"Homem que vendeu o coronavírus na China, preso. Os EUA acabaram de descobrir o homem que fabricou e vendeu o coronavírus à China. Chama-se Charles Lieber, chefe do departamento de Química e Biologia da Universidade de Harvard, EUA. Acabou de ser preso hoje segundo fontes do departamento americano. Deus é grande e é pai. Essa notícia deu na BBC", destaca-se na mensagem que acompanha um vídeo da suposta notícia. A publicação data de 4 de abril de 2020.

Verdade ou falsidade?

De facto, no dia 28 de janeiro de 2020 (e não no referido dia 8 de abril), Charles Lieber, professor na Universidade de Harvard, EUA, foi detido sob acusação de testemunho falso às autoridades federais sobre o recebimento de financiamento da China.

A notícia quase passou despercebida na altura, restrita aos meios académicos dos EUA, mas com o alastramento da pandemia do novo coronavírus nos EUA acabou por ser ressuscitada nas redes sociais, servindo de material combustível para novas teorias de conspiração e demais especulações. Sobretudo por causa de um pormenor da história: o alegado financiamento recebido por Lieber tinha origem na Universidade de Wuhan, China, precisamente o epicentro inicial da epidemia de SARS-CoV-2 no final de 2019.

Ora, não há qualquer relação entre a detenção de Lieber e o novo coronavírus. Tal como o Polígrafo já sublinhou em vários artigos (pode ler aqui ou aqui, entre outros exemplos), está cientificamente provado que o novo coronavírus não foi criado artificialmente em laboratório, ao contrário do que alegam múltiplas teorias de conspiração que circulam nas redes sociais.

No dia 17 de março, aliás, foi publicado um estudo científico que demonstra a origem natural do SARS-CoV-2. Pelo que Lieber não "fabricou e vendeu o coronavírus à China", trata-se de uma efabulação completamente falsa.

A prisão de Lieber está relacionada com a obrigatoriedade de revelar qualquer financiamento de governos ou entidades de outros países no âmbito da sua atividade como principal investigador do Lieber Research Group, integrado no Departamento de Química e Biologia Química que dirige na Universidade de Harvard. Essa obrigatoriedade é inerente ao recebimento de apoios públicos dos Institutos Nacionais de Saúde e do Departmento de Defesa dos EUA.

De acordo com a "Snopes", plataforma norte-americana de fact-checking, o Departamento de Justiça acusa Lieber de colaborar com a Universidade de Wuhan desde 2011 e manter uma relação contratual no âmbito de um programa governamental de recrutamento de talento científico na China. O professor de Harvard terá mentido às autoridades federais sobre estas ligações e fontes de financiamento não declaradas.

É isso que está em causa, não o suposto fabrico e venda do coronavírus à China.

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Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

Na escala de avaliação do Facebookeste conteúdo é:

Falso: as principais alegações dos conteúdos são factualmente imprecisas; geralmente, esta opção corresponde às classificações "Falso" ou "Maioritariamente falso" nos sites de verificadores de factos.

Na escala de avaliação do Polígrafoeste conteúdo é:

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