"Finalmente algo prático e honesto!" É desta forma que começa um texto que tem 17 dicas para conviver em segurança com a Covid-19. Na frase seguinte, é afirmado que as informações são da autoria da "ministra da Saúde de Portugal, Marta Temido".

Esta mensagem é falsa.

A ministra da Saúde não é autora de nenhuma das referidas dicas nem alguma vez fez declarações no sentido do que está escrito no texto. Ao Polígrafo, o Ministério da Saúde afirma que desconhecia a existência do texto e alerta que este "contém inexatidões técnicas".

A publicação em causa começou a ser partilhada depois de a ministra da Saúde ter afirmado que "não haverá um regresso à normalidade tal e qual a vivíamos", a 26 de abril de 2020. O texto já teve, inclusivamente, duas versões: uma onde é referido o nome Marta Temido como ministra da Saúde de Portugal e outra onde o mesmo nome é identificado como "chefe da clínica da Universidade de Maryland".

Marta Temido não tem qualquer afiliação com a Universidade de Maryland, mas há uma justificação para a utilização deste cargo na publicação: um texto praticamente igual foi anteriormente partilhado como sendo da autoria do virologista Robert Ray Redfield Jr., que é, de facto, chefe da clínica da Universidade de Maryland. Assim, houve uma modificação do nome do suposto autor, não tendo sido alterado o cargo que ocupava, mas também não é Robert Ray Redfield Jr. o autor desta lista.

Segundo a plataforma brasileira Boatos.org, estas 17 dicas resultam de uma adulteração de um texto baseado em informações publicadas por Faheem Younus, chefe do departamento de doenças infecciosas da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos. A publicação começou a ser partilhada em março de 2020 e remete para o conhecimento que havia na altura. O especialista tem vindo a utilizar a sua página no Twitter para partilhar recomendações e desmistificar boatos sobre a Covid-19 e o novo coronavírus.

O texto original reúne, em 16 pontos, as principais ideias de Faheem Younus, resumindo vários tópicos publicados no seu Twitter sobre a pandemia. Segundo a televisão espanhola RTVE, o início dos vários textos tem por base um post feito pelo especialista a 29 de março de 2020: "A vida não se torna desnecessariamente difícil. Nós somos capazes de viver com a Covid-19 durante meses. Não negue e não entre em pânico. Aprenda a ser feliz e adapte-se a este estilo de vida".

No texto atribuído a Marta Temido e Robert Ray Redfield Jr. podemos ler uma adaptação desta ideia: "Talvez tenhamos que morar com a Covid-19 por meses ou anos. Não vamos negar ou entrar em pânico. Não vamos tornar nossas vidas inúteis. Vamos aprender a conviver com esse facto". Em relação aos restantes pontos, é possível encontrar várias adulterações, informações erradas ou que, entretanto, já se tornaram desatualizadas.

Além disso, algumas das afirmações de Faheem Younus acabaram por ser adulteradas ou mal traduzidas. Um exemplo disso é o ponto X, que diz respeito às "cargas embaladas, bombas de gás, carrinhos de compras e caixas eletrónicos não causam infeção". O que o especialista escreveu foi que "a sobrevivência do coronavírus na superfície é uma coisa, que as superfícies causam a infeção é outra", recomendando que se cumpra a lavagem das mãos.

Na avaliação que fez, a plataforma Boatos.org concluiu que "alguém (não se sabe quem) pegou um texto publicado por um especialista, modificou as dicas e mudou a autoria. E esse alguém não é a ministra da Saúde Marta Temido".

Informações erradas ou desatualizadas

Uma vez que o texto tem por base publicações de Twitter que datam de março de 2020, algumas das informações transmitidas tornaram-se desatualizadas. Entre os 17 pontos poderá encontrar algumas dicas verdadeiras e úteis – como, por exemplo, o vírus não se destrói "bebendo galões de água quente" ou o "vinagre, suco de cana e gengibre" não previnem a Covid-19 – e conselhos errados que não deve seguir. O Polígrafo  identifica e analisa as dicas que são falsas.

No ponto onde se afirma que "lavar as mãos é o melhor método para sua proteção", ignore porque a informação é errada. Apesar de a higiene das mãos ser um dos pontos importantes na prevenção da Covid-19, atualmente é defendido que o uso de máscara e o distanciamento social são mecanismos mais eficientes para evitar o contágio.

O ponto 5, que avança que não se pode transmitir o novo coronavírus através de "cargas embaladas, bombas de gás, carrinhos de compras e caixas eletrónicos", é também falso.

Apesar de não ser o método de transmissão mais comum, sabe-se atualmente que o vírus pode permanecer nas superfícies não higienizadas e, ao manusear esses objetos, o vírus passa para as mãos e pode chegar às vias respiratórias – a principal forma de entrar no organismo. A higienização dos espaços e das superfícies é também um conselho que deverá seguir, ao contrário do que é vinculado na publicação.

Outra informação falsa – e que não está presente na lista inicial – diz respeito ao uso de máscaras. São vários os mitos que circulam na Internet sobre as consequências do uso prolongado de máscara. No entanto, é falso que a máscara interfira "nos níveis de respiração", como é afirmado na publicação. O Polígrafo já desmistificou por diversas vezes essa questão.

Também o ponto 17, onde se pode ler que "devemos sair de casa para aumentar a imunidade e se expor a patógenos", contém uma informação errada. Neste caso, deve seguir as orientações da Direção-Geral de Saúde e do Governo, conforme o concelho onde resida. Mesmo que tenha de sair de casa, evite aglomerados e use a máscara. Não corra riscos desnecessários.

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Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking (verificação de factos) com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

Na escala de avaliação do Facebook, este conteúdo é:

Falso: as principais alegações dos conteúdos são factualmente imprecisas; geralmente, esta opção corresponde às classificações "Falso" ou "Maioritariamente Falso" nos sites de verificadores de factos.

Na escala de avaliação do Polígrafo, este conteúdo é:

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