A tradição de beber três copos de leite por dia para ter ossos fortes e muito cálcio está a cair em desuso. Nos últimos anos, os movimentos contra o consumo de leite têm vindo a ganhar força e as redes sociais constituem um dos grandes palcos para este fenómeno. O principal atingido é o leite de vaca que é também o mais comercializado. São cada vez mais os mitos que aparecem associados a este alimento.

Em recente publicação no Facebook, partilhada centenas de vezes, destaca-se uma lista de substâncias que supostamente podem ser encontradas dentro de um pacote de leite. “O leite de vaca é rico em: antibióticos, pesticidas, hormônios, dioxinas (cancerígeno), bactérias (líderes em contaminação), sangue e pus (até 750 milhões por litro), alumínio (demência, Parkinson…), solvente de limpeza, substâncias radioativas, vírus da leucemia bovina”, indica-se na mensagem, acrescentando que o “leite de vaca é rico em cálcio, mas não é fonte de cálcio. Na verdade ele rouba o cálcio dos seus ossos pois é um produto altamente ácido”.

O Polígrafo falou com vários especialistas que desmistificaram, ponto por ponto, esta vasta lista de elementos que supostamente constituem o leite, tendo chegado à conclusão de que nenhuma das alegações é verdadeira.

Comecemos pela denúncia de que o “leite de vaca é rico em cálcio, mas não é fonte de cálcio. Na verdade ele rouba o cálcio dos seus ossos pois é um produto altamente ácido”. Todos os nutricionistas contactados pelo Polígrafo refutaram ou desmentiram esta alegação.

“O leite é uma fonte natural de cálcio e costuma-se dizer que é rico em cálcio porque aporta mais de 30% da ingestão necessária para fazer face às necessidades diárias de um ser humano”, explica Ana Maria Gomes, especialista na área de Ciência e Tecnologia Alimentar e professora na Universidade Católica do Porto. “O leite é fonte de cálcio, esse cálcio está bastante biodisponível. O que significa que o cálcio se apresenta numa forma que é relativamente fácil de ser absorvido ao nível do intestino, alcança mais facilmente a circulação sanguínea e os órgãos alvo - entre os quais o osso - e desencadeia a sua ação biológica”, assegura, considerando que a referida alegação é um “disparate”.

Também Alexandra Bento, bastonária da Ordem dos Nutricionistas, e Pedro Carvalho, professor de Nutrição na Universidade Católica do Porto e nutricionista no Centro de Inovação Médica, apontam no mesmo sentido.

O nutricionista Pedro Carvalho, que escreveu um livro sobre “Os Mitos que Comemos”, vai mais longe e destaca que “a ingestão da cálcio e lacticínios aumenta a densidade mineral óssea e pode diminuir o risco de fratura sobretudo em mulheres”, citando artigos que o comprovam. Afirma também que “os lacticínios, sobretudo os fermentados, até podem ter um efeito preventivo na demência e doença de Alzheimer”.

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“O leite é uma fonte natural de cálcio e costuma-se dizer que é rico em cálcio porque aporta mais de 30% da ingestão necessária para fazer face às necessidades diárias de um ser humano”, explica Ana Maria Gomes, especialista na área de Ciência e Tecnologia Alimentar.

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Apesar da sua importância nutricional, a absorção do cálcio presente no leite não depende única e exclusivamente da ingestão deste alimento. “Há outros fatores”, sublinha Alexandra Bento, “nomeadamente a exposição solar e a atividade física”. É importante ressalvar que o cálcio não é um exclusivo do leite e está também presente em vários outros alimentos. No entanto, a sua absorção pelo organismo não é tão fácil como no caso do leite.

A alegação de que o leite é ácido também é falsa. O pH registado no leite varia entre os valores 6 e 7, sendo tendencialmente neutro, mas podendo assumir valores ligeiramente ácidos. Contudo, existem vários outros alimentos - como o tomate, o vinagre, o limão ou o café - que são muito mais ácidos do que o leite.

Na publicação em análise também é feita uma ligação entre o consumo de leite e os países “líderes em osteoporose, osteopenia e fratura do quadril”, algo que, na perspetiva de Ana Maria Gomes, consiste numa descontextualização do assunto. “Ao associarem esta questão do consumo de leite com os níveis de osteoporose, também se esqueceram de outros fatores de risco que podem estar aqui implícitos”, esclarece, referindo-se ao “consumo de álcool, por exemplo, ou tabagismo, idades abrangidas, obesidade”.

"Temos de olhar para os outros fatores de risco. Bem sabemos que a obesidade é um fator de risco para a osteoporose. Não podem fazer esta associação”, critica a mesma especialista.

Apesar de ser um alimento importante na dieta saudável, o leite não pode ser visto como “um anjo” nem “um diabo”, salienta Alexandra Bento. “Ele deve ser inserido no contexto de uma alimentação saudável, contexto esse em que devemos ter mais alimentos de origem vegetal do que de origem animal - e não nos podemos esquecer de que o leite é de origem animal, mas que a sua posição na alimentação deve estar presente”, explica a bastonária da Ordem dos Nutricionistas.

