Quando se pensa em flúor, pensa-se em prevenção de cáries e saúde oral. Sabemos que existe nos dentífricos e produtos de higiene oral, mas a população tem conhecimento de que este mineral também existe na água?

A água potável em Portugal – seja distribuída pela rede pública, seja através da compra de água engarrafada – inclui na sua composição vários minerais naturais como cálcio, sílica, magnésio e o já referido flúor. Porém, textos publicados online garantem que o flúor foi adicionado à rede de água tanto no período de domínio nazi, na Alemanha, para controlar e enfraquecer os prisioneiros dos campos de concentração, como durante a era comunista da URSS, com o objetivo de dominar os inimigos.

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Apesar do período da II Guerra Mundial ter sido também marcado pelas experiências médicas desumanas levadas a cabo nos prisioneiros dos campos de concentração, não existe qualquer registo de que a fluoração da água faça parte das experiências. A plataforma de fact checking “Politifact” entrevistou a historiadora Patricia Heberer, especialista nas experiências médicas alemãs – incluindo durante o holocausto –, que recusou a utilização de flúor nas experiências feitas durante essa época. A historiadora, que trabalha com o Museu Memorial do Holocausto nos Estados Unidos, reforça que quando os campos de concentração foram libertados mal existia água disponível, quanto mais água tratada.

No que toca ao uso do flúor pelo governo da URSS, a teoria terá sido criada pela Associação John Birch – um grupo de advogados assumidamente anticomunista –, na década de 60 do século XX, que afirmou que esta prática tinha como objetivo tornar a população americana mais fraca.

Para além destes dois mitos, a fluoração da água chega mesmo a aparecer na lista de teorias da conspiração reunidas pela Wikipedia: “Alegações podem incluir reivindicações de que se trata de uma forma de descartar desperdícios industriais ou que existe para obscurecer a falha em providenciar apoio dentário aos pobres”, pode ler-se na descrição.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), “o consumo de flúor tem efeitos benéficos – ao reduzir os incidentes de cáries dentárias – e tem efeitos negativos – causando esmalte e fluorose esquelética quando na sequência de uma exposição alta e prolongada”. No entanto, em momento algum é referido que este mineral tem efeitos calmantes ou de controlo, como referido em ambos os mitos.

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A aplicação artificial de flúor na água é uma prática que já existe em vários países. Em Portugal não é aplicada a fluoração artificial da água, mas existe flúor tanto na água da rede como na engarrafada. Segundo a EPAL – a companhia responsável pela gestão da rede hidráulica do concelho de Lisboa – o tratamento da água consiste em seis fases: “pré-oxidação com cloro gasoso, coagulação/floculação, decantação, filtração, correção de pH e desinfeção final”. Em nenhum dos processos é acrescentado flúor.

No que toca às águas minerais naturais e de nascente que são vendidas nos supermercados, a Associação Portuguesa dos Industriais de Águas Minerais Naturais e de Nascente afirma que “é totalmente interdito todo e qualquer tipo de tratamento químico ou manipulação em laboratório”.

Um estudo desenvolvido por Inês Freire Manchete, em abril de 2015, apresenta a análise da composição de diferentes tipos de águas em Portugal – tanto da rede pública e como da engarrafada: no que toca às águas da rede pública, a maioria encontra-se abaixo dos 0,10mg/l de concentração de flúor sendo a água disponibilizada no concelho Estremoz foi a única amostra analisada com mais 1,0 mg/l. Quanto às águas engarrafadas, a concentração de flúor varia entre os 0,01mg/l e os 10mg/l, à exceção da água Campilho, Vidago, Pedras Salgadas e Frize que ultrapassa a barreira dos 10mg/l.

A qualidade da água potável em Portugal está a cima dos 99% na maioria dos concelhos, segundo dados disponibilizados pela Entidade Reguladora de Serviços de Água e Resíduos, referentes a 2017. Existem apenas dois municípios em que a percentagem de água segura não chega aos 95%: Sever do Vouga (Aveiro) com 93,76% e Trancoso (Guarda) com 94,16%.

Para evitar a sobredosagens do mineral, a OMS decretou um valor guia para concentração de flúor na água de consumo humano: 1,5 mg/l. Quando se trata de associação artificial de flúor à água, os níveis de concentração deverão manter-se entre os 0,5 mg/l e 1,0 mg/l.

A qualidade da água potável em Portugal está a cima dos 99% na maioria dos concelhos, segundo dados disponibilizados pela Entidade Reguladora de Serviços de Água e Resíduos, referentes a 2017. Existem apenas dois municípios em que a percentagem de água segura não chega aos 95%: Sever do Vouga (Aveiro) com 93,76% e Trancoso (Guarda) com 94,16%.

Desde o início da década 90 do século XX, a percentagem de água segura em Portugal cresceu exponencialmente: em 1993 apenas 50% da água era considerada segura, tendo ultrapassado os 90% entre 2004 e 2005. Atualmente ronda os 100%.

Avaliação do Polígrafo:

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