No final dos anos 70, uma canção escrita em 1958 regressou do passado para se afirmar como um hino do movimento punk-rock. Sonny Curtis, hoje com 81 anos, não tinha quaisquer instintos revolucionários ou anarquistas quando escreveu “I Fought the Law”. Na verdade, foi o vento forte que “trancou” Curtis na sala de estar da sua casa, no Texas. Durante essa tarde, escreveu a canção. E ainda lhe sobrou tempo para muito mais. Afinal, revelou ao jornal “Tennessean”, em 2015, “necessitei de cerca de 20 minutos. Percebe-se pela letra que não é preciso um cientista espacial para a escrever.”

Quanto aos ideais que estão por detrás da canção, as causas e os motivos que o levaram a escrevê-la - a canção parece contar a história de alguém cujos sonhos mais elementares são oprimidos pelo poder instituído: “lutei contra a lei e a lei ganhou” -… Não existem. Ou, pelo menos, Sonny Curtis não tem memória deles. “Não consigo lembrar-me. Escrevi-a como uma canção country. Costumava escrever canções só pelo prazer de escrever. Não consigo imaginar o que me passava pela cabeça naquele momento», disse ao “Tennessean”.

Em 1959, Curtis passou a integrar os The Crickets e durante a viagem de carro com a sua nova banda, a caminho do estúdio, em Nova Iorque, trauteou a canção. Foi imediatamente aprovada pelos companheiros de viagem. “I Fought The Law” fez parte do alinhamento do primeiro disco gravado pelos The Crickets após a morte de Buddy Holly, num acidente de avião, em 1959.

Bobby Fuller e a sua banda, Bobby Fuller Four, conseguiram trazer a canção para o patamar mais elevado até então. A versão chegou ao 9º posto da tabela Billboard, nos EUA, na semana de 12 de março de 1966. Foi o primeiro hit digno desse nome de Bobby Fuller e a primeira vez - e única - que conseguiu colocar uma canção no top 10 norte-americano.

Foram precisos mais 13 Anos para a canção voltar a afirmar-se nos tops de vendas e de popularidade, desta vez com os britânicos The Clash. Talvez tenha sido esta a primeira vez que a canção, escrita apenas pelo prazer de escrever, encontrou o contexto e a atitude ideais para a sua mensagem. “I Fought The Law” encaixa, definitivamente, muito melhor no espirito punk-rock dos The Clash do que em qualquer uma das suas incarnações/versões anteriores. A versão dos londrinos foi editada pela primeira vez em 1979, no EP “The Cost of Living” e passaria a integrar o alinhamento das novas edições norte-americanas do LP “The Clash”, originalmente de 1977.

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O tema foi amplamente «copiado» e reinterpretado e, em 1987, voltaria à ribalta com outra banda punk - ainda existem dúvidas de que este é o género perfeito para a canção? -, os californianos Dead Kennedys. A versão foi gravada em resposta ao assassinato do Mayor de São Francisco, George Moscone, e de Harvey Milk, o primeiro político assumidamente gay a ser eleito para um cargo público, na Califórnia. Os Dead Kennedys alteraram a letra da canção, nomeadamente o refrão, para “I fought the law and I won”, colado à perspetiva do assassino, Dan White, que, em Tribunal, conseguiu escapar à pena de homicídio premeditado, alegando depressão. Os ardis da defesa não escaparam à ironia dos Dead Kennedys, que alteraram a letra do final da canção para “I am the law, so I won”.

Não ficam por aqui as várias vidas da música que Sonny Curtis escreveu na sua sala em 1958. Em 2004 outra banda punk, os Green Day, gravou uma versão que se tornou famosa. Foi o tema de um filme publicitário da Pepsi, em parceria com a Apple, exibido pela primeira vez durante o Superbowl. A marca de refrigerantes oferecia, nas tampas das garrafas, downloads gratuitos na loja iTunes: 100 milhões de downloads, para sermos mais exatos. Mas apenas foram descarregadas cerca de 5 milhões de faixas ao abrigo daquela campanha, lançada no pico da guerra contra o download ilegal de música na internet.

A versão dos Green Day sobreviveu ao fracasso da iniciativa publicitária e passou a integrar, com grande regularidade, o alinhamento das suas atuações ao vivo.

Avaliação do Polígrafo:

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