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Montenegro concordava com reivindicações dos polícias mas agora diz que não vale a pena alimentar “cenários irrealistas”?

Política
O que está em causa?
No debate de hoje com o Primeiro-Ministro, o líder do Chega acusou-o de "hipocrisia" por ter concordado com as reivindicações dos polícias durante a campanha eleitoral mas entretanto, já na liderança do Governo, pedir cautela para não se alimentar "cenários irrealistas" sobre essa matéria.
© Agência Lusa / Miguel A. Lopes

“Aproveito, senhor Primeiro-Ministro, para lhe perguntar sobre as polícias… por causa da hipocrisia“, começou por acusar André Ventura, deputado e líder do Chega, esta tarde no Parlamento, no debate quinzenal com o Primeiro-Ministro que marca a estreia de Luís Montenegro nessas funções.

Hipocrisia porquê? Na perspetiva de Ventura, por Luís Montenegro ter dito que concordava com as reivindicações dos polícias quando era candidato a Primeiro-Ministro, mas depois de assumir o cargo dizer que “não vale a pena alimentar cenários irrealistas porque há muitos milhares de prestadores de serviço público na mesma circunstância”.

Confirma-se a mudança de discurso de Montenegro relativamente a este tema?

Num debate realizado a 19 de fevereiro na CNN Portugal, que colocou Luís Montenegro em confronto com Pedro Nuno Santos no âmbito da campanha para eleições legislativas, o líder do PSD disse o seguinte: “Concordamos com a reivindicação que os polícias portugueses e forças de segurança têm relativamente a uma injustiça que foi criada por este Governo e entendemos que é prioritário, ato imediato à tomada de posse do novo Governo, encetar um processo negocial com eles com vista a poder reparar essa injustiça e esse é o meu compromisso.”

A declaração foi feita a propósito da manifestação de polícias e guardas que se juntaram na noite do debate à porta do Capitólio, em Lisboa, onde se realizou o frente-a-frente entre os dois candidatos a Primeiro-Ministro.

Em declarações anteriores, Montenegro já tinha considerado que a desigualdade de que foram alvos os polícias “deve ser reparada“, alertando contudo que tal não deveria pôr em causa a autoridade do Estado e defendendo a necessidade de preservar “o sentimento de segurança”.

“O meu compromisso com as forças de segurança é muito forte: é iniciar, ato imediato à entrada em funções de Governo, iniciar um processo negocial com vista a fazer essa reparação”, garantiu Montenegro no dia 7 de fevereiro.

Três meses depois, durante a cerimónia de tomada de posse do Diretor Nacional da Polícia de Segurança Pública (PSP), superintendente Luís Carrilho, o novo Primeiro-Ministro assegurou querer dar “boa sequência” às negociações com as forças de segurança, ainda que tenha alertado para “cenários irrealistas”.

“Temos uma intenção muito firme de, a breve prazo, podermos dar uma boa sequência às negociações que foram encetadas com sentido de responsabilidade”, garantiu. Logo de seguida, advertiu: “Temos esse problema de forma transversal a toda a administração pública. Qualquer alteração provoca uma mexida muito substancial nas nossas contas e na nossa gestão orçamental. É apenas para que tenhamos consciência do terreno em que pisemos porque não vale a pena alimentar a opinião pública com cenários irrealistas.”

Ou seja, Ventura tem razão quando aponta que Montenegro disse que concordava com as reivindicações quando era candidato e que depois, já como Primeiro-Ministro, avisou que era preciso acautelar “cenários irrealistas” nas negociações. Mas as duas alegações não se contrariam quando se verificam os contextos de ambas. O facto de avisar para “cenários irrealistas” não significa que Montenegro tenha deixado de concordar com as reivindicações dos polícias, ou que queira deixar de encetar as negociações com as forças de segurança.

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Avaliação do Polígrafo:

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