"O que dizia Medina sobre José Sócrates no dia 3 de junho de 2011. Se não fosse trágico seria cómico", lê-se na descrição que acompanha o vídeo de cerca de um minuto, gravado durante um comício eleitoral em Viana do Castelo. De destacar, desde logo, um erro na data indicada na publicação em causa. As declarações foram proferidas no dia 2 de junho de 2011 e publicadas no dia seguinte no site e canal de YouTube do PS. No dia 3 de junho de 2011 terminava a campanha eleitoral do Partido Socialista (PS), com um comício em Lisboa.

Medina_2011

Durante o discurso, agora recuperado nas redes sociais, o atual presidente da Câmara Municipal de Lisboa, na altura porta-voz do PS e cabeça de lista do PS por Viana do Castelo, dirige-se assim aos presentes: "Deixem-me voltar atrás e dizer porque é que nós vamos ganhar estas eleições e porque é que nós precisamos de ter José Sócrates como primeiro-ministro de Portugal. E permitam-me que interprete o sentimento de todos os que estão aqui, os milhares que estão hoje aqui presentes e que dirigem diretamente, em nome de todos, o porque nós precisamos que ele seja o próximo primeiro-ministro de Portugal."

No discurso dedicado ao então líder socialista José Sócrates, Fernando Medina continuou: "Porque nós precisamos da tua liderança, conhecimento, experiência, determinação e energia neste momento tão difícil", tendo sido aplaudido logo de seguida.

O próximo a intervir seria o secretário-geral do partido, José Sócrates, mas não sem antes ouvir Medina dizer o seguinte: "Nós precisamos também da tua ambição de progresso, de crescimento e de modernidade. Porque nós precisamos da tua visão clara, sem falhas, na defesa do interesse nacional. E por fim, o mais importante de tudo, porque nós precisamos do teu amor e dedicação sem reservas a Portugal e aos portugueses."

Dez anos depois, a 13 de abril deste ano, Medina acusava o antigo primeiro-ministro José Sócrates de corroer o "funcionamento da democracia", na sequência da "Operação Marquês". "É a primeira vez na nossa história que teremos em julgamento um ex-primeiro-ministro e, independentemente da natureza mais ou menos extensa do crime, sabemos que é um crime em exercício de funções com uma moldura penal significativa de cerca de 12 anos”, notou Fernando Medina.

"Quem está na vida pública e a respeita, quem sente o apelo e missão do serviço e da causa pública tem de honrar, acima de tudo, essa relação de confiança com quem o elege. Não precisa de ser santo. Não estamos no pedestal dos santos, mas estamos no pedestal dos que conseguem honrar essa confiança e essa confiança foi quebrar. Essa confiança foi inapelavelmente quebrada e não precisa de haver nem mais crime adensado nem retirado", acrescentou o autarca, num discurso muito diferente do proferido em 2011.

"Quem está na vida pública e a respeita, quem sente o apelo e missão do serviço e da causa pública tem de honrar, acima de tudo, essa relação de confiança com quem o elege".

Em entrevista à TVI, um dia depois, José Sócrates comentou as declarações do presidente da Câmara de Lisboa, classificando-as como uma "profunda canalhice". "Não quero falar mais sobre isso, mas quero responder. E a minha resposta é que o Partido Socialista devia ter vergonha de desconsiderar aquilo que são os direitos, liberdades e garantias fundamentais que fizeram a cultura política do PS em 1975 pela liberdade", disse.

Mas porquê recuperar agora este discurso? António Costa e Fernando Medina integraram a comissão de honra de Luís Filipe Vieira, mas foi Medina o primeiro a dizer que tal só aconteceu porque o autarca desconhecia "qualquer ilegalidade" e que, se soubesse, "as coisas teriam sido diferentes". Seguiram-se, assim, as acusações de incoerência por parte do presidente da Câmara de Lisboa.

"[As pessoas apoiaram] num pressuposto de reconhecimento pelo trabalho desportivo feito e no desconhecimento de qualquer ilegalidade que comprometesse o desempenho de funções, obviamente se tivesse [conhecimento] as coisas teriam sido diferentes", afirmou Medina em entrevista à RTP3, no passado dia 8 de julho, justificando todo o apoio prestado a Vieira.

Em suma, é autêntico o vídeo em que Medina elogia José Sócrates, à data líder socialista. O registo foi feito durante um comício em Viana do Castelo, em setembro de 2011, mas importa ressalvar que nessa altura José Sócrates ainda não tinha sido acusado de qualquer tipo de crime. Só em 2017 é que se viria a formalizar a acusação do Ministério Público, agora utilizada por Medina para se demarcar do ex-primeiro-ministro.

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