Numa troca de mensagens, na rede social Twitter, sobre a invasão e bombardeamento da Ucrânia por parte da Rússia, o ex-parlamentar comunista Miguel Tiago foi interpelado desta forma: “A partir do momento da invasão, nada disto importa. Se não fosse a invasão, havia aquela destruição toda? Mortos pelas ruas? Milhões de refugiados? Estou muito desapontada com a posição do PCP...”

E o ex-deputado do PCP respondeu: “Sim, havia. Nos últimos sete anos, mataram 15 mil habitantes da região de Donbass numa operação de genocídio programado.”

Miguel Tiago referia-se ao conflito armado na região do Donbass, que decorre desde o primeiro semestre de 2014, no qual uma parte significativa da população daquela região pretende a independência da Ucrânia (no que é apoiada pela vizinha Rússia), o que originou à intervenção militar das forças armadas ucranianas que consubstancia uma situação de guerra civil no extremo leste do território do país.

O antigo deputado referia-se – como é perceptível pelo contexto – ao número de vítimas civis, designadamente entre a população da região pró-separatista, não ao total de mortos (civis e militares, de ambos os lados) já provocado pela guerra civil. Questionado pela mesma internauta sobre a fonte daquele número, Miguel Tiago indicou: “Da ONU”.

Em resposta, um outro internauta partilhou o link de um relatório da Unidade de Missão Ucraniana do Alto Comissariado dos Direitos do Homem (um organismo da ONU), de outubro de 2021, com a seguinte estatística: 3.095 mortes de civis relacionadas com o conflito (3.393 se contadas as 298 perdas decorrentes da queda do avião da Malaysian Airlines, atingido por um míssil).

O Polígrafo contactou Miguel Tiago no sentido de esclarecer qual o documento concreto da ONU que suportava a cifra que publicou no Twitter. Resposta do ex-parlamentar: a página em inglês da Wikipédia sobre a guerra no Donbass. E, nessa página em concreto, duas entradas: o site da Rádio Svoboda/Free Europe/Liberty, que refere a existência de 3.393 civis mortos, e uma segunda que é exatamente o mesmo relatório mencionado pelo internauta que colocou os seus números em causa.

As duas fontes contrariam o militante comunista. A primeira (a Rádio Svoboda/Free Europe/Liberty, que emite na Europa Oriental e Ásia Central) é um texto jornalístico elaborado com base nas respostas que a segunda (a Unidade de Missão Ucraniana do Alto Comissariado dos Direitos do Homem) lhe forneceu em fevereiro de 2021. No artigo, é revelado que as baixas resultantes do conflito estarão entre as 13.100 e as 13.300. Mas não se explica a que a que se referem estas baixas.

Porém, se analisarmos o relatório da ONU (a segunda fonte citada por Miguel Tiago ao Polígrafo), encontramos as respostas:

- 3.375 civis mortos (oito meses depois, esse número, conforme já foi citado, era estimado em 3.393)

- 4.150 militares ucranianos

- 5.700 membros de grupos armados pró-russos

Ao Polígrafo, Miguel Tiago admitiu que “podem não ser 15 mil, mas 14”. E reconheceu que poderia ter especificado que esse contingente era referente a todas as vítimas - civis e militares, de ambos os lados da contenda.

A indicação de 15 mil habitantes do Donbass mortos na guerra civil não é, assim, confirmada por qualquer fonte da ONU. E a diferença entre este valor e a realidade - segundo as estatísticas disponíveis, inclusive aquelas apontadas ao Polígrafo pelo próprio antigo deputado do PCP – é manifesta.

Os dados da Unidade de Missão Ucraniana do Alto Comissariado dos Direitos do Homem apontam para 3.095 mortos civis (excluindo os da queda do avião). Ou seja, a tese segundo a qual o Governo ucraniano levou a cabo, desde 2014, “um genocídio programado de 15 mil habitantes da região de Donbass” não encontra qualquer sustentação nos factos.

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Avaliação do Polígrafo:

 

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