivêssemos”,  aconselha.

 

Cuidados a ter com animais domésticos durante a pandemia

Numa altura em que a pandemia ainda não está controlada, é preciso ter alguns cuidados para se proteger e para proteger os seus animais. “Neste momento temos de ver tudo num contexto mais global e ver os animais tal como vemos um humano”, realça Alexandra Correia. “Ter um contacto menos próximo, lavar logo as mãos antes de tocar no animal para evitar contaminar - no caso de nós estarmos contaminados - e depois, igualmente, para o caso de o animal estar contaminado ou ter deposição de partículas víricas”.

Além disso, as regras de etiqueta respiratória também são essenciais: “Se não espirramos perto de uma pessoa, não espirrar perto de um animal também; se tapamos o nariz e a boca quando espirramos, ou quando tossimos, fazer exatamente o mesmo quando estamos com um animal”, frisa a investigadora.

No caso dos gatos, é importante que não deixe o seu animal sair à rua sozinho, “porque se o animal sai de casa, não temos qualquer tipo de controlo”, alerta Fernando Boinas. Para os cães, os passeios costumam ser uma alegria, mas a verdade é que também eles devem seguir as regras de isolamento social. “Nunca se deve levar animais para ambientes com muitas pessoas ou com outros animais, porque isso é a mesma coisa que nós estarmos em supermercados ou em ambientes públicos. Devemos evitar ao máximo esse tipo de contactos”, sublinha.

“O que está recomendado nestes casos é tomar as precauções todas que se tomam quando nós saímos à rua. Por exemplo, os animais - tal como nós com os nossos sapatos - contactam com o solo e com alguma contaminação que possa existir. Quando entramos em casa não devemos entrar com os nossos sapatos e aos animais deve lavar-se as patas com água e sabão de uma maneira rigorosa. Não se aposta muito em desinfetantes, porque os animais começam a ficar com lesões nas patas e é uma situação relativamente complicada”, acrescenta.

No caso de existir alguma pessoa infetada em casa, é também recomendado que se evite o contacto entre o animal e o paciente, podendo assim reduzir a exposição ao vírus e evitar o possível contágio do animal.

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Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

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