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Ministro da Saúde apanhado em discurso a admitir que “a substituição populacional é benéfica”?

Política
O que está em causa?
Excerto de discurso recentemente proferido por Manuel Pizarro está a ser difundido nas redes sociais como prova de que terá reconhecido que "a substituição populacional é benéfica", isto é, a substituição de portugueses nativos por imigrantes.

“Já nem escondem que está em marcha um plano de substituição demográfica dos portugueses. Traidores da pátria! Acorda Portugal”, destaca-se na legenda do clip de vídeo com origem no Instagram e que entretanto já saltou para outras redes sociais como o Facebook, através de múltiplas partilhas.

Capta um excerto de um discurso proferido pelo ministro da Saúde, Manuel Pizarro, no qual classifica Portugal como um “país de imigração, não perdendo nada daquilo que são os fatores de coesão social da nossa sociedade”.

Na mesma intervenção ouve-se Pizarro dizer: “Eu confio que o Serviço Nacional de Saúde e os profissionais de saúde que o nosso país tem vão ser um enorme contributo para este desígnio nacional, porque não havendo nenhuma dúvida, repito, que esta transformação demográfica é por um lado inevitável e, por outro lado, profundamente desejável, também não podemos e não devemos ignorar que nos comporta novos desafios aos quais temos de responder de forma organizada, antes que estes novos desafios se transformem, eles próprios, em ameaças aos resultados que conseguimos laboriosamente nas últimas décadas.”

A partir desta declaração isolada é legítimo concluir que Pizarro admitiu que “a substituição populacional” – um conceito vulgarmente utilizado pela extrema-direita para sublinhar o perigo que o fenómeno da imigração representa para a diluição da identidade dos países –  “está em marcha” em Portugal?

O vídeo em causa foi captado durante as “Jornadas de Atualização em Doenças Infeciosas” do Hospital Curry Cabral, Lisboa, que decorreu entre 25 e 26 de janeiro deste ano – como se comprova através das semelhanças do cenário apresentado do vídeo com aquele que recebeu a iniciativa. No segundo dia, o ministro da Saúde foi um dos protagonistas de uma sessão solene, como dá conta o programa do evento.

De facto, Pizarro proferiu, nesse momento, as declarações acima mencionadas. Porém, as mesmas estão agora a ser apresentadas fora de contexto, como se confirma na transcrição completa desse mesmo excerto:

Quero também destacar o papel do serviço de doenças infeciosas do Curry Cabral no combate à infeção pelo VIH/Sida. Aliás, os números foram aqui trazidos pelo dr. Fernando Maltez e são números absolutamente impressionantes. É notável que um número tão relativamente escasso de profissionais consiga acompanhar um número tão enorme de doentes, porque é verdade que em relação à infeção à VIH/Sida nós temos, em Portugal, resultados que comparam muitíssimo bem no panorama internacional e estamos finalmente a conseguir reduções significativas no aparecimento de novos casos, em linha com os nossos compromissos de atingir as metas 95-95-95, espero que até talvez antes do ano 2030, antes do compromisso que está estabelecido.

Mas também não podemos ignorar que temos riscos novos e que as profundas mudanças demográficas que estão a ocorrer no nosso país são inevitáveis – e que são até desejáveis – nos colocam novos desafios que obrigam a uma reinvenção do nosso sistema de saúde e do conjunto das nossas comunidades, de forma a que um país que durante séculos foi um país de emigração consiga transformar-se, num período que será historicamente muito mais curto, num país de imigração, não perdendo nada daquilo que são os fatores de coesão social da nosso sociedade.

Eu confio que o Serviço Nacional de Saúde e os profissionais de saúde que o nosso país tem vão ser um enorme contributo para este desígnio nacional: não havendo nenhuma dúvida, repito, que esta transformação demográfica é, por um lado inevitável e por outro lado profundamente desejável, também não devemos e não podemos ignorar que nos comporta novos desafios aos quais temos de responder de forma organizada, antes que estes novos desafios se transformem, eles próprios, em ameaças aos resultados que conseguimos laboriosamente nas últimas décadas.

Resultados, aliás, entre os quais se avultam as doenças infeciosas. Quando o Serviço Nacional de Saúde foi formado, há 45 anos, a prevalência da tuberculose era ainda superior a 100 casos por 100 mil habitantes/ ano. Hoje vamos em 14 casos, o que sendo muitos menos do que os mais de 100 casos de há 45 anos, não deixa de ser o número mais elevado da Europa ocidental e não deixa de nos pôr um desafio em si mesmo e um desafio redobrado no contexto das mudanças demográficas a que eu me referi.

Em resposta Polígrafo, fonte oficial do Ministério da Saúde providenciou informação adicional sobre o contexto em que as declarações foram proferidas: “A intervenção do ministro do Saúde deve naturalmente ser enquadrada no contexto das 14.ªs Jornadas de Atualização em Doenças Infeciosas do Hospital de Curry Cabral e no âmbito da Saúde Pública. As doenças infeciosas exigem toda a atenção das entidades responsáveis pela saúde, do sistema de saúde e do conjunto da comunidade, sobretudo num contexto das mudanças demográficas, que traz novos desafios aos quais temos de responder de forma organizada, no claro respeito pelos valores humanistas e de solidariedade, considerando sempre os fatores de coesão social da nossa sociedade.”

Quanto à referência a “desejáveis”, a mesma fonte sublinha que “o contexto da intervenção do ministro foi na linha de que há um problema de baixa natalidade com que precisamos de lidar e que esse contexto obriga a lidar com a imigração não apenas com os valores humanistas, mas também percebendo que ela é essencial à economia do país“.

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Avaliação do Polígrafo:

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