Nas últimas semanas, vários comentários aludiram a que comunistas festejaram a morte do então primeiro-ministro, poucos minutos após ser noticiado o despenhamento do avião em que seguia, e até a que algumas dessas manifestações de regozijo teriam partido de locais cuja propriedade era do PCP.

Estas acusações, ao longo da última década, não se circunscreveram a pessoas desconhecidas no espaço público. Em dezembro de 2010, Miguel Morgado, quando ainda não era assessor político do também primeiro-ministro social-democrata Pedro Passos Coelho, escreveu num blog o seguinte: “Em Setúbal, na noite em que Sá Carneiro morreu, houve foguetes pelo ar. É verdade. Foguetes que sacudiram os céus da cidade. Rejubilavam. Quem pôde ser tão patife? A coisa não foi feita com dissimulação, e os comunistas mostraram abertamente os seus sorrisos e o seu triunfo. Exibiram provocatoriamente a sua satisfação. Não é lenda. Não é exagero. Eu era miúdo mas lembro-me muito bem”.

Seis anos mais tarde, quando também se assinalava o aniversário (36º na altura) da morte de Sá Carneiro, Passos Coelho, que tinha deixado de ser chefe do Governo há pouco mais de um ano, declarou: “Não tardou 10 minutos [da notícia da queda da avioneta] ouviu-se o ribombar de foguetes. Os comunistas e outra gente das extremas esquerdas festejaram em Chaves, e um pouco por todo o país, a morte do primeiro-ministro. Finalmente o Sá Carneiro tinha morrido”.

Ainda em 2016, a 12 de dezembro, Carlos Guimarães Pinto, mais tarde líder do partido Iniciativa Liberal, escreveu em artigo de opinião no jornal i: “Dia 4 de dezembro: centenas de apoiantes comunistas saem à rua a festejar a sua maior vitória desde o 25 de abril. Automóveis com a bandeira do PCP apitam nas ruas, ouvem-se foguetes junto a algumas sedes do Partido Comunista e há um clima de festa nos cafés habitualmente frequentados por militantes do PCP. O ano era 1980 e o evento festivo era a morte de Sá Carneiro”.

Houve mesmo festejos na noite da morte de Sá Carneiro?

A ocorrência de festejos é factual e está documentada em relatos jornalísticos da época. O jornal Correio da Manhã de 5 dezembro de 1980, na página 5, publica uma notícia sob o título “Também houve foguetes”, referindo que na “Moita e Alhos Vedros foram lançados alguns foguetes”, assim como “se registaram algumas manifestações de regozijo em outras localidades”.

No dia seguinte, também no Correio da Manhã, página 18, uma notícia intitulada “Barreiro: triste exemplo” conta que “uma onda de loucura pareceu varrer aquela vila [Barreiro] ao ser anunciada a morte de Sá Carneiro”.

“Pessoas foram para a rua, caras felizes, abraçando-se, dando vivas pelo desaparecimento daquele político. Carros desfilavam fazendo soar os claxons e manifestandoo regozijo (..) Cafés e tabernas encheram-se rapidamente de pessoas que, indiferentes à dor que alguns sentiam, queriam 'festejar' o trágico acontecimento, manifestando em altos gritos os seus intentos”, prossegue a descrição do correspondente daquele jornal diário. A notícia termina com uma insinuação: “Que se atente no que atrás fica escrito. As ilações são fáceis de tirar...”

Um dirigente do PCP confirma a existência de comemorações, em Chaves, na noite de 4 de dezembro de 1980. Manuel Cunha, membro da Direção Regional de Vila Real do PCP, em dezembro de 2016, em resposta à intervenção que Passos Coelho tivera dias antes, escreveu em artigo de opinião publicado na página online daquela organização regional: “Naquele ano de 1980 eu já era comunista e vivia em Chaves. Até me recordo de terem rebentado uns foguetes, mas não foram lançados pelos comunistas. Lembro-me até da lamentação e condenação do meu pai, também comunista em Chaves”.

E esses festejos foram do PCP enquanto organização ou de militantes comunistas nessa qualidade?

Questionado pelo Polígrafo, António Araújo, historiador e ex-assessor político de Cavaco Silva na Presidência da República, disse que “não pode ser estabelecida qualquer relação direta entre essas comemorações e o PCP enquanto partido” e que nem sequer se pode concluir que os protagonistas dessas celebrações fossem comunistas. “Não há nenhum elemento concreto, comprovado, que demonstre essa ligação. Houve notícia de festejos dispersos, pontuais, num ambiente político muito tenso, marcado por uma eleição presidencial que dividia o país e que seria realizada daí a três dias”, sublinha o também professor do Departamento de Estudos Políticos da Universidade Nova de Lisboa.

O Polígrafo falou também com Manuel Cunha, o dirigente regional do PCP, que se recorda do lançamento dos foguetes naquela noite em Chaves, mas garante não terem sido lançados por comunistas: “Tinha 16 anos. Lembro-me de ouvir foguetes que vinham do Bairro de Santo Amaro ou do das Casas dos Montes, que ficavam perto da cidade, e de uma ou outra manifestação individual na rua. Mas não foram iniciativas de comunistas, o meu pai era dirigente do PCP e lembro-me de ele nos dizer que não eram de todo pessoas do partido que estavam a festejar”.

Miguel Morgado, ouvido pelo Polígrafo, afirma que também não pode garantir de modo absoluto que seriam os comunistas a celebrar a morte de Sá Carneiro, embora acredite que foram mesmo eles, atendendo a todo o ambiente político que se vivia na cidade nos anos 70 e 80. “Eu tinha seis anos, ainda sem consciência política. Ainda assim, lembro-me do que aconteceu naquela noite e, para quem vivia naquele tempo em Setúbal, não havia dúvidas de que eram os comunistas que estavam a festejar”, afirma o ex-deputado do PSD.

O PCP, contactado pelo Polígrafo, respondeu assim a estas acusações nas redes sociais e media: “O PCP rejeita a recorrente calúnia que à época e ao longo dos anos tem sido lançada contra o PCP e que mais uma vez, agora a coberto de falsidades lançadas nas redes sociais, se repete”.

O gabinete de imprensa dos comunistas reenviou-nos ainda a “Nota do Secretariado do Comité Central do PCP” na qual lamenta o “trágico acidente de aviação que vitimou o primeiro-ministro e o ministro da Defesa”, “confirma a orientação de voto” para as presidenciais em Ramalho Eanes e cancela todas as iniciativas de campanha até ao dia das eleições.

No jornal Correio da Manhã de 5 de dezembro de 1980 podem também ler-se várias reações de diversos partidos e personalidades políticas à morte de Sá Carneiro. Entre as quais estão declarações de Jaime Serra, então elemento da Comissão Política do Comité Central do PCP: “Apesar de Sá Carneiro ser um anti-comunista ferrenho, nós, que não temos inimigos pessoais, sentimos pesar”.

Houve, portanto, festejos pela morte de Sá Carneiro na noite de 4 de dezembro de 1980, mas é falso que se possa afirmar que essas celebrações tenham sido protagonizadas pelo PCP enquanto partido ou sequer por militantes comunistas.

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