Um virologista italiano defendeu, numa entrevista ao canal televisivo RAI, que o novo coronavírus está mais fraco e que “o vírus clinicamente já não existe em Itália”. Alberto Zangrillo, chefe do Hospital San Raffaele, em Milão, afirmou que “os testes realizados nos últimos dez dias têm mostrado uma carga viral que é absolutamente infinitesimal em termos quantitativos comparado com aqueles que eram realizados há um ou dois meses atrás”.

O médico defendeu ainda que “alguém tem de ser responsabilizado por aterrorizar o país”, referindo-se à quarentena e à restrição de deslocações que foram impostas em Itália como medidas de contenção à propagação do vírus.

Estas declarações foram alvo de críticas - até o Governo italiano reagiu, pedindo cautela nas palavras. Mas estará, de facto, o novo coronavírus a ficar mais fraco?

“Não há nenhuma evidência científica de que o vírus está a mutar para ficar mais atenuado, seja em capacidade de transmissão, seja em capacidade de provocar doença”, afirma ao Polígrafo Pedro Simas, virologista no Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes (IMM) e professor de virologia na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

“O facto de não estarmos a ver, neste momento, muitos casos severos e mortes tem a ver com a contenção e com o número de infeções. O problema que estava amplificado pelo grande número de infeções está a diminuir na proporção correta”, explica o virologista Pedro Simas.

A possibilidade de o novo coronavírus ter sofrido mutações e, dessa forma, ter "enfraquecido", é uma das justificações apresentada para suportar as declarações do virologista italiano. Pedro Simas recusa esse argumento. O virologista explica que, apesar de já terem sido descritas centenas de mutações, estas não se fixam no código genético do vírus: "Ao analisar a população global dos vírus, a genética consensual é que ele é muito estável; não há evidência biológica de que tenha mudado.”

Os dados referentes ao SARS-CoV-2 - o vírus que provoca a doença Covid-19 - apontam para a possibilidade de 80% dos infetados serem assintomáticos (pessoas infetadas, mas não têm qualquer sintoma da doença), sendo apenas 20% sintomáticos. Desses, “98% dos casos diagnosticados são ligeiros e só 2% é são sérios ou críticos”, avança Simas.

"Esta sensação de que o vírus está mais atenuado do ponto de vista de virulência, que se traduz em manifestações clínicas da doença, é uma falsa sensação”, assegura Pedro Simas.

O virologista sublinha ainda que a redução do número de casos registados em Itália e outros países da Europa, assim como a queda do número de infeções graves ou críticas registadas estão relacionadas com as medidas de prevenção adotadas pelos diferentes países, nomeadamente as quarentenas.

“O facto de não estarmos a ver, neste momento, muitos casos severos e mortes tem a ver com a contenção e com o número de infeções. O problema que estava amplificado pelo grande número de infeções está a diminuir na proporção correta”, explica.

É, portanto, muito cedo para desmobilizar. Isto porque, conclui o investigador, "esta sensação de que o vírus está mais atenuado do ponto de vista de virulência, que se traduz em manifestações clínicas da doença, é uma falsa sensação”.

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Avaliação do Polígrafo: 

 

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