Nas redes sociais correm vídeos, de supostos especialistas em cancro ou pessoas que juram ter curado a doença sem os tratamentos recomendados, que garantem ter descoberto um alimento ou composto específico que provoca doença oncológica. Depois segue-se uma fórmula para a curar através da supressão do mesmo composto.
A fórmula repete-se, e dentro dessa categoria, multiplicam-se vídeos em que se alega que “o açúcar alimenta as células cancerígenas”. Por essa lógica, prosseguem, basta não comer açúcar que o cancro nunca se desenvolverá, e se se parar de comer depois de um diagnóstico o tumor não irá evoluir.
Mas não é assim, diz Magda Roma, nutricionista dedicada à área da oncologia, em declarações ao Viral: “O cancro é uma doença multifatorial, não é de causa única”. O que se sabe é que “uma alimentação limitada de açúcares simples e equilibrada em alimentos com hidratos de carbono complexos beneficiam o organismo”.
O açúcar “alimenta” células cancerígenas?
O açúcar serve de alimento para todas as células, cancerígenas ou não. “Todas as células do nosso organismo consomem glicose e todos os alimentos ricos em hidratos de carbono irão ser convertidos em glicose”, diz a nutricionista. É a glicose que faz com que seja criada energia nas células.
Há açúcares simples, compostos apenas por uma molécula, como a glicose, que é um monossacarídeo, e há açúcares que são uma cadeia de moléculas — quanto maior for essa cadeia mais complexos são.
Os hidratos de carbono presentes em várias comidas, como massa e pão, são uma importante fonte de energia. O corpo “parte” estes açúcares e transforma-os em moléculas simples, de forma a conseguir absorvê-las e criar energia. Todas as células precisam dessa energia para que o corpo funcione.
Um dos saltos lógicos dados para tentar sustentar a tese de que o açúcar faz com que o cancro se desenvolva mais rápido é simples: alguns internautas alegam que, se a existência de um cancro pressupõe uma grande utilização de energia, isso só pode significar que ao parar de comer açúcar o tumor para de crescer. Mas isso não é verdade.
Como todas as células precisam de glicose para ter energia e não há distinção na distribuição por células cancerígenas e não cancerígenas, tentar “matar à fome” estas últimas teria efeitos nocivos para todo o funcionamento do corpo. Principalmente depois do diagnóstico, durante a fase de tratamentos, a perda de peso e o défice nutricional podem prejudicar o prognóstico.
E é importante sublinhar que, mesmo que se pare de comer alimentos com açúcares — simples e complexos —, o corpo mantém um nível de glicose mínimo no sangue, sintetizado no fígado através de gorduras e proteínas. Essa glicose dirigir-se-á tanto para células cancerígenas como não cancerígenas.
Qual a relação entre açúcar e células cancerígenas?
As células cancerígenas têm um metabolismo alterado: mesmo quando há oxigénio disponível, preferem converter glicose em energia através da via da fermentação (glicólise anaeróbia), um fenómeno conhecido como efeito Warburg.
Esta estratégia é menos eficiente energeticamente, mas permite ao tumor crescer rapidamente e produzir outros compostos essenciais à multiplicação celular. É por isso que estas células consomem glicose em grandes quantidades — não porque o açúcar “alimente” o cancro, mas porque o tumor precisa de muita energia e “matéria-prima” para continuar a crescer.
O PET (tomografia por emissão de positrões) é um exame muitas vezes feito como primeiro passo de um diagnóstico de cancro e baseia-se nesse efeito. É administrado ao paciente uma pequena concentração de glicose radioativa e os tumores são localizados com base nas áreas onde há maior consumo energético. Isso acontece porque as células cancerígenas, de facto, consomem mais energia do que as normais.
“As células oncológicas são mais requisitantes de glicose que as células normais. O tumor cria vascularização em seu redor facilitando as vias de abastecimento de glicose, parece que o tumor tem mais receptores de insulina que as células normais”, diz Magda Roma. Ou seja, o PET mostra onde há maior atividade metabólica, o que não quer dizer que o açúcar seja a causa nem que eliminá-lo vá travar a progressão do tumor.
O que pode acontecer é que um consumo continuado e excessivo de açúcar leve a um aumento de peso e eventualmente ao desenvolvimento de obesidade — essa, sim, fator de risco para o cancro. Aliás, em 2022, a Organização Mundial de Saúde (OMS) alertava para a possibilidade de a obesidade passar a ser o principal fator de risco para cancros preveníveis.
Como explicamos noutro artigo, as células de gordura (tecido adiposo) podem libertar hormonas de crescimento, produzir hormonas sexuais ou aumentar o nível de inflamação no corpo. Todos esses fatores aumentam o risco de cancro. Neste caso, de forma indireta, a ingestão de elevados níveis de açúcar, muitas vezes associada a um estilo de vida sedentário, pode vir a provocar cancro.
Como deve ser a abordagem nutricional de um paciente oncológico?
Não há dietas nem alimentos milagrosos. “Os casos são individuais e um doente oncológico não é só a patologia diagnosticada”, sublinha a nutricionista. “É uma pessoa com necessidades diferenciadas das restantes”. Ou seja, devem ser avaliadas outras patologias que o doente possa ter, assim como comportamentos de risco ou hábitos que tenham de ser modificados “em prol da saúde”.
Quanto aos açúcares, Magda Roma deixa quatro linhas-guia para a hora de pensar na melhor abordagem durante o tratamento de doença oncológica: “diminuir o consumo de alimentos processados e açucarados”, “aumentar o consumo de fibra alimentar”, “optar por alimentos ricos em hidratos de carbono complexos” e “aumentar a ingestão de água”.
A dieta deve ser “maioritariamente de base vegetal, com consumo limitado de produtos cárneos, e sem consumo de álcool e carnes processadas”. E ressalva: “os casos têm de serem avaliados de forma individual e ajustado à realidade de cada um”.
Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.
A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.

