Corre nas redes sociais um artigo com citações atribuídas ao prémio Nobel da Fisiologia e Medicina de 1993, Richard J. Roberts , onde este afirma que os “medicamentos que curam não são rentáveis e, portanto, não são produzidos”. O artigo ganhou uma nova força nos últimos dias, depois de serem conhecidos os galardoados deste ano.

O texto foi publicado na página brasileira Portal Saúde Integrativa, um portal que promove procedimentos de medicina preventiva e integrativa assim como dicas caseiras associadas ao consumo de vitaminas e suplementos.

Na composição do artigo são usadas citações de duas entrevistas com datas distintas: uma publicada pelo jornal La Vanguardia em 27 de julho de 2007 e outra pelo jornal El País em 5 de julho de 2017. Às citações falta algum contexto e, em alguns casos, existem mesmo ligeiras adulterações passíveis de lhes alterar o sentido.

Analisemos, citação a citação:

Entrevista do La Vanguardia (2007):

“O que é bom para os dividendos das empresas nem sempre é bom para as pessoas.” Esta citação surge na sequência de uma crítica ao modelo de investigação existente nos Estados Unidos, onde alegadamente o capital privado e os lucros restringiriam as investigações científicas. Na entrevista, Roberts terá afirmado que “a investigação sobre a saúde humana não pode depender apenas da sua rentabilidade. O que é bom para os dividendos das empresas nem sempre é bom para as pessoas (...) estamos a falar sobre nossa saúde, as nossas vidas e as dos nossos filhos e de milhões de seres humanos (...) se eles [os medicamentos] são rentáveis, [os cientistas] investigarão melhor”.

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Problema: analisando a entrevista original percebe-se que as coisas não são exatamente assim. “Mas se eles são rentáveis investigarão melhor” é, na verdade, uma interjeição feita pelo jornalista que conduzia a entrevista – e não uma afirmação de Roberts. Além disso, mais uma vez, o Nobel da Medicina defende que a indústria farmacêutica “não é qualquer outra indústria” e precisa de um sistema de financiamento diferente.

Em resumo: nas entrevistas citadas o Nobel da Medicina nunca diz a frase que é utilizada como título do artigo do Portal Saúde Integrativa: “Medicamentos que curam não são rentáveis e, portanto, não são desenvolvidos”. Esta surge na introdução da entrevista do La Vanguardia mas escrita pelo jornalista, não como uma citação.

Entrevista ao El País (2011):

- “Critico que a indústria diga que quer curar doenças quando não o faz, porque não é um bom negócio. Durante anos houve tentativas de interromper pesquisas que desmentem certas coisas. O melhor exemplo é a Helicobacter pylori. Barry Marshall e Robin Warren descobriram que essa bactéria causava as úlceras, não só o ácido. A indústria tentou eliminar a pesquisa. Se houvesse medicamentos que acabassem com as células cancerígenas por imunoterapia, seriam muito difíceis de comercializar: se o cancro se detivesse totalmente tomando-os duas ou três vezes, onde estaria o dinheiro? Interessa mais à indústria tentar conter o avanço do cancro do que eliminá-lo.” – Esta resposta de Roberts surge numa entrevista sobre a utilização de organismos geneticamente modificados (OGM) – vulgarmente conhecidos como transgénicos – e o investimento financeiro de Donald Trump na ciência. O Nobel da Medicina critica a intromissão da política na ciência dizendo que os políticos “deveriam apoiar-se na ciência para melhorar as suas políticas” e que os cientistas “não precisam de políticos que, sem conhecer nada de ciência, venham dizer-nos o que devemos ou não fazer”.

nobel

Em resumo: nas entrevistas citadas o Nobel da Medicina nunca diz a frase que é utilizada como título do artigo do Portal Saúde Integrativa: “Medicamentos que curam não são rentáveis e, portanto, não são desenvolvidos”. Esta surge na introdução da entrevista do La Vanguardia mas escrita pelo jornalista, não como uma citação. De qualquer modo, a verdade é que em ambos os casos, Roberts critica o sistema capitalista da investigação científica na área da farmacêutica, referindo-se principalmente ao que se passa nos Estados Unidos, e defende que a indústria deveria ser financiada de outra forma, sem estar presa aos lucros, uma vez que este modelo na prática resulta em prejuízos para a investigação de produtos curativos. Ao longo dos anos a indústria farmacêutica tem mostrado avanços na cura ou prevenção de doenças, seja através de vacinação ou de medicamentos.

Richard J. Roberts foi galardoado com o prémio Nobel da Fisiologia e Medicina em 1993, em conjunto com o seu colega Phillip A. Sharp, pelo trabalho desenvolvido na divisão dos genes nas cadeias de ADN. Esta descoberta foi uma das principais responsáveis pelo avanço dos estudos na área da manipulação genética.

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Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

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