"Neste momento, o nosso ritmo anda em 70 mil por dia e estamos a conseguir cumprir com esse ritmo. Daqui a 15 ou 20 dias teremos um ritmo de 100 mil pessoas por dia e não há perspetiva de termos falta de resposta". A garantia foi expressa pelo vice-almirante Henrique Gouveia e Melo, coordenador da campanha de vacinação contra a Covid-19, no dia 23 de abril.

Gouveia e Melo já tinha apontado no mesmo sentido, três dias antes, ao intervir num debate que marcou o início da campanha nacional "Conversas com Cientistas - Décadas de Ciência para Dias de Vacinas", coordenada por um grupo de instituições científicas portuguesas em parceria com a Ciência Viva e a Sociedade Portuguesa de Imunologia. "Imaginem o que é ter um processo que mete 1% da população portuguesa todos os dias num determinado local para ser vacinada, de forma organizada e sem perturbações. Sete dias por semana sem cansaço e sem descansos", afirmou o vice-almirante no dia 20 de abril.

No dia seguinte, aliás, ao lado da Diretora-Geral da Saúde, Graças Freitas, voltou a fixar esse mesmo objetivo de vacinar 100 mil pessoas por dia.

A média diária de vacinação atinge a meta traçada?

As afirmações do coordenador do plano de vacinação contra a Covid-19 foram proferidas entre os dias 20 e 23 de abril, apontando para um lapso temporal de 15 a 20 dias (ou duas a três semanas) para que a meta começasse a ser atingida, consolidando-se depois como média diária. Pelo que rondaria o período entre 5 e 10 de maio.

Os dados oficiais da Direção-Geral da Saúde (DGS) sobre a vacinação estão organizados em relatórios semanais ("Relatório de Vacinação"), com o acumulado de sete dias, contados a partir de segunda-feira até ao domingo seguinte. Além deste documento, o portal do Serviço Nacional de Saúde (SNS) divulga diariamente (sem consulta de histórico), com referência ao final do dia anterior, os dados acumulados relativos à monitorização do processo de vacinação.

Desta forma, a verificação dos números de vacinação em Portugal relativamente a datas nas quais foi prevista a inoculação diária de 100 mil pessoas deve começar em 10 de maio (primeiro dia do "Relatório de Vacinação N.º 14"), estendendo-se até ao último dia de que há registo até ao momento em que este artigo é redigido (o dia 19 de junho).

A análise dos números permite concluir que a média prometida não foi atingida nestes 41 dias de monitorização, tão pouco em alguma das seis semanas da respetiva segmentação.

Ao todo foram vacinadas 3.168.537 pessoas, o que perfaz uma média de 77.821 pessoas por dia. Destas mais de três milhões de inoculações, 54,3% correspondem à primeira dose e 45,7% à vacinação completa (segunda dose ou unidose).

[*] Seis dias, de acordo com os dados disponíveis às 23h59m do dia 19 de junho.

O objetivo das 100 mil vacinações por dia até foi momentaneamente atingido mais cedo do que o previsto, no dia 6 de maio, mas esse ritmo não foi mantido ao longo do período temporal em causa.

Na terceira semana do mês de maio (segunda no objeto de análise) verificou-se uma grande quebra nas inoculações (de 84.700 para pouco mais de 74 mil). Desde esse período, o ritmo de vacinação até voltou a aumentar, projetando os números para o maior valor até agora: cerca de 87 mil (na semana de 7 a 13 de junho).

Porém, na semana passada, é percetível uma nova quebra (com a média a seis dias, atendendo a que ainda não há dados do dia 20, a quedar-se pelos 54 mil), embora estes dados sejam ainda provisórios.

Recorde-se que a meta de 100 mil vacinações diárias surgiu a par da possibilidade do auto-agendamento da toma, o que implica também uma quebra na planificação diária de pessoas inoculadas, devido às desistências (algumas compensadas com substituições).

No dia 3 de junho, Gouvei a e Melo reafirmou a meta das 100 mil inoculações - um dia depois de se terem registado 90 mil -, protelando assim o objetivo para este mês. Mas em junho, até ao dia 13, a média quedava-se ainda em cerca de 84 mil por dia (contando o dia 31 de maio para o cálculo, uma vez que, nos dados da DGS, este dia está inserido na primeira semana de junho).

Em conclusão, o Ministério da Saúde não está a conseguir vacinar contra a Covid-19, na data em que prometeu, uma média de 100 mil pessoas por dia.

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