Já olhou para o céu e viu umas linhas brancas semelhantes a nuvens? Há quem acredite que esses riscos são “químicos tóxicos” lançados sobre a população para provocar doenças e mudar o clima. Nas redes sociais, em particular no Facebook, surgem frequentemente alegadas provas fotográficas deste suposto crime contra a humanidade e contra o planeta.

Num longo texto que serve de legenda a uma destas fotografias lê-se que “o clima está a ser manipulado (e destruído) há muito”, já que este suposto “bombardeamento” com substâncias tóxicas terá como resultado “um significativo aumento da temperatura”. Segundo a autora do post publicado a 8 de maio deste ano, as linhas brancas visíveis em determinadas alturas no céu não são “gases de escape das turbinas dos aviões”, mas sim “pulverizações de dióxido de enxofre e de nanopartículas de alumínio, bário e estrôncio, causadores de graves doenças do foro respiratório e sendo agentes cancerígenos”.

Esta e outras publicações que partilham a mesma visão recorrem a declarações feitas pelo especialista em alterações climáticas Filipe Duarte Santos sobre um projeto de investigação de geoengenharia solar da Universidade de Harvard, o Scopex, para provar a existência destes rastos químicos (chemtrails, em inglês).

Segundo os autores desta teoria, que se referem a Filipe Duarte Santos como “entusiasta e responsável direto pela pulverização dos rastos químicos em Portugal”, o especialista teria revelado, numa entrevista à RTP, “que os chemtrails não são uma teoria de conspiração, mas sim, ‘químicos lançados na estratosfera, compostos por dióxido de enxofre e nanopartículas de alumínio, de bário e de estrôncio, que ajudam a refletir os raios solares para cima, antes que estes atinjam o solo’”.

São “nuvens em forma de linha por vezes produzidas pelo escape do motor da aeronave, normalmente quando está em altitude de cruzeiro, vários quilómetros acima da superfície da Terra”, compostas "principalmente por água (na forma de cristais de gelo) e não apresentam riscos à saúde dos seres humanos”.

No entanto, o Polígrafo verificou que todas estas alegações são falsas. Em primeiro lugar, não há qualquer evidência científica de que as linhas brancas que, por vezes, são visíveis no céu (denominadas nesta teoria da conspiração como chemtrails) consistam em rastos de produtos químicos lançados deliberadamente sobre a população. Embora conquiste adeptos fervorosos nas redes sociais, esta teoria já foi desmentida várias vezes nos últimos 20 anos.

Em setembro do ano 2000, especialistas de várias organizações norte-americanas como a Agência de Proteção Ambiental (EPA) elaboraram uma ficha informativa a explicar que estes riscos brancos são, na verdade, compostos sobretudo por água. Isto é, são “nuvens em forma de linha por vezes produzidas pelo escape do motor da aeronave, normalmente quando está em altitude de cruzeiro, vários quilómetros acima da superfície da Terra”, compostas "principalmente por água (na forma de cristais de gelo) e não apresentam riscos à saúde dos seres humanos”.

Quanto às supostas declarações de Filipe Duarte Santos, o Polígrafo verificou que as mesmas foram adulteradas para fazer passar uma mensagem diferente da proferida pelo especialista. Ao contrário do que se diz nas redes sociais, o professor catedrático jubilado da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa nunca revelou que “os rastos químicos não são uma teoria da conspiração”, mas sim “químicos lançados na estratosfera, compostos por dióxido de enxofre e nanopartículas de alumínio, de bário e de estrôncio, que ajudam a refletir os raios solares para cima, antes que estes atinjam o solo”.

O que Filipe Duarte Santos afirmou foi que “há pessoas atualmente que investigam uma maneira de arrefecer o planeta continuando a consumir combustíveis fósseis”. No mesmo plano, explicou que uma equipa de Harvard está a desenvolver um projeto de investigação, o SCoPEx, para estudar a hipótese de “lançar para a estratosfera grandes quantidades de dióxido de enxofre”, de modo a criar “uma neblina na estratosfera” e “refletir a radiação”.

O especialista nunca referiu a teoria da existência de rastos químicos, nem mencionou a hipótese de serem lançadas sobre a estratosfera “nanopartículas de alumínio, de bário e de estrôncio”. Além disso, em nenhum momento Filipe Duarte Santos afirmou que estas experiências estivessem já a ser realizadas, nem insinuou qualquer relação entre esta investigação e as linhas visíveis no céu. Para mais, ao consultar o site do SCoPEx e vários jornais internacionais de referência (como o "The New York Times"), o Polígrafo confirmou que não foi sequer ainda autorizado que a equipa do projeto faça um voo de teste.

“Não há qualquer espécie de evidência científica de que se estejam a lançar esse tipo de substâncias no espaço”, sublinhando que os rastos que aparecem no céu resultam da “condensação do vapor da água que forma pequenas nuvens temporárias”.

Contactado pelo Polígrafo, o especialista confirma que se referia “à possibilidade de se fazer esse tipo de intervenção”, dado existirem “muitos artigos científicos publicados” sobre essa hipótese e equipas de investigação dedicadas a estudá-la. Quanto à teoria da pulverização de químicos tóxicos sobre a população Filipe Duarte Santos acrescenta ainda que “não há qualquer espécie de evidência científica de que se estejam a lançar esse tipo de substâncias no espaço”, sublinhando que os rastos que aparecem no céu resultam da “condensação do vapor da água que forma pequenas nuvens temporárias”.

Além disso, o investigador adianta que essas linhas brancas não são a causa das alterações climáticas: “A causa das alterações climáticas é a intensificação do chamado efeito de estufa devido à emissão de gases com efeito de estufa por algumas atividades humanas.”.

“O planeta está a aquecer por uma combinação de fatores naturais e artificiais e a principal força que está a provocar as alterações climáticas é a atividade humana”.

Esta afirmação é confirmada pelo consenso científico prevalecente em matéria de alterações climáticas e também pelo professor na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, João Joanaz de Melo. Em declarações ao Polígrafo, o engenheiro do Ambiente explica que “o planeta está a aquecer por uma combinação de fatores naturais e artificiais e a principal força que está a provocar as alterações climáticas é a atividade humana”.

Em suma, é falso que as linhas brancas visíveis no céu sejam rastos de substâncias químicas lançadas deliberadamente na estratosfera. Esses riscos são apenas vapor de água condensado e não são os responsáveis pelas alterações climáticas.

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EMIFUND

Este artigo foi desenvolvido no âmbito do European Media and Information Fund, uma iniciativa da Fundação Calouste Gulbenkian e do European University Institute.

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