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Novo deputado do Chega defendia “castigos corporais” aos alunos na sala de aula?

Política
Este artigo tem mais de um ano
O que está em causa?
Já foram traçados vários perfis dos novos deputados à Assembleia da República, mas nas redes sociais continuam a aparecer mais dados e pormenores sobre o passado dessas pessoas que o país acaba de eleger. No Twitter, sobre um dos novos deputados do partido Chega, Gabriel Mithá Ribeiro, diz-que o ex-professor chegou a defender "castigos corporais na sala de aula". Será verdade?

A acusação foi feita no Twitter, onde uma internauta recordou parte do passado de Gabriel Mithá Ribeiro, vice-presidente e agora deputado do Chega eleito pelo distrito de Leiria:

“Gabriel Mithá Ribeiro, agora deputado da seita, foi professor de História do meu filho, no 12° ano. Na altura, também era professor na [Universidade] Católica. O miúdo está perplexo e diz que, agora, tudo faz sentido, recordando o que ele dizia. Tinha tiques racistas, imagine-se”, lê-se no tweet que acabou por se tornar viral.

Mas foi em comentário a esta acusação que alguém lembrou que “há artigos (já com muitos anos) do Mithá Ribeiro onde ele defende castigos corporais na sala de aula“.

“Se uma filha minha fosse aluna dele na altura em que ele escreveu aqueles artigos teria entrado imediatamente em contacto com a direção. Está bem onde está, é a sua casa”, acrescentou a autora da resposta ao tweet original.

Antigo militante do PSD, Mithá Ribeiro não é um desconhecido, apesar de esta ser a primeira vez que se senta na Assembleia da República. Em 2006, num artigo publicado no jornal “Diário de Notícias”, Vasco Graça Moura citava o livro do atual deputado do Chega, “A Pedagogia da Avestruz”, onde Mithá Ribeiro afirmava:

“Cheguei a ter de jogar alunos e respectivo material pela porta fora, porque se recusavam a obedecer à ordem de expulsão da aula; cheguei a agarrar pelos colarinhos alunos que me invadiam a sala; cheguei a pôr o dedo em riste em algumas situações. Arrisquei a minha pele? Sim, mas ganhei o respeito dos outros e assim pude trabalhar.”

Para Mithá Ribeiro, a “questão dos aberrantes e politicamente corretos castigos pedagógicos é toda ela pensada partindo de uma visão demasiado optimista da condição humana e da vida social, como toda a atual filosofia do ensino”.

Já em 2013, numa entrevista ao jornal “i”, o ex-docente explicou que “é muito difícil separar a indisciplina da violência. O problema sério nas escolas é a indisciplina. E o problema seríssimo é a pequena indisciplina”. Além, claro está, do “ruído”, que se tornou “tão normal que só reagimos quando se ultrapassa” um limite.

“O silêncio é o aspecto que mais casa com a construção do conhecimento, mas foi banido das escolas. O ruído foi naturalizado nas aulas e incentivado pelos pedagogos que defendem a participação, a permanente atividade dos alunos”, disse Mithá Ribeiro ao referido jornal.

Não se quer parecer com os liberais, mas as suas medidas para a economia parecem diferir cada vez menos. O líder do partido que deixou de ser de um homem só esteve esta segunda-feira na CMTV para lembrar que o Chega não é de extrema-direita, que não sabe se tem financiadores da Opus Dei e que, economicamente, o país tem que andar, até porque "quase metade do salário" é levado "em impostos [diretos]". O Polígrafo verifica.

“O modelo participativo tem virtudes mas também tem problemas e um deles é incentivar a indisciplina”, continuou o agora deputado do Chega, que acabou mesmo por dizer que “o modelo autoritário diretivo consegue mais eficazmente impor o silêncio“, lamentando que se tenha passado de “um modelo autoritário da ditadura para uma ditadura da democracia que impôs o modelo participativo. Quem hoje defender o modelo autoritário parece que está a cometer um pecado capital”.

É já no final da entrevista que Mithá Ribeiro indica ser um “professor autoritário” e que, para isso, beneficia “de duas vantagens que são vergonhosas de dizer num estado civilizado. Uma: sou homem e posso ser fisicamente afirmativo. Se um aluno desobedecer à minha ordem estou preparado para atuar. Não dou aulas sem estar fisicamente bem preparado – faço jogging, exercício, etc.”

Recordado sobre a exigência do Estado Novo em relação à robustez dos professores, Mithá Ribeiro assumiu a “robustez física como condição de sobrevivência na sala de aula”:

“Por outro lado, ser negro é uma grande vantagem para lidar com minorias. A maioria do corpo docente são mulheres de etnia portuguesa. Se alguém estiver interessado em perceber o que é a violência sobre as mulheres é entrar numa sala de aula. Combater a violência contra as mulheres é combater a indisciplina nas escolas. Mas o que temos é um discurso académico politicamente correto que, ao mesmo tempo que defende a condição da mulher, defende exageradamente a condição do aluno que massacra essa mulher. Os governos passam e este problema arrasta-se. Devíamos ter vergonha disso.”

Confrontado com o livro e os episódios autoritários que nele relata, Mithá Ribeiro reafirma algumas das intervenções: “Tive um aluno que ficava à porta da sala a gozar enquanto os colegas entravam. Um dia em que entrou, agarrei-o com a toda a força e rebentei-lhe a camisa e só não lhe bati. Ficou de tal maneira assustado que nunca mais apareceu nas minhas aulas. Nesse ano tive o meu carro riscado de ponta a ponta. Mas nunca contestei. É o preço a pagar.”

Dada a altura em que estas posições foram relatadas e vieram a público, o Polígrafo contactou o próprio Mithá Ribeiro para perceber se o novo deputado mantém a opinião, o que pensa sobre o ensino atual e se é apologista de castigos físicos por forma a melhorar a aprendizagem dos alunos.

A resposta reduz o tema a algo insignificante e que o vice-presidente do Chega parece não mais considerar válido para discussão: “Falar com seriedade do ensino não é desperdiçar tempo com questões desse tipo ou mero fast food.”

Se não “distinguirmos o essencial do acessório”, argumenta, “nem sequer somos sujeitos racionais”. Por isso, Mithá Ribeiro diz querer “contribuir para uma mudança séria do ensino“, mas não através da perspectiva com que foi confrontado pelo Polígrafo, a que defendeu há menos de uma década.

Nota editorial: A avaliação final deste fact-check foi alterada às 17h22 do dia 3 de fevereiro. Da avaliação inicial de “Verdadeiro, mas…”, passámos para a de “Verdadeiro”.

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Avaliação do Polígrafo:

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