É algo que já acontece com outros vírus como a varicela, em que pais de crianças infetadas organizam festas para que outras crianças apanhem a doença numa altura em que não seja tão prejudicial para elas, mas está agora a ser pensado para o novo coronavírus. Multiplicam-se nas redes sociais as publicações de pessoas que pensam em organizar “festas Covid”, juntando pessoas saudáveis com doentes com Covid-19. O objetivo? Apanhar a doença o mais depressa possível para que o corpo crie imunidade e para estimular a imunidade de grupo.

Será esta uma boa opção para a extinção da doença? Os especialistas contactados pelo Polígrafo afastam completamente esta opção, afirmando que a forma mais eficiente de lutar contra a Covid-19 é continuar a seguir as indicações das autoridades de saúde.

O conceito de “festa COVID” não foi pensada por portugueses e já se cumpriu noutros países. No estado do Kentucky, um grupo de jovens decidiu quebrar o distanciamento social para organizar uma festa com o tema e mostrar que como não faziam parte do grupo de risco não precisavam de se preocupar. Pelo menos uma pessoa foi infetada na celebração, que ocorreu em março.

O caso da Suécia, que seguiu uma estratégia mais relaxada e trocou o isolamento pela imunidade de grupo, também é trazido como exemplo para justificar a organização destas festas. Segundo meios de comunicação locais, foi o que já aconteceu em países como o México e a Alemanha. Ainda assim, pesados os prós e os contras, a balança continua a apontar para a possibilidade de esta ser uma má ideia.

A imunidade de grupo leva muito tempo a construir

Como explica ao Polígrafo Ana Paula Rodrigues, médica de Saúde Pública no Departamento de Epidemiologia do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), o conceito de imunidade de grupo é habitualmente utilizado em relação a “doenças evitáveis por vacinação”, referindo-se “à resistência de uma comunidade ou grupo populacional à transmissão de um determinado agente infeccioso”. “Diz-se que há imunidade de grupo quando uma proporção suficiente dos membros da população está imune contra determinado agente infecioso, seja através de infeção natural ou de vacinação, levando a que a probabilidade de o agente infetar um indivíduo suscetível nessa população seja muito baixa”, continua a médica do INSA.

Ana Paula Rodrigues, médica de Saúde Pública no Departamento de Epidemiologia do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, considera que “as medidas mais efetivas no controlo da epidemia do novo coronavírus são as de distanciamento social”. As “festas Covid” são exatamente o contrário disso, “colocando em risco as pessoas e os seus contactos que voluntária e desnecessariamente se expõem à infeção pelo novo coronavírus”.

No entanto, e sendo que esta doença apareceu há certa de meio ano, ainda há muito que não se sabe em relação a esta possibilidade. “Os estudos com doentes com Covid-19 mostram que as pessoas que tiveram contacto com o vírus desenvolvem anticorpos contra ele. Porém, o conhecimento é mais limitado em relação a pessoas que não desenvolveram sintomas”, aponta Ana Paula Rodrigues. Também não se sabe ainda quanto tempo uma pessoa pode estar protegida após ter contraído uma infeção pelo novo coronavírus.

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créditos: Pixabay

Caso a infeção dê uma imunidade duradoura, há também um longo caminho a fazer até se atingir a “hipotética imunidade de grupo”, como lhe chama a médica de Saúde Pública. “Será necessário que mais de metade da população esteja imune”, conclui.

Não há “invencíveis” na Covid-19

Enquanto a imunidade de grupo não é efetiva, é impossível dizer que impacto é que o vírus terá em cada pessoa que for infetada. Há um espectro muito grande de expressões da infeção que vão desde a não expressão, em que o doente não experiencia qualquer sintoma da doença, até à necessidade de internamento em Unidades de Cuidados Intensivos e de utilização de ventiladores para auxiliar a respiração.

“Apesar de conhecermos algumas probabilidades, principalmente em relação às pessoas de risco, não podemos garantir que uma pessoa que não for de um grupo de risco não vá passar mal”, diz ao Polígrafo António Morais, presidente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP). “Há pessoas fora do grupo de risco que também podem morrer da doença.”

António Morais, presidente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, é definitivo: sobre as festas Covid: “São algo pouco sensato, errado e uma brincadeira de mau gosto.”

Pensar em comunidade

E se é certo que uma das justificações para a realização deste tipo de eventos é muito altruísta, o resultado poderá não ser bom para a comunidade. Embora estas pessoas estejam a pensar na criação da imunidade de grupo, a verdadeira consequência poderá ser a infeção acidental de indivíduos que sempre cumpriram as regras e de outros que estejam nos grupos de risco.

“As pessoas não vivem numa redoma e, mesmo com as medidas de proteção, o risco de infeção existe sempre”, aponta António Morais. “Estas pessoas que se infetaram deliberadamente podem passar a doença a familiares e terceiros que poderão sofrer consequências mais graves”, diz o presidente da SPP, que defende ainda que é impossível saber se alguém à nossa volta faz parte de um grupo de risco porque pessoas que tenham doenças como diabetes ou hipertensão “fazem uma vida completamente normal”.

A existência destes eventos é já conhecida do Governo, com o primeiro-ministro a afirmar numa entrevista de 4 de junho que “um dos maiores riscos, neste momento, são as raves, as covid parties e as festas particulares”. António Costa referia-se não só às festas organizadas com a intenção de infetar outros, mas também aquelas que ignoram completamente esta pandemia.

A infeção súbita de uma grande quantidade de pessoas pode também significar o colapso do Sistema Nacional de Saúde, que até agora conseguiu dar resposta às necessidades. “Quando atingimos o pico chegámos a ter 250 pessoas nos cuidados intensivos, mas evitámos o que aconteceu no início noutros países”, continua António Morais. “É também por isso que a imunidade de grupo tem de ser atingida lentamente, para não sobrecarregarmos os equipamentos e os profissionais.”

Governo preocupado com “festas Covid”

A existência destes eventos é já conhecida do Governo, com o primeiro-ministro a afirmar numa entrevista de 4 de junho que “um dos maiores riscos, neste momento, são as raves, as covid parties e as festas particulares”. António Costa referia-se não só às festas organizadas com a intenção de infetar outros, mas também aquelas que ignoram completamente esta pandemia.

Por todas estas razões, Ana Paula Rodrigues considera que “as medidas mais efetivas no controlo da epidemia do novo coronavírus são as de distanciamento social”. As “festas Covid” são exatamente o contrário disso, “colocando em risco as pessoas e os seus contactos que voluntária e desnecessariamente se expõem à infeção pelo novo coronavírus”.

António Morais é ainda mais direto na avaliação desta possibilidade: “São algo pouco sensato, errado e uma brincadeira de mau gosto.”

Avaliação do Polígrafo: 

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