Num vídeo partilhado nas redes sociais, Fernando Nobre, médico, fundador e presidente da Assistência Médica Internacional (AMI), afirma que "a letalidade dessa doença [Covid-19] é a letalidade de uma gripe". O médico reforça a afirmação com valores: "nos infetados" é "de 1 a 2%" e a nível global – ou seja, em relação à população mundial – é de "0,003%".

Confirma-se?

Quanto à letalidade da Covid-19 entre as pessoas que foram infetadas pelo vírus SARS-CoV-2, Fernando Nobre aproxima-se do valor atual. Segundo os dados do Our World in Data, a taxa de letalidade mundial é de 2,09%. Em Portugal o valor é de 2,03% (dados disponíveis até 5 de maio).

Porém, no que toca à letalidade global, Fernando Nobre falha na percentagem. Considerando que existem aproximadamente 7,7 mil milhões de pessoas no mundo e que morreram, até ao dia 5 de maio de 2021, mais de 3 milhões de doentes Covid-19, a percentagem de óbitos é de 0,04% da população global mundial - ou seja, perto de dez vezes mais em relação ao que o presidente da AMI avançou.

Ana Paula Rodrigues, médica de Saúde Pública no Departamento de Epidemiologia do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA), explica ao Polígrafo que "a letalidade por Covid-19 é superior à letalidade por gripe". Ressalva, no entanto, que os sistemas utilizados na vigilância das duas doenças são diferentes.

"Enquanto o sistema de vigilância de Covid-19 é um sistema universal, isto é, todas as infeções diagnosticadas têm de ser notificadas, a vigilância da gripe é feita com base em sistemas sentinela, ou seja, que usam apenas uma amostra da população. Outra diferença entre a vigilância destas duas infeções tem a ver com o maior número de testes de deteção de SARS-CoV-2 que são realizados em comparação com o número de testes para a deteção do vírus da gripe", esclarece.

"Enquanto o sistema de vigilância de Covid-19 é um sistema universal, isto é, todas as infeções diagnosticadas têm de ser notificadas, a vigilância da gripe é feita com base em sistemas sentinela, ou seja, que usam apenas uma amostra da população".

Também Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública, sublinha que, ao compararmos as duas doenças, podemos verificar que "o número de óbitos associados à Covid-19 no último ano e meio é maior do que os que foram associados à gripe, mesmo em épocas em que houve maior mortalidade". Em Portugal, morreram, desde março de 2020, 16977 pessoas vítimas da Covid-19, o que corresponde ao dobro do valor mais alto registado desde 1980 – 8514, no inverno de 1998/99.

O vírus da gripe não desapareceu

No vídeo, Fernando Nobre faz ainda uma referência ao desaparecimento do vírus da gripe: "Eu relembro apenas e só que, embora digam que agora o vírus da gripe já não existe, que desapareceu, a gripe matava no nosso país, todos os anos, entre 3000 e 4500 pessoas no período do inverno", diz o presidente da AMI, referindo ainda que no inverno de 1988/89 foram registados 8500 mortos e no de 2005/06 cerca de 5500.

Antes de mais, o vírus da gripe não desapareceu devido ao aparecimento da Covid-19. São dois vírus diferentes que provocam duas doenças diferentes e não há qualquer evidência que o vírus que causa a gripe tenha desaparecido.

O Boletim de Vigilância Epidemiológica da Gripe reporta que, na semana de 19 a 25 de abril (o último boletim disponível à data), "estimou-se uma taxa de incidência de síndrome gripal de 12,3 por cada 100 mil habitantes" – salvaguardando que "este valor deve ser interpretado tendo em conta que a população sob observação foi menor do que a observada em período homólogo de anos anteriores".

De facto, o gráfico que representa a época gripal de 2020/21 apresenta uma diminuição acentuada em relação ao ano anterior. "Esta diminuição explica-se sobretudo pela redução da transmissibilidade do vírus da gripe devido às medidas de distanciamento, confinamento e utilização de máscara que foram implementadas para o controlo da epidemia de Covid-19. O modo de transmissão do vírus da gripe e do SARS-CoV-2 é semelhante, pelo que as medidas gerais de controlo da epidemia de Covid-19 são também eficazes para o controlo da transmissão da gripe", explica Ana Paula Rodrigues, reforçando que a gripe não desapareceu e que "foram identificados casos esporádicos de gripe ao longo de todo o inverno".

"Esta diminuição explica-se sobretudo pela redução da transmissibilidade do vírus da gripe devido às medidas de distanciamento, confinamento e utilização de máscara que foram implementadas para o controlo da epidemia de Covid-19".

Ricardo Mexia defende que estas medidas possam vir a fazer parte do mecanismo de prevenção da gripe nos próximos anos, referindo-se a "uma melhor e mais frequente higienização das mãos" e à utilização de máscara por "pessoas mais vulneráveis, pessoas que tenham também outro tipo de doenças pré-existentes ou para os que são sintomáticos no sentido de evitar a disseminação da doença". "Outra coisa que foi muito importante foi a rápida identificação dos sintomas e evitar que as pessoas contactem com outras quando estão sintomáticas", remata.

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    Numa participação telefónica durante uma reunião do conselho municipal de Edmonton, Canadá, um homem que se apresentou como Roger Hodkinson, ex-presidente do Royal College of Physicians e Surgeons do Canadá e CEO de uma empresa de biotecnologia que vende testes de despistagem do novo coronavírus, considerou que a pandemia e as medidas de combate à mesma são “a política a brincar à medicina” e que o mundo está a ser enganado. Verificação de factos.

Os valores avançados por Fernando Nobre sobre o número de mortos devido à gripe que ocorreram em 1988/89 e 2005/06, não são dados precisos sobre os óbitos por gripe, como o presidente da AMI faz crer. A mortalidade da gripe é medida com base nos valores referentes aos excessos de mortalidade registados durante o período de inverno dos referidos anos.

"Em Portugal, os excessos de mortalidade durante o inverno são muito variáveis. Houve invernos em que não se observaram excessos de mortalidade, invernos com excessos próximos de três e quatro mil óbitos e, em situações excecionais, os excessos de mortalidade no inverno atingiram valores próximos de oito mil óbitos", afirma Ana Paula Rodrigues.

A epidemiologista ressalva que "no inverno ocorrem outros fenómenos com potencial impacto na mortalidade, como as vagas de frio", mas sublinha que a "experiência na vigilância da gripe e da mortalidade por todas as causas mostra que as epidemias de gripe, têm, globalmente, um maior impacto na mortalidade do que as vagas de frio", acrescenta. Além disso, segundo uma tabela enviada ao Polígrafo pelo INSA, no inverno de 1988/89 não foi registado excesso de mortalidade na ordem dos oito mil, como afirma Fernando Nobre, mas sim 3920. O valor de 8514 – o mais alto registado desde 1980/81 – aconteceu em 1998/99.

Também os 5500, referidos como tendo ocorrido em 2005/06, não correspondem a esse ano. Nos últimos 40 anos, foram registados quatro valores na ordem dos 5000: em 1980/81, 1982/89, 1996/97 e 2014/15.

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Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking (verificação de factos) com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

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