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“Nigéria vai fazer cortes substanciais de gás natural” e “só temos reservas para 19 dias”? (Correção)

Economia
Este artigo tem mais de um ano
O que está em causa?
No início desta semana, a Nigéria avisou a Galp Energia da iminência de uma "redução substancial" na produção e fornecimento de gás natural liquefeito, devido às inundações que estão a assolar o mais populoso país de África. Em reação a essa notícia, nas redes sociais alega-se que Portugal só tem reservas de gás natural "para 19 dias". Confirma-se?

“Governo a ‘navegar à vista’. Nigéria vai fazer cortes substanciais de gás [natural] a Portugal, mas só temos reservas para 19 dias“, destaca-se num post de 18 de outubro no Facebook, remetido ao Polígrafo com pedido de verificação de factos.

Surge em reação à notícia de 17 de outubro, dando conta de que “a Galp Energia informou ter recebido um ‘aviso de força maior’ do seu principal fornecedor de gás natural – a Nigeria LNG -, alertando para uma ‘redução substancialna produção e fornecimento de gás natural liquefeito (GNL). Em causa estão as cheias que estão a afetar a Nigéria e, consequentemente, a provocar a redução da produção e exportação do gás natural liquefeito”.

A notícia sobre o aviso da Nigéria é verdadeira, mas confirma-se que “só temos reservas para 19 dias”?

Em declarações à rádio TSF, a 18 de outubro, António Eloy, coordenador do Observatório Ibérico da Energia, desdramatizou o assunto, ao garantir que não há razões para alarme em Portugal e mesmo “sem entrar na lógica de cortes e reduções drásticas” em caso de falha, o país tem reservaspara três meses“.

Logo no dia 17 de outubro, o Ministério do Ambiente e da Ação Climática, liderado por Duarte Cordeiro, assegurou que não há qualquer “redução nas entregas” de gás natural da Nigéria. “Não existe neste momento qualquer confirmação de redução nas entregas de gás da Nigéria. Mesmo que tal acontecesse, não há escassez no mercado“, sublinhou em comunicado emitido na segunda-feira, garantindo que qualquer informação nesse sentido é “alarmista e desadequada“.

"De onde vem a minha eletricidade?" A resposta estará num gráfico difundido no Facebook, com dados referentes ao primeiro trimestre de 2022, no qual se destaca que 58,86% da eletricidade consumida tem origem no gás natural, seguindo-se a energia hídrica (11,59%) e a cogeração renovável (8,02%), entre várias outras com percentagens inferiores.

Porém, ontem, dia 22, Rodrigo Costa, presidente da REN, afirmou em entrevista à SIC Notícias que as reservas atuais são inferiores a um mês. Na sequência dessa declaração, o Polígrafo contactou António Eloy, que reconheceu que os dados que partilhou na TSF estariam “desatualizados”. Também contactado pelo Polígrafo, o Ministério do Ambiente e da Ação Climática afirma que neste momento as reservas energéticas de Portugal estão “ao máximo”. Questionado sobre a autonomia temporal que as reservas garantem, o ministério tutelado por Duarte Cordeiro remeteu o Polígrafo para a REN – ou seja, admite que as reservas chegam para um período inferior a um mês.

Mais: a Galp Energia acaba de admitir que, devido às cheias, deverá ficar sem uma entrega de gás natural liquefeito (GNL) que a Nigeria LNG deveria deixar em Sines no final de outubro.

Em resumo, confirma-se que as cheias na Nigéria – as maiores da última década, que estão neste momento a afetar cerca de 1,5 milhões de pessoas – vão repercutir-se negativamente no abastecimento de gás a Portugal. Do mesmo modo, embora não tenha revelado um número concreto, Rodrigo Costa confirma que a autonomia do país é inferior a um mês. Pelo que qualificamos esta afirmação como sendo globalmente verdadeira.

Nota editorial: este artigo foi atualizado às 15h36 do dia 24 de outubro, depois das declarações de Rodrigo Costa, que contrariavam as do coordenador do Observatório Ibérico da Energia, António Eloy, e que tinham sido utilizadas como referência para o fact-check inicial. António Eloy reconheceu ao Polígrafo ter veiculado dados desactualizados à TSF – e essa circunstância, acrescida do facto de a Galp ter entretanto confirmado que a Nigéria vai falhar uma entrega de gás ainda em outubro, resulta na alteração da avaliação, que passa assim de “Falso” para “Verdadeiro”.

Avaliação do Polígrafo:

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