Um texto partilhado nas redes sociais sugere o aparecimento de um novo exame de sangue que poderia substituir as mamografias e detetar vários tipos de cancro de forma precoce: "Recentemente, vários investigadores da Universidade Johns Hopkins, nos EUA, e do Instituto Walter e Eliza Hall, na Austrália, desenvolveram um exame de sangue capaz de detetar a presença de oito tipo de cancro diferentes, entre eles o da mama. Chamado CancerSEEK, este exame consegue detetar pequenas quantidades de ADN alterado e proteínas libertadas de células cancerígenas no sangue" garante o seu autor, que sublinha ainda que este teste poderia ser realizado em simultâneo com análises de rotina: "Trata-se de uma espécie de biópsia líquida, mas muito menos invasivo que uma biópsia, que pode ser feita em simultâneo com um exame de sangue de rotina." E adianta-se: "O teste é adequado para mulheres de qualquer idade, mas mais próprio para as mulheres com menos de 50 anos e com historial de cancro da mama na família."

Esta nova análise permitiria detetar o cancro de forma rápida e não invasiva. Mas será a informação verdadeira? Verificação de factos.

CancerSEEK surgiu recentemente como um teste que promete a deteção do cancro em estágios precoces. Não estando ainda disponível para o uso nos hospitais, promete "estar a ser desenvolvido de forma a detetar múltiplos tipos de cancro nos estágios mais iniciais, antes ainda dos sintomas ocorrerem".

Luís Marques da Costa, Director do Serviço de Oncologia Médica e do Departamento de Oncologia do Hospital de Santa Maria, afirma ao Polígrafo que "as biópsias líquidas - deteção de ADN tumoral em circulação, por exemplo - já são uma realidade para guiar tratamentos alvo no cancro do pulmão e no cancro colorectal em estádios avançados."

Através de uma análise de sangue, a que chamam de biópsia liquída, seria possível indentificar ADN tumoral na circulação sanguínea. As células tumorais, ao morrerem, libertam fragmentos para a corrente sanguínea. Localizando o ADN nesses fragmentos, seria possível detetar o cancro com maior precocidade do que se se optasse por recorrer à realização de TACs ou de biópsias. Quanto mais ADN tumoral for descoberto na circulação sanguínea, pior será o prognóstico para o doente. A explicação completa do procedimento pode ser lida nesta publicação da plataforma Science.

Mas qual seria a importância deste método?

  • Deteção mais fácil e precoce do cancro
  • Monitorização mais simples
  • Permite obter um prognóstico

Já a biópsia comum só poderia ser feita em lesões previamente identificáveis sendo, na maioria dos casos, invasivas.

Luís Marques da Costa, Director do Serviço de Oncologia Médica e do Departamento de Oncologia do Hospital de Santa Maria, afirma ao Polígrafo que "as biópsias líquidas - deteção de ADN tumoral em circulação, por exemplo - já são uma realidade para guiar tratamentos alvo no cancro do pulmão e no cancro colorectal em estádios avançados".

"Para deteção precoce de tumor estão em desenvolvimento plataformas de biópsias líquidas. O CancerSEEK é uma das plataformas promissoras para o efeito e aquando da sua publicação o que me impressionou mais foi o potencial desta plataforma para detetar cancro do pâncreas ou cancro do pulmão em fase operável", refere.

E explica o porquê: "Estes dois são tumores mais difíceis de detetar precocemente em comparação com o cancro da mama. Aliás, nesse estudo a sensibilidade do teste para detetar cancro do pulmão, do ovário ou do pâncreas foi maior do que para detetar cancro da mama ou da próstata", ressalva o oncologista, que conclui que "o conceito é muito interessante visto que basta uma amostra de sangue." Mas deixa um alerta: "A validação da sua aplicabilidade clínica para deteção precoce de cancro ainda não é uma realidade".

Em suma, a biópsia líquida como forma de deteção precoce de tumores está de facto a ser desenvolvida. Contudo, o teste ainda não está disponível e a ser utilizado nos hospitais. Embora a informação no corpo do artigo sob análise não esteja totalmente errada, o título não deixa de ser enganador.

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Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

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Título falso: as principais alegações dos conteúdos do corpo do artigo são verdadeiras, mas a alegação principal no título é factualmente imprecisa.

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