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O aquecimento global influencia a epidemiologia de doenças zoonóticas como a malária ou dengue?

Geração V
O que está em causa?
Na rede social X afirma-se em vários "tweets" que as alterações climáticas estão a afetar a propagação de infeções zoonóticas ao alterar a dinâmica entre os agentes patogénicos, os hospedeiros e os vetores responsáveis pela transmissão destas doenças. Esta associação entre o aquecimento global e potencial aumento de doenças como malária ou dengue tem fundamento?

As alterações climáticas, com particular destaque para o aquecimento global, são um dos problemas que mais preocupação geram na sociedade. Havendo já um reconhecimento sobre o impacto da atividade humana na sua evolução, e tendo em conta as recentes catástrofes climáticas, verifica-se um alerta cada vez maior da população mundial para a necessidade de mitigar esta crise.

Além disso, a lista de fenómenos causados pelas alterações climáticas, como as secas, alteração do regime das chuvas, cheias ou ondas de calor ou frio intensas, tem vindo a aumentar de forma significativa.

Um tweet na rede social X chama a atenção precisamente para isso, alertando para mais uma possível consequência do aquecimento global. Alega-se o aquecimento global em conjunto com “as variações geoclimáticas” tem influenciado a “epidemiologia de doenças zoonóticas alterando a dinâmica de hospedeiros, vetores e patógenos, bem como suas interações”.

Quererá isto dizer que o aquecimento global poderá desencadear um aumento da propagação de doenças zoonóticas, como a malária ou dengue, por exemplo?

Começando por clarificar a afirmação, uma doença zoonótica é aquela que pode ser livremente transmitida entre hospedeiros humanos e animais, seja qual for o agente patogénico (patógeno) que a causa, isto é, independentemente de ser causada por um vírus, bactéria ou outro tipo de parasita. Alguns exemplos incluem a raiva, a leishmaniose, a gripe das aves e várias doenças tropicais como a malária e o dengue. Alguns especialistas levantaram até a hipótese de que a própria pandemia de Covid-19 possa ter começado através da transmissão zoonótica do vírus SARS-CoV-2 de um animal para um humano.

Algumas destas infeções, em particular as tropicais, são propagadas através de outros organismos, como algumas espécies de moscas ou mosquitos, que transportam os agentes infecciosos sem, no entanto, serem afetados por eles. Estes intermediários – ou seja, organismos vivos – são designados vetores.

E, segundo a comunidade científica, os relatos de infeções zoonóticas têm vindo a aumentar na última década, assim como a distribuição de agentes patogénicos anteriormente restritos a certas regiões do globo. De facto, um dos principais fatores responsáveis é precisamente o aquecimento global. A subida da temperatura média tem vindo a alterar a distribuição natural das espécies, aumentando as regiões habitáveis para espécies tropicais adaptadas a temperaturas mais elevadas.

Alguns animais de climas mais quentes, incluindo vetores de zoonoses (doenças comuns a humanos e animais), têm vindo a expandir-se para latitudes cada vez mais elevadas, trazendo consigo uma variedade de agentes infecciosos. Prevê-se que este fenómeno se intensifique nas próximas décadas, criando um primeiro contacto entre diversas espécies animais e facilitando a propagação de parasitas em ambas as direções. Uma vez presentes numa população, estes patógenos podem ser captados por insetos nativos, que se tornarão novos vetores de transmissão.

Ora, com a crescente destruição de habitats naturais, é também de esperar um maior contacto entre humanos e animais selvagens, que podem ser fontes de agentes patogénicos desconhecidos para a ciência. Acresce que o aquecimento global, ao provocar o degelo das calotes polares, liberta também microrganismos que se encontravam lá aprisionados, e que podem infetar várias espécies animais, incluindo os humanos.

Além disso, as catástrofes naturais causadas pelas alterações climáticas têm criado novos nichos para a multiplicação de vetores como por exemplo os mosquitos. Estes animais reproduzem-se em ambientes de água estagnada, que tanto podem ser criados por cheias como por secas (através da compartimentação de cursos de água em pequenos lagos e poças).

Por último, salientar que o aquecimento global tem um impacto negativo na saúde, como se pode observar pelas crescentes vagas de calor registadas em todo o mundo que enfraquecem as populações, deixando-as mais vulneráveis a todo o género de infeções.

Devido a todos estes fatores, a comunidade científica procura olhar para a saúde humana, animal e ambiental como um único conceito que deve ser preservado por todos, a chamada Uma Saúde (do inglês ‘One Health’), uma abordagem explicada no site do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças

Assim, é verdadeiro que o aquecimento global e outras alterações geoclimáticas influenciam a epidemiologia das doenças zoonóticas ao afetar as interações entre hospedeiros, vetores e agentes patogénicos.

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Geração V

Este artigo foi desenvolvido pelo Polígrafo no âmbito do projeto “Geração V – em nome da Verdade”, uma rede nacional de jovens fact-checkers. O projeto foi concretizado em parceria com a Fundação Porticus, que o financia. Os dados, informações ou pontos de vista expressos neste âmbito, são da responsabilidade dos autores, pessoas entrevistadas, editores e do próprio Polígrafo enquanto coordenador do projeto.

*Texto editado por Marta Ferreira.

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Avaliação do Polígrafo:

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