"Sabem o que essa fotografia representa? Poucos professores dizem aos seus alunos na escola sobre isso, poucas pessoas sabem o seu significado... Em 23 de agosto de 1989, cerca de dois milhões de pessoas da Letónia, Estónia e Lituânia formaram uma cadeia humana que uniu os três países (…) para mostrar ao mundo o desejo de se libertarem da União Soviética e do comunismo que os expulsou como um caos", descreve-se no post de 12 de março, com uma fotografia da iniciativa que tem sido partilhada ao longo dos últimos anos nas redes sociais (voltou a tornar-se viral no contexto da presente guerra na Ucrânia).

"A fome e a pobreza. A corrente humana atingiu cerca de 600 quilómetros. O incrível movimento anti-comunista foi apagado e esquecido facilmente da nossa História recente. Poucas pessoas sabem o seu significado", conclui-se no texto.

A realização desta iniciativa nos Países Bálticos é um facto histórico, amplamente documentado. No dia 23 de agosto de 1989, cerca de dois milhões de cidadãos da Letónia, Estónia e Lituânia participaram na manifestação, formando uma "corrente humana" por entre os três países, ao longo de cerca de 600 quilómetros.

Esse dia não foi escolhido por acaso: a 23 de agosto de 1989 passavam exatamente 50 anos desde a assinatura do Pacto Molotov-Ribbentrop, ou Pacto de Não Agressão Germano-Soviético, entre a Alemanha Nazista liderada por Adolf Hitler e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) liderada por Josef Stalin, que abriu o caminho para a anexação dos três países bálticos pela URSS em 1940.

"No final da década de 1980, os efeitos do Pacto Molotov-Ribbentrop ainda estavam fortemente presentes nos Países Bálticos. A ocupação continuou, mas a URSS negou a existência do Pacto e afirmou continuamente que os Países Bálticos se tinham juntado voluntariamente à URSS", lê-se na página "The Baltic Way", dedicada a este acontecimento histórico. "A maior conquista da manifestação foi conseguir que a URSS cedesse aos protestos dos cidadãos dos Países Bálticos e admitisse todos os crimes do passado. A URSS reconheceu a existência do Pacto Molotov-Ribbentrop e declarou-o inválido. Foi um dos passos mais importantes no sentido da renovação da independência dos Países Bálticos".

"Exigir justiça histórica"

O Polígrafo já tinha analisado uma publicação similar, em 2020, tendo nessa altura falado com o jornalista e historiador José Milhazes, para ajudar a descrever como aconteceu e que repercussões gerou a "corrente humana".

"A invasão [de 1940 pelas tropas soviéticas] foi seguida por repressões muito fortes e deixou uma marca muito grande de anti-comunismo e anti-URSS", sublinha Milhazes, que viveu na Rússia entre entre 1977 e 2015, acrescentando que "as três repúblicas encontravam-se numa posição muito idêntica face a Moscovo". 

Nesse contexto, a "corrente humana" foi uma forma de "exigir justiça histórica", rejeitando a ocupação soviética. "O protesto era também uma maneira de dizer que 'nunca ninguém nos perguntou se queríamos fazer parte da URSS'", considera Milhazes, recordando também que vários países, incluindo Portugal, "nunca reconheceram esta integração".

Na Estónia, por exemplo, esse sentimento anti-soviético foi demonstrado com o regresso dos cantos populares que se tornaram uma "arma" da resistência. "Nas manifestações, as pessoas começaram a cantar músicas proibidas por Moscovo que falavam da beleza do país, da força do povo", relata Milhazes. Aliás, um desses cânticos acabou por se tornar no atual hino nacional do país. 

Segundo Milhazes, "a cadeia solidária do Báltico tem origem na política seguida por Mikhail Gorbachev que abre a URSS a transformações democráticas". À medida que esse processo avança "vão-se revelando problemas antigos que existiam dentro da própria União Soviética. Um deles era a questão das três repúblicas soviéticas do Báltico, cujas populações tinham começado a despertar para a independência".

Ainda assim, inicialmente, os movimentos de protesto exigiam apenas uma relativa autonomia económica em relação a Moscovo. A reivindicação da independência surgiu mais tarde. Ao realizar a corrente humana procurava-se evitar qualquer acto de violência que pudesse originar uma retalização por parte de Moscovo, como já acontecera na Geórgia. "Aquelas pessoas reuniram-se naquele cordão para dizer que queriam a independência de forma pacífica", sublinha, classificando o evento como "um sinal de esperança".

A par da Queda do Muro de Berlim (a 9 de novembro de 1989) ou da guerra de Nagorno-Karabakh (1988-1994), Milhazes destaca a corrente humana dos países bálticos como um dos principais acontecimentos que levaram à dissolução da URSS. O último chefe de Estado soviético "perdeu o direção das reformas porque estas começaram a andar demasiado rápido. Gorbachev abriu a caixa de Pandora e deixou de a controlar", salienta, recordando que "nessa altura, toda a Europa de Leste estava a libertar-se da influência da URSS".

No dia 6 de setembro de 1991, a independência dos três países bálticos foi oficialmente reconhecida, poucos dias depois de uma tentativa de golpe de Estado contra Gorbachev, organizado por comunistas da "linha dura", sem sucesso. A 25 de dezembro desse mesmo ano, Gorbachev declarou o fim da URSS e a bandeira soviética foi retirada do Kremlin. No último dia do ano, a dissolução tornou-se efetiva e a Federação Russa foi formalmente estabelecida a 1 de janeiro de 1992.

As repúblicas do Báltico provocaram um "efeito de bola de neve" fundamental para o fim do regime que durou 69 anos. Poderão servir de exemplo para a Europa da atualidade? “Estamos a entrar numa fase posições que não só são extremadas, como podem vir a tornar-se violentas. Neste sentido, este cordão de solidariedade é um exemplo de como os países europeus podem dar as mãos pela resolução dos problemas através de métodos pacíficos”, defende Milhazes.

A origem da fotografia

Apesar de não ser possível confirmar a autoria da fotografia divulgada na publicação, esta apresenta características em tudo similares às que foram captadas pelo fotojornalista letão Aivars Liepins. Num artigo de agosto de 2019 - "30 Years Ago: How A Photographer Captured The 'Baltic Chain' From Above" - descreve-se o método utilizado pelo fotógrafo para retratar a extensa "corrente humana". Liepins conseguiu obter as imagens aéreas a partir de um helicóptero, sobrevoando a manifestação.

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