Está a ser partilhada nas redes sociais uma mensagem onde se garante que o dióxido de cloro funciona “de forma científica” para curar a Covid-19. Na imagem aparece Andreas Kalcker, um suposto cientista alemão, a defender a utilização da substância MMS – sigla inglesa para Suplemento Mineral Milagroso – no tratamento de diversas doenças. A MMS resulta da dissolução do dióxido de cloro em água e Kalcker tem mesmo um vídeo publicado no Youtube onde ensina a obter a solução através da junção de ácido clorídrico e clorito de sódio.

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Esta solução é realmente uma fórmula milagrosa que permite prevenir e curar a doença provocada pelo novo coronavírus? Verificação de factos. 

“Não há nenhuma evidência baseada na ciência que diga que [a solução] é benéfica para qualquer tipo de infeção”, garante ao Polígrafo Nuno Saraiva, professor de virologia na Universidade Lusófona. O dióxido de cloro é um composto químico que pode ser usado “como um desinfetante”, à semelhança da lixívia, mas não como um fármaco. Para ser um medicamento, “o composto tem que matar ou eliminar o patogénico – seja o vírus, bactéria, parasita da malária, ou outros –, mas tem também que não matar o hospedeiro”.

O dióxido de cloro é um composto químico que pode ser usado “como um desinfetante”, à semelhança da lixívia, mas não como um fármaco.

“Este composto não é específico para o vírus, atacará qualquer proteína”, prossegue o especialista, referindo-se em especial às proteínas “das membranas que estão à volta das células”. Ao atacar essas proteínas, o dióxido de cloro pode não só provocar graves danos na saúde, como levar à morte por intoxicação.

Nuno Saraiva confessa que esta sugestão de utilizar dióxido de cloro lhe traz à memória as declarações de Donald Trump  sobre a possibilidade de se injetar desinfetante nos pulmões para eliminar o vírus SARS-CoV-2, responsável pela Covid-19. “Eu vi que o desinfetante o mata [ao vírus] num minuto, um minuto. E existe uma forma de fazer algo desse género, ao injetar, porque chega aos pulmões”, disse o presidente norte-americano no final de abril. Depois das declarações de Trump, foi registado nos Estados Unidos um aumento dos casos de hospitalização por intoxicação com produtos desinfetantes.

Não existe, até ao momento, qualquer medicamento ou substância com capacidade de curar o prevenir a Covid-19.

Donald Trump não é, ainda assim, o único a procurar uma substância milagrosa contra a Covid-19. O senado da Bolívia já aprovou “de forma excepcional, o fabrico, comercialização, administração e uso da solução de dióxido de cloro para a prevenção e o tratamento do coronavírus”. Segundo o "Expresso", "esta determinação durará enquanto existir o risco de contágio do coronavírus e a produção da solução de dióxido de cloro estará em laboratórios públicos e privados autorizados pelo órgão regulador competente, devendo cumprir as medidas de qualidade e incluir informação que certifique a composição, dosificação, precaução e cuidados na hora de consumir".

Não existe, até ao momento, qualquer medicamento ou substância com capacidade de curar o prevenir a Covid-19. A Organização Mundial de Saúde “não recomenda automedicação de nenhum medicamento, incluindo antibióticos, como prevenção ou cura para a Covid-19”, pode ler-se na secção de perguntas e respostas do organismo sobre a doença. Para prevenir o contágio, devem seguir-se as recomendações sempre defendidas pelas autoridades sanitárias mundiais: efetuar uma boa higiene respiratória, evitar tocar com as mãos nos olhos, nariz e boca e lavar frequentemente as mãos. 

EUA alertam para perigos da MMS há 16 anos

A MMS terá sido “descoberta” por Jim Humble na década de 1990, segundo se assegura no site do próprio. “Em 1996, enquanto ia numa expedição de extração de ouro na América do Sul, descobri que o dióxido de cloro erradicava a malária. Desde essa altura, tem vindo a provar-se o restauro parcial ou total da saúde de centenas de milhares de pessoas que sofrem de doenças de grande escala”, pode ler-se num texto que enuncia dezenas de doenças, entre elas malária, Alzheimer, VIH/SIDA e autismo.

Esta substância é desaconselhada pelas autoridades de saúde há vários anos. A Agência norte-americana para as Substâncias Tóxicas e o Registo de Doenças lançou um alerta em setembro de 2004 sobre o perigo de ingerir a solução. “O dióxido de cloro e o clorito reagem rapidamente na água e nos tecidos húmidos do corpo. Se respirar ar que contém gás dióxido de cloro, poderá sentir irritação no nariz, garganta e pulmões. Se comer ou beber grandes quantidades de dióxido de cloro ou clorito, poderá sentir irritação na boca, esófago ou estômago”, alerta a agência norte-americana.

A Agência norte-americana para as Substâncias Tóxicas e o Registo de Doenças lançou um alerta em setembro de 2004 sobre o perigo de ingerir dióxido de cloro.

Conclui-se assim que o dióxido de cloro não é um medicamento milagroso que trata ou previne a Covid-19 ou qualquer outra doença. Quando ingerido ou inalado, é provável que cause lesões ao nível do sistema respiratório ou gastrointestinal. Esta substância pode ser usada na desinfeção de espaços e superfícies – à semelhança da lixívia e outros detergentes – mas não deve ser ingerida ou administrada como fármaco. 

Avaliação do Polígrafo:

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