"O isolamento e restrições estão a criar problemas gravíssimos de demência e imobilidade nos idosos. Isto para não falar nas trapalhadas que fizeram em março que precipitou a morte de imensos idosos", alerta-se em publicação no Facebook, datada de 18 de Fevereiro.

O post remete para uma notícia do jornal britânico Daily Mail que descreve os efeitos negativos do confinamento em John Ross, um residente de Liverpool com 89 anos de idade.

"A família de um bisavô partilhou fotografias com um ano de diferença para destacar o efeito cruel que um ano de separação está a ter sobre os residentes de lares", lê-se no artigo. Na imagem comparam-se duas fotografias de Ross, antes e durante o confinamento, com um ano de intervalo.

Trata-se de um caso excepcional, ou o confinamento pode causar problemas de demência e mobilidade nos idosos?

Questionada pelo Polígrafo, a psiquiatra Ana Matos Pires explica que "a paragem de tudo o que é atividade, como o contacto com a família ou frequência de centros de dia, é prejudicial para todas as pessoas que já estão com limitações cognitivas e quadros demenciais em início".

Coordenadora regional da Saúde Mental da ARS Alentejo, Matos Pires considera que a falta de estimulação é uma das grandes causas para o agravamento desses quadros. "Quanto menos estimulação existir e se não potenciamos os neurónios que ainda estão vivos, o declínio cognitivo é muito mais acentuado. Mesmo nos idosos institucionalizados, e com o elevado número de casos que houve nos lares, as habituais atividades pararam e é facilmente compreensível que a falta de estimulação resulte num agravamento da demência", afirma.

"Quanto menos estimulação existir e se não potenciamos os neurónios que ainda estão vivos, o declínio cognitivo é muito mais acentuado. Mesmo nos idosos institucionalizados, e com o elevado número de casos que houve nos lares, as habituais atividades pararam e é facilmente compreensível que a falta de estimulação resulte num agravamento da demência", realça a psiquiatra Ana Matos Pires.

Nas faixas etárias mais jovens, as redes sociais e plataformas como o Skype e o Zoom servem para amenizar o isolamento causado pela pandemia. Mas o mesmo nem sempre se aplica aos mais velhos. "A relação social tem sido mantida pelos meios possíveis que não os presenciais. Ora, nós estamos num país em que a literacia digital não é fantástica nas faixas etárias mais velhas", sublinha.

Os outrora habituais passeios para comprar o jornal no quiosque ou as idas ao mercado são hoje uma realidade distante para os idosos. E o corpo acaba por sofrer com essa paragem, alerta Matos Pires. "Imagino os aumentos de peso, os efeitos da obesidade, a necessidade de maior controlo dos diabetes e as doenças osteoarticulares. O andar ajudava as articulações e o pensar ajudava à cabeça. E tudo isto parou".

Por sua vez, Isabel Beltrão, paliativista e diretora-clínica da Unidade de Santa Bárbara, considera que foram os familiares quem mais sofreu com o confinamento. "A carga de ansiedade dos familiares é muito maior do que a dos próprios idosos. Claro que um ou outro por vezes descompensava e muitas vezes tinham crises de angústia. Mas conseguimos sempre acalmá-los e explicar a situação", afirma. O recurso às videochamadas foi um dos métodos utilizados para colmatar a distância imposta pela pandemia.

A Unidade de Santa Bárbara, na Lourinhã, dispõe de um espaço exterior extenso e salas amplas, o que permitiu manter muitas das atividades. Mas esse não é o caso de todas as residências para idosos, salienta Beltrão. "As unidades mais pequenas não têm essa capacidade. Além de os idosos perderem capacidade motora, ficam menos ativos na função cognitiva. E um ano é tempo suficiente para perderem uma série de aptidões", conclui.

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Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking (verificação de factos) com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

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