“Não existe evidência científica que justifique que possamos eliminar o leite da nossa alimentação. Só o devemos eliminar em algumas circunstâncias. Primeiro, se não gostarmos, em termos de saúde há duas situações que é a intolerância à lactose - posso não ter a enzima que é responsável pela digestão da lactose e terei de o retirar, podendo, em alguns casos, utilizar equivalentes nutricionais do leite - e a alergia à proteína do leite de vaca - que, em bom rigor, é das primeiras alergias observadas nos seres humanos, porque é um dos primeiros alimentos a serem introduzidos quando se inicia a diversificação alimentar. O que existe atualmente é uma contra-informação à volta dos benefícios e potenciais malefícios do leite. São muitas vezes inverdades que levam a que muitas pessoas acabem por retirar o leite e podem estar, em última instância, a piorar o equilíbrio alimentar”.

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“Quanto a bebidas vegetais de coco, amêndoa, aveia, entre outras, é preciso ver a sua quantidade de açúcar, pois muitas opções continuam a ter valores elevadíssimos, equiparáveis e muitos sumos e refrigerantes”, esclarece o nutricionista Pedro Carvalho.

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Cada vez existem mais opções sem lactose e bebidas com componentes vegetais. No entanto, o o leite de vaca continua a ser predominante no mercado. “O leite de vaca é o mais comum, o mais barato, estando presente na sua versão magra. O leite de ovelha tem a vantagem de ter quase o dobro da proteína do leite de vaca com a mesma quantidade de hidratos, sendo por isso um alimento interessante, mas ainda caro para consumo diário e com muita gordura. O leite de cabra tem o dobro da gordura que o leite de vaca para a mesma quantidade de proteína, o que faz dele uma opção menos interessante. Quanto a bebidas vegetais de coco, amêndoa, aveia, entre outras, é preciso ver a sua quantidade de açúcar, pois muitas opções continuam a ter valores elevadíssimos, equiparáveis e muitos sumos e refrigerantes”, esclarece Pedro Carvalho, sugerindo que “a opção por bebidas vegetais light é bem melhor nestes casos”.

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Antibióticos, bactérias e pus… Afinal o que há no leite?

Quando o consumidor compra um pacote de leite no supermercado, pode não saber como se produz e trata este produto e tão pouco perceber exatamente o que está na composição do leite. Mas a verdade é que, durante todo o processo até chegar ao copo dos consumidores, o leite passa por vários períodos de análise e controlo de qualidade e outros processos que tornam este alimento seguro.

“O leite que nós bebemos é pasteurizado ou UHT”, sublinha Paula Teixeira, especialista em Microbiologia e Segurança Alimentar e professora na Universidade Católica do Porto. Este processo que a professora indica é um tratamento térmico pelo qual o leite passa de forma a exterminar qualquer bactéria ou vírus que possa existir no soro que é retirado das vacas.

O processo de pasteurização depende do tipo de leite a que nos referimos: se estivermos a falar do denominado leite do dia, o tratamento é feito a temperaturas mais baixas, enquanto no leite ultrapasteurizado - também conhecido como UHT e que vulgarmente encontramos nos supermercados fora dos refrigeradores -, as temperaturas são mais elevadas, o que possibilita um maior período de conservação do produto. Submetidas ao calor, as bactérias e vírus são mortas, tornando o leite seguro para consumo humano.

“Se efetivamente houver boas condições de maneio, de higiene na própria colheita do leite, este virá sempre com quantidades mínimas de bactérias, mas, ainda assim, essas bactérias sofrem morte direta no tratamento térmico”, afirma Ana Maria Gomes. O leite cru - retirado diretamente da vaca sem qualquer tratamento térmico -, por outro lado, pode ter alguns contaminantes. “Quando nós falamos de leite cru, este pode estar contaminado com bactérias patogénicas. Nós sabemos que pode ter a bactéria responsável pela tuberculose, pela brucelose, salmonelas… No leite cru é possível, mas as pessoas são alertadas que não devem consumir leite cru”, explica Paula Teixeira. Os próprios produtores de leite que consomem o leite retirado das suas vacas fervem o leite antes de o consumir, executando um processo semelhante à pasteurização.

Nem as “bactérias (líderes em contaminação)” nem o “vírus da leucemia bovina”, referidos na publicação, nem mesmo qualquer outro vírus sobrevive ao processo de pasteurização. De qualquer modo, o vírus da leucemia bovina - também conhecido como leucose - não é visto como um problema, pois não só está erradicado em Portugal como não provoca qualquer efeito nos humanos. “Portugal já erradicou o vírus da leucose”, garante Ricardo Bexiga, médico veterinário e professor de Clínica de Espécies Pecuárias na Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa. “Neste momento estamos a tentar erradicar a brucelose e a tuberculose. Existe um plano nacional de erradicação e todos os animais são testados todos os anos”.

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“É mesmo importante que o consumidor tenha confiança naquilo que consome e na indústria alimentar. Porque a indústria alimentar é altamente controlada e nunca foi tão controlada como é hoje. Esse tipo de notícias só vem lançar a confusão porque são desinformações, a maior parte das vezes sem qualquer fundamento”, enfatiza Ana Maria Gomes.

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O tratamento dos animais é também uma preocupação no que toca à produção de leite e um dos assuntos referidos na publicação sob a forma de “antibióticos”. Uma vaca que tenha algum problema de saúde - os mais frequentes são as infeções das glândulas mamárias, conhecidas por mastites, e as infeções uterinas - é submetida a um tratamento que pode passar pela admissão de antibióticos, o que deixa o animal fora do processo de produção de leite durante algum tempo. “Todos os antibióticos têm intervalos de segurança claramente definidos para a carne ou para o leite”, diz Ricardo Bexiga, acrescentando que “durante aquele tempo, o leite continua a ser ordenhado, mas não vai para consumo humano”.

Os antibióticos são uma das principais preocupações da indústria de produção de leite e nenhum leite é processado depois de ser identificada a presença destes medicamentos. “Haver antibiótico no leite é o maior desastre que pode acontecer na vacaria”, sublinha o veterinário. Porquê? “Imaginando que temos 10 mil litros de leite numa cisterna e há uma vaca que tem antibióticos e que, por azar ou falta de marcação do animal, aquele antibiótico foi para o tanque. Na fábrica é feito o teste e esse leite tem de ser destruído”, explica. Nesses casos, o produtor não recebe o valor pelo leite vendido e pode ter que pagar o prejuízo a outros produtores se contaminar o leite de outras vacarias.

Em cada fase da produção, o leite é testado e analisado e existem vários elementos que são tidos em conta: o teor de proteína, de gordura assim como as células somáticas, também conhecidas como glóbulos brancos. “São células de reação inflamatória que estão presentes no leite mesmo sem infeção - como nós temos no sangue - a vigiar a entrada de algum microrganismo”, afirma Ricardo Bexiga.

Numa vaca saudável, a concentração ronda as 50 mil células por mililitro (50 milhões por cada litro) e a legislação ao nível da União Europeia não permite a produção de leite com valores de células somáticas superiores a 400 mil por mililitro (400 milhões por litro). “São as mesmas células que estão no pus? Sim, mas não tem nada a ver uma coisa com a outra", refuta o médico veterinário. "Era a mesma coisa que dizer que o sangue era igual ao pus e não é. O pus é uma concentração muito elevada de glóbulos brancos”.

A publicação refere ainda as “dioxinas” que, como explica Paula Teixeira, são “contaminantes ambientais” que não é expectável que estejam presentes no leite porque o ambiente é controlado; de “alumínio” que, segundo Ana Maria Gomes, pode estar relacionado com as antigas bilhas de transporte mas “hoje em dia as bilhas são de aço inoxidável e portanto a contaminação por metais não se coloca”; de “hormonas”, referindo-se provavelmente à BST - um composto hormonal que faz o animal produzir leite e que na Europa não é permitido; aos “solventes de limpeza” que segundo a mesma professora “têm de ser licenciados” ao abrigo das “boas práticas de higiene e requisitos de segurança alimentar”; e, por fim, das “substâncias radioativas” que Paula Teixeira diz não conseguir perceber qual o fundamento de tal alegação.

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Do pasto ao copo, o processo do leite em Portugal

Carlos Neves, produtor de leite e vice-presidente da Associação dos Produtores de Peite de Portugal, estava no meio das suas vacas quando explicou ao Polígrafo o processo de produção do leite. “As vacas são ordenhadas duas a três vezes por dia na sala de ordenha”, começa por dizer, acrescentando que o leite é arrefecido e guardado em refrigeradores específicos até ser carregado para a cisterna que o transporta até às fábricas de produção. “Todo o leite que sai da vacaria é analisado e se, por azar, contaminássemos o leite, o agricultor não recebia e tinha de pagar o prejuízo dos outros”, salienta.

Para evitar que haja essa contaminação, os produtores de leite dispõem de kits que permitem fazer uma primeira análise à presença de antibióticos no leite. No camião é feito um teste, ao chegar à fábrica é feito outro e, chegado ao fim o processo, ainda é necessário realizar um controlo de qualidade. “Quem está hoje na atividade foi quem resistiu e quem cumpre uma série de exigências de fiscalização e de análise. É um produto muito controlado e produzido com todos os cuidados”, garante, deixando ainda uma certeza em tom de brincadeira: “O único leite que leva coisas é o leite achocolatado, leva açúcar e chocolate”.

“Acho que é mesmo importante que o consumidor tenha confiança naquilo que consome e na indústria alimentar”, enfatiza Ana Maria Gomes. “Porque a indústria alimentar é altamente controlada e nunca foi tão controlada como é hoje. Esse tipo de notícias só vem lançar a confusão porque são desinformações, a maior parte das vezes sem qualquer fundamento”.

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Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

Na escala de avaliação do Facebookeste conteúdo é:

Falso: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Na escala de avaliação do Polígrafoeste conteúdo é:

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