O primeiro jornal português
de Fact-Checking

Natália Correia fez mesmo uma intervenção no Parlamento contra o deputado João Morgado do CDS-PP baseada neste poema?

Política
O que está em causa?
Na rede social X, a propósito da recente polémica com Aguiar-Branco, lembra-se que, quando Natália Correia recitou um poema, que pode ser considerado "um ataque à honra e ao bom nome", para atacar João Morgado, também não foi censurada pelo então presidente da Assembleia da República. Mas o poema nunca chegou ao Parlamento.

Numa referência à polémica recente sobre a atuação de José Pedro Aguiar-Branco depois de André Ventura ter classificado os turcos como pouco trabalhadores, partilhou-se este sábado, na rede social X, uma alegada intervenção de Natália Correia, ex-deputada do PSD, contra João Morgado, do CDS-PP, durante a primeira discussão sobre a IVG no Parlamento.

“Portanto, em 1982, Natália Correia devia ter sido censurada pelo PAR por causa desta intervenção em forma de poema contra o deputado João Morgado do CDS, num debate sobre o aborto, por poder ser considerada um ataque à honra e ao bom nome com relevância criminal (uma injúria?)”, lê-se no “tweet”.

A história tem anos e é contada nos jornais mais conhecidos do país, mas a verdade é que não passa de um mito para o qual também Mendes da Silva foi alertado na caixa de comentários ao seu “tweet”. É que sendo verdade que a primeira discussão sobre o aborto, a 3 de março de 1982, a propósito de um projeto do PCP, contou com uma intervenção polémica por parte de João Morgado, Natália Correia não lhe respondeu com um poema. Até porque não estava presente.

O Polígrafo consultou as atas dos plenários desse ano, nomeadamente a do primeiro debate sobre a despenalização do aborto, onde João Morgado, do CDS-PP, diz o seguinte: “O aborto tem a ver com a vida de um ser. Simplesmente, essa vida resultou de um acto, da cópula da mulher e do homem. E eu queria perguntar à Sr.ª Deputada [Zita Seabra] se não transforma a mulher num objecto quando a desliga da função de maternidade no acto da cópula. Isto é se a mulher é ou não um objecto quando se desliga a sua função materna da prática do acto sexual.”

As declarações, polémicas o suficiente, levaram a que Zita Seabra respondesse desta forma: “Por último, direi ao Sr. Deputado João Morgado que ouvi a sua intervenção com atenção e que ela revela uma desumanidade, uma brutalidade e um ódio tão grande, que ao ouvi-lo senti um arrepio. Mas penso que á sua intervenção foi justa porque o Sr. Deputado trouxe aqui, pelo nome, com as palavras todas, aquilo que nós tínhamos caracterizado de ultramontanismo, aquilo que tínhamos caracterizado como reaccionário, como posições inaceitáveis num Estado democrático. As suas palavras foram isso mesmo, Sr. Deputado. As suas palavras foram tão brutais, tão violentas, tão de dedo apontado às mulheres… Mais respeito, Sr. Deputado! Não estamos num período de há 100 ou 200 anos! Estamos nos anos 80! Não estamos nas colónias penais do Ultramar, Sr. Deputado! Estamos na Assembleia da República Portuguesa, perante deputados eleitos pelo povo.”

Neste momento, Morgado pediu a palavra para um protesto: “É só para lembrar à Sr.ª Deputada, que aqui me chamou um rosário de nomes, que a posição que aqui defendi relativamente ao aborto e à posição em que se colocam as mulheres que praticam como objecto de prazer é exactamente a posição da Igreja Católica. A Igreja Católica proíbe o aborto exactamente porque entende que quando se pratica o acto sexual é para se ver o nascimento de um filho.”

A ata desse dia diz que, após esta intervenção, se ouviram risos nas bancadas do PS, do PCP e da UEDS, mas a sessão terminou minutos depois. Eram 21 horas e 50 minutos. Na folha de presenças, está ausente o nome de Natália Correia, que faltou à sessão.

O mito de que a deputada do PSD teria escrito o poema “Truca-truca” no plenário, que o teria declamado e que a sessão teria sido interrompida não encontra explicação em nenhuma ata seguinte. Correia manifestou-se, naturalmente, favorável à IVG, mas só já na sessão de 10 de março. O poema, que ainda hoje circula online, não chegou ao púlpito, mas foi de facto dedicado a Morgado.

“Já que o coito – diz Morgado –
Tem como fim cristalino,
Preciso e imaculado
Fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai de um só rebento, lógica é a conclusão
De que viril instrumento
só usou – parca ração! –
uma vez. E se a função
faz o órgão – diz o ditado –
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado”.

A própria Assembleia da República já assinalou esta obra na biografia online da poetisa, mas esclarece que foi “inspirada pelas declarações do deputado” que Natália Correia, “que lutava pela despenalização do aborto, escreveu o poema”, publicado originalmente no Diário de Lisboa de 5 de abril de 1982. Segundo a informação do portal, “a resposta de Natália [a João Morgado] não tardou, manuscrita em papel timbrado da Assembleia da República, na forma de um poema dedicado a Morgado, que a própria fez distribuir, e que terá feito rir todas as bancadas parlamentares”.

_______________________________

Avalição do Polígrafo:

Partilhe este artigo
Facebook
Twitter
WhatsApp
LinkedIn

Relacionados

Em destaque