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Marisa Matias: “Nas 210 páginas da proposta do Governo [para a Saúde] surge 144 vezes a palavra ‘privado’ mas apenas três vezes ‘carreira’ e duas vezes ‘investimento'”

Política
O que está em causa?
Num exercício comum em política, Marisa Matias, deputada do Bloco de Esquerda, fez hoje contas ao programa do Governo para a saúde. As suas conclusões não são de difícil verificação: "Não é de estranhar que nas 210 páginas da proposta do Governo sejam referidas 144 vezes a palavra 'privado' mas apenas três vezes 'carreira' e duas vezes 'investimento'."
© António Cotrim/Lusa

Na audição desta manhã à ministra da Saúde, Ana Paula Martins, sobre o Plano de Emergência para o SNS, a deputada do Bloco de Esquerda (BE) Marisa Matias acusou o Governo de se preocupar excessivamente com os privados e de lhes entregar os cuidados de saúde.

“Parece-nos que se trata mais de um plano de negócios do que propriamente de um plano de emergência para a saúde. Basta olhar o que é referido em relação às maternidades, por exemplo, que são mais convenções com privados e o envio de mais grávidas do SNS para o setor privado (…) É esta a linha geral do plano e não é de estranhar que nas 210 páginas da proposta do Governo sejam referidas 144 vezes a palavra ‘privado’ mas apenas três vezes ‘carreira’ e duas vezes ‘investimento'”, argumentou Matias. Tem razão?

O documento, que é público desde 29 de maio, dia em que foi aprovado em Conselho de Ministros, é autoexplicativo: pretende ser um “Plano de Emergência e Transformação” que atua de forma emergente no setor da saúde. No comunicado divulgado nesse dia, a tutela colocava como objetivo rentabilizar e maximizar a resposta do Serviço Nacional de Saúde, mas “sem esquecer o longo prazo e as mudanças estruturais necessárias a um melhor funcionamento do sistema de saúde”.

“Em casos excecionais, quando esgotada a capacidade de resposta do SNS, o Plano conta com os parceiros do setor social e privado como complemento na prestação de serviços de saúde”, explica ainda o comunicado. Se optarmos por seguir o indicador sugerido por Marisa Matias – que não é, claro, o ideal -, o recurso aos privados não parece ser assim tão “excecional”. Afinal, a palavra “privado”, “privados” ou “privadas” surge 114 vezes (um pouco menos do que referiu Matias), seja para falar no “reforço de convenções com o setor social e privado” ou para o “reforço da resposta pública em parceria com o setor privado”.

Confirma-se ainda que a palavra “investimento” surge apenas duas vezes no documento de mais de 200 páginas (“processo de investimento mais profundo na Saúde em Portugal”), sendo complementada outras duas vezes com a palavra “investir” em referência aos “recursos humanos, científicos e tecnológicos para qualificar a resposta clínica e assistencial”.

Quanto à palavra “carreira”, esta surge três vezes para se referir, primeiro, à necessidade de criação de um “plano de carreira bem estruturado” que ajude a “guiar o crescimento profissional, promovendo o desenvolvimento de competências técnicas, pessoais e profissionais, de uma forma simbiótica com o desenvolvimento da instituição de saúde onde o profissional trabalha” e, depois, para classificar os “especialistas motivados com carreira dedicada” como uma “vantagem para o sistema”.

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