"Enquanto por cá existe um silêncio ensurdecedor, lá fora é diferente", comenta-se no post de 13 de maio no Facebook. A referência a "lá fora" estará relacionada com a origem da imagem partilhada que mistura as línguas inglesa e castelhana.

"As mortes em Portugal aumentam drasticamente após o início da vacinação", destaca-se no topo, como interpretação de um gráfico do portal "Our World in Data" que apresenta os os dados estatísticos de mortes por Covid-19 em Portugal.

Apontando para a data de 29 de dezembro de 2020 como o início do processo de vacinação em Portugal e realçando o pico de mortalidade por Covid-19 que foi registado em janeiro de 2021, conclui-se que há uma relação de causa/efeito. Nesse sentido, aliás, indica-se que "59% da mortalidade por Covid-19 em Portugal é pós-vacinação".

Esta suposta relação de causa/efeito tem algum fundamento?

Os dados do gráfico estão corretos (apesar de algumas imprecisões), importa ressalvar. O problema é a interpretação dos mesmos que acaba por degenerar numa conclusão infundada. Desde logo porque não há registo de mortes relacionadas com as vacinas contra a Covid-19 em Portugal.

De acordo com o "Relatório Vacinas para a Covid-19 - Reações Adversas (RAM) em Portugal", da Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde (Infarmed), datado de 7 de maio de 2021, foram registadas 34 mortes após a inoculação, mas "sem relação causal direta demonstrada com a vacina administrada".

O início do processo de vacinação contra a Covid-19 em Portugal ocorreu no dia 27 de dezembro de 2020, não no dia 29 de dezembro. Até ao dia 27 de dezembro de 2020 foram registadas 6.619 mortes e, desde então, mais 10.379 mortes, perfazendo um total de 16.998 mortes desde o início da pandemia (pode conferir aqui).

As imprecisões detectadas nos números indicados no post resultam, em grande parte, do erro da data de início do processo de vacinação, além de não incluírem os dados mais recentes de abril e maio.

Mais relevante: o processo de vacinação contra a Covid-19 em Portugal arrancou com um ritmo muito lento.

No dia 1 de março de 2021, quando o pico de mortalidade já se tinha extinguido, baixando para níveis similares aos de novembro de de 2020 (menos de 50 mortes por dia), apenas 6,19% da população de Portugal já tinha recebido pelo menos uma dose de vacina (pode conferir aqui).

Ou seja, além de não ter sido registada - até ao momento - qualquer morte em Portugal com "relação causal direta demonstrada com a vacina administrada", o facto é que durante o pico de mortalidade verificado em janeiro de 2021 apenas uma percentagem residual da população já tinha sido vacinada.

Quando o pico de mortalidade começou a acentuar-se, superando pela primeira vez o nível de 100 mortes diárias, a 8 de janeiro de 2021, apenas 0,73% da população de Portugal já tinha recebido pelo menos uma dose de vacina.

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Nos dias 28 e 31 de janeiro de 2021, quando se atingiu o máximo de mortes diárias (303 em ambos os dias), apenas 2,21% e 2,63% da população, respetivamente, já tinha recebido pelo menos uma dose de vacina.

Estamos assim perante um caso paradigmático de desinformação mediante uma interpretação errada e distorcida de dados estatísticos corretos. A suposta relação de causa/efeito entre o processo de vacinação e o pico de mortalidade por Covid-19 em Portugal, durante o mês de janeiro de 2021, não tem qualquer fundamento.

De resto, no dia 3 de maio de 2021, quando foi superado o nível de 25% da população com pelo menos uma dose de vacina em Portugal, registaram-se zero mortes por Covid-19. Aliás, desde o dia 1 de abril que não se registam mais de 10 mortes diárias, mantendo-se um nível residual de mortalidade por Covid-19 que já não se verificava desde os meses de Verão de 2020.

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Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking (verificação de factos) com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

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Falso: as principais alegações dos conteúdos são factualmente imprecisas; geralmente, esta opção corresponde às classificações "Falso" ou "Maioritariamente Falso" nos sites de verificadores de factos.

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