"Venezuela é que é bom. Nem trabalho, nem liberdade, nem pão", lê-se numa das publicações detectadas pelo Polígrafo, em suposta citação atribuída a Marisa Matias, eurodeputada do Bloco de Esquerda (BE) e candidata à Presidência da República.

No debate televisivo frente a André Ventura, adversário na disputa pelo cargo sediado no Palácio de Belém, Matias foi associada ao regime de Nicolás Maduro, nomeadamente ao nível do modelo de "Educação à Bloco de Esquerda, trotskista, tipo Venezuela", que o líder do Chega disse rejeitar para Portugal. Logo nos dias seguintes difundiram-se nas redes sociais várias publicações destacando que a bloquista apoia o regime vigente na Venezuela.

A presente verificação de factos incide sobre essas publicações nas redes sociais, não sobre a alegação de Ventura no debate televisivo que se circunscreveu ao modelo de Educação.

Nos últimos anos, perante o agravamento da crise económica, social e política na Venezuela, o BE tem vindo a demarcar-se do regime de Nicolás Maduro, embora apontando para ingerências dos EUA naquele país sul-americano e defendendo posições baseadas no primado do Direito Internacional e do multilateralismo via Organização das Nações Unidas (ONU) em busca de uma solução pacífica para o conflito interno venezuelano que já se arrasta desde meados de 2018.

A posição do BE e da própria Matias relativamente à situação na Venezuela foi expressa sem margem para dúvidas, por exemplo, no dia 4 de fevereiro de 2019, quando o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, anunciou que o Estado português reconhecia e apoiava a legitimidade de Juan Guaidó como Presidente interino da Venezuela, com a missão de organizar eleições presidenciais livres e justas.

"O Bloco de Esquerda não apoia nem nunca apoiou Nicolás Maduro [Presidente da Venezuela], mas isso não significa que um desastre possa ser corrigido com uma asneira", declarou então Matias, nas jornadas parlamentares do BE, em Santa Maria da Feira, já em pré-campanha para as eleições europeias que se realizaram em maio desse ano.

Aquilo que foi o "comportamento absolutamente irresponsável do Parlamento Europeu e agora do Governo português é poder precisamente converter o que é uma situação desastrosa numa asneira com uma possibilidade enorme de conflito e de guerra civil", ressalvou a eurodeputada, citada pela Agência Lusa.

"Nós, no Bloco de Esquerda, não estamos ao lado de Trump [Presidente dos EUA] nem de Bolsonaro [Presidente do Brasil] em relação à Venezuela. No Bloco de Esquerda estamos ao lado de Guterres [secretário-geral da ONU] e das Nações Unidas", clarificou.

De resto, Matias fez questão de "denunciar os oportunismos de última hora. Os oportunismos do PSD e do CDS-PP que estendiam passadeiras vermelhas ao ex-ministro e agora Presidente Nicolás Maduro, porque punham os negócios à frente dos direitos humanos e que agora vêm fingir que defendem os direitos humanos para depois tratar dos negócios".

Nesse sentido disse também não aceitar "lições de moral de Paulo Portas que, em 2014, saudava o Presidente Nicolás Maduro pela atitude sempre amiga com que o Governo da Venezuela encarou as relações com Portugal. (…) Amigos em 2014, inimigos em 2019. Nós tivemos uma leitura sempre coerente, não são eles que nos vão dar lições de moral".

É verdade que o BE tinha uma posição distinta em relação ao regime bolivariano da Venezuela quando era liderado por Chávez, embora o mesmo se possa aplicar aos Governos do PS e do PSD/CDS-PP que promoveram intensas relações comerciais e diplomáticas com esse regime. No entanto, o facto é que se verificou uma inflexão gradual desse posicionamento do BE com a subida ao poder de Maduro e sobretudo depois do agravamento da crise em 2018.

Esta posição do BE, aliás, motivou críticas da parte do PCP que se manteve sempre alinhado com o regime venezuelano, mesmo após a sucessão de Hugo Chávez por Nicolás Maduro e o agravamento da crise a partir de 2018.

"Em matéria de política internacional, o BE parece um relógio suíço. Com uma pontualidade de fazer inveja a qualquer passaroco profissional, desses que saem de caixas coloridas em formato de casinha, com telhados e tudo, aí aparecem eles, sempre a colocar-se ao lado dos interesses do imperialismo