Na verdade, ao contrário do que alega o autor da publicação, esta imagem que "retrata o estado de ruína do Mosteiro dos Jerónimos" não foi captada há cerca de 100 anos, mas sim há 143 anos, em 1878, após a derrocada do corpo central de uma nova galeria que estava a ser construída.

Segundo reportou na altura "O Occidente - Revista Illustrada de Portugal e do Estrangeiro" (edição de 1 de janeiro de 1879),  "um triste acontecimento commoveu ha poucos dias Lisboa e o resto do paiz. Abateu o corpo central da nova galeria em construcção junto ao magnífico templo dos Jeronymos, e que constituindo a frente da Casa Pia, estava a ponto de concluir-se depois de longos anos de trabalhos e de muitos capitaes despendidos, devendo então, com o monumento que recorda os nossos feitos passados, constituir um todo harmonioso, especimen d'essa architectura maravilhosa que hoje assignala a gloriosa epocha de D. Manuel, d'onde tirou o nome".

"O desmoronamento teve lugar no dia 18 de dezembro [de 1878] pelas 9 horas da manhã, e do altivo torreão que já se elevava aos ares perto talvez de trinta metros, apenas resta hoje de pé, quasi intacto felizmente, o corpo inferior, como a nossa gravura o representa, salvando-se a varanda gothica, de admiravel desenho, e o portico ligeiramente damnificado. Poucos dias antes fôra collocada no nicho superior á primeira varanda, uma magnifica estatua da Caridade, cinzelada pelo distincto esculptor Simões de Almeida, e essa mesma teve a cabeça decepada", lê-se no referido artigo.

"N'este desastre houve sobretudo a lamentar a perda de oito vidas. Oito dos trabalhadores que lidavam na obra, não podendo fugir a tempo, foram colhidos pela derrocada, ficando soterrados n'aquella pesada mole de areia e de cantaria", informa-se.

Mais uma vez, ao contrário do que alega o autor da publicação no Facebook, a reconstrução não foi iniciada por "Salazar quando ascendeu ao poder".

De acordo com os dados cronológicos registados no portal do SIPA - Sistema de Informação para o Património Arquitectónico, logo em 1878-1879 foi "elaborado relatório sobre o acidente" e "o engenheiro Raimundo Valadas (diretor da Casa Pia) e o arquiteto Rafael de Castro são nomeados para projetarem e dirigirem as obras" de restauro ou reconstrução.

Em 1880, "os mesmos apresentam 12 projetos para colmatar a brecha provocada pela queda do corpo central", além de ser "nomeada comissão para averiguar o aproveitamento das ruínas, deliberando sobre a sua demolição", reportando-se ainda as "comemorações do tricentenário de Camões com trasladação das ossadas deste e de Vasco da Gama para a igreja, colocados num túmulo esculpido por António Augusto da Costa Mota".

Entre 1880 e 1888 desenvolve-se a "construção do primeiro piso da ala norte do anexo e das arcadas maineladas no primeiro piso do dormitório". Em 1884, "a arruinada Sala do Capítulo foi cedida à Comissão Executiva do Monumento a Alexandre Herculano, cabendo a sua reconstrução neo-manuelina atribuída Raimundo Valadas". Dois anos depois conclui-se o restauro do segundo piso do claustro, sob projeto de Valadas: remates dos nichos, arcobotantes, gárgulas, saiméis e colunas a dividir os arcos".

Em 1888 ocorre a "trasladação dos restos mortais de Alexandre Herculano para o novo mausoléu na Sala do Capítulo, feito segundo projeto de Eduardo Augusto da Silva". Já em 1904 verifica-se a "conclusão do corpo sul".

António de Oliveira Salazar viria a ascender ao poder em 1932, nomeado para o cargo de presidente do Conselho de Ministros.

Há uma série de intervenções no Mosteiro dos Jerónimo e área envolvente nos anos de 1939 e 1940, a saber: "demolição de construções na área envolvente do mosteiro para instalação dos pavilhões da Exposição do Mundo Português e construção da Praça do Império; intervenção revivalista no corpo sul; a Casa Pia abandona definitivamente o mosteiro e o Museu Escolar passa para a antiga cozinha do colégio".

Mas não é verdade que estivesse em ruínas até ser reconstruído por "Salazar quando ascendeu ao poder". A imagem das ruínas, como demonstrámos, retrata a derrocada do corpo central da nova galeria em 1878.

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Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking (verificação de factos) com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

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