A cada dia que passa há mais informações sobre a Covid-19 e a busca por um tratamento para esta doença é uma prioridade entre a comunidade científica. Muitos artigos que têm sido publicados nos últimos tempos apresentam sugestões de diferentes substâncias que podem ser utilizadas para combater o novo coronavírus, mas a maioria ainda são só hipóteses. Recentemente uma equipa francesa publicou um estudo que relaciona o número de pacientes infetados com o número de fumadores e sugere a utilização de nicotina no tratamento desta doença.

“Com base na atual literatura científica e nos novos dados epidemiológicos que revelam que o estatuto de fumador parece ser um fator protetor contra a infeção por SARS-CoV-2, nós colocámos a hipótese de que os recetores de nicotina acetilcolina (nAChR) têm um papel chave na fisiopatologia da infeção por Covid-19 e poderão representar um alvo na prevenção e controlo da infeção por Covid-19”, pode ler-se no artigo da equipa liderada por Jean-Pierre Changeux.

O estudo apresenta uma relação entre o tabaco e a Covid-19 que aparenta ser positiva, o que entra em contradição com as conclusões anteriores sobre o risco do tabaco nas doenças pulmonares e vai contra as recomendações quer da Organização Mundial de Saúde, quer da Direção-Geral de Saúde para que os indivíduos deixem de fumar.

Tabaco
créditos: Pixabay

“Não há lógica nenhuma em o tabaco – principalmente o cigarro, mas qualquer forma de tabaco – ser protetor de doenças respiratórias”, afirma ao Polígrafo Tiago Alfaro, vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP) e professor na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. “Existem muitos dados sobre a forma como o tabaco se associa ao risco de infeções – nomeadamente gripe,  pneumonias e, obviamente, cancro do pulmão – e também há dados já sobre a Covid-19 que mostram, e são bastante claros nesse aspeto, que os fumadores têm a doença muito mais grave”, acrescenta.

Para o vice-presidente da SPP, este estudo apresenta limitações importantes, como não incluir os doentes que estavam internados nos cuidados intensivos e ter níveis elevados na taxa de ex-fumadores. “No [estudo] francês há uma taxa de ex-fumadores muito superior ao que era de esperar. Provavelmente o que acontece é que quando perguntam às pessoas se fumam, elas respondem ‘não, fumava’. No fundo, fumava até há dois dias e na prática continuam a ser pessoas que têm o efeito do tabaco”, explica o professor.

“Existem muitos dados sobre a forma como o tabaco se associa ao risco de infeções – nomeadamente gripe,  pneumonias e, obviamente, cancro do pulmão – e também há dados já sobre a Covid-19 que mostram, e são bastante claros nesse aspeto, que os fumadores têm a doença muito mais grave”, diz ao Polígrafo Tiago Alfaro, vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia.

Para Filipe Froes, pneumologista e coordenador do Gabinete de Crises da Ordem dos Médicos, o “desespero” pela procura de soluções é o que tem levado a encontrar soluções pouco habituais. “Uma observação circunstancial num estudo motivou uma validação, mas o que nós sabemos é que em muitos outros estudos, já devidamente validados, as doenças respiratórias crónicas que estão fortemente associadas ao tabaco representam um fator acrescido de evolução para formas mais graves de doença e um acréscimo da mortalidade”.

tabaco
créditos: National Cancer Institute

A explicação apresentada no estudo para a utilização de nicotina no combate à Covid-19 está relacionada com os recetores ACE-2 que foram identificados como os recetores por onde o vírus entra nos pulmões e se desenvolve. Os ACE-2 estão localizados nas mesmas células onde a nicotina atua e é com base nessa premissa que a equipa liderada por Changeux sugere a utilização de pensos de nicotina para ajudar no tratamento da Covid-19. “Tanto quanto eu sei, não é a nicotina que bloqueia estes recetores. O que não quer dizer que não tenhamos de manter uma mentalidade aberta e testar todas as hipóteses mesmo aquelas que possam parecer disparatadas. Portanto, isto não tem qualquer validade científica, é apenas uma hipótese de trabalho que algumas pessoas vão aprofundar e que, certamente, daqui a dois ou três meses estarão muito mais habilitadas para confirmar ou infirmar o verdadeiro valor”, esclarece Froes.

Para Filipe Froes, pneumologista e coordenador do Gabinete de Crises da Ordem dos Médicos, o “desespero” pela procura de soluções é o que tem levado a encontrar soluções pouco habituais. “Uma observação circunstancial num estudo motivou uma validação, mas o que nós sabemos é que em muitos outros estudos, já devidamente validados, as doenças respiratórias crónicas que estão fortemente associadas ao tabaco representam um fator acrescido de evolução para formas mais graves de doença e um acréscimo da mortalidade”.

Também Alfaro tem dúvidas sobre o impacto da nicotina nos recetores do vírus. “Eu tenho muitas dúvidas se essa interação será para o lado positivo, até porque o que se mostrou nos fumadores é que eles têm mais recetores – isso está demonstrado nos fumadores ou nos doentes de Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC) – portanto têm um maior risco de apanhar o vírus”. Além disso, o vice-presidente da SPP recorda que existem outros fármacos que atuam nos mesmos recetores que a nicotina e que são mais indicados, uma vez que não causam adição à substância.

O tabaco contém cerca de 4.000 substâncias – entre elas monóxido de carbono e alcatrão – que são prejudiciais à saúde do indivíduo. “A nicotina no tabaco serve essencialmente para criar o vício. A nicotina chega ao pulmão e quaisquer efeitos que tenha são totalmente ultrapassados pelos outros 4.000 componentes que também lá estão, alguns dos quais carcinogénos”, relembra Alfaro.

Mesmo que a nicotina venha a ser considerada uma mais valia no tratamento da Covid-19 – o que ainda precisa de ser validado através de estudos mais aprofundados e ensaios clínicos – isso não significa que o tabaco crie uma proteção contra o coronavírus. O tabaco contém cerca de 4.000 substâncias – entre elas monóxido de carbono e alcatrão – que são prejudiciais à saúde do indivíduo. “A nicotina no tabaco serve essencialmente para criar o vício. A nicotina chega ao pulmão e quaisquer efeitos que tenha são totalmente ultrapassados pelos outros 4.000 componentes que também lá estão, alguns dos quais carcinogénos”, relembra Alfaro.

Atualmente a nicotina só é medicamente utilizada nos tratamentos que têm como objetivo reduzir a dependência desta substância, não sendo receitada como fármaco para nenhuma doença.

Avaliação do Polígrafo: 

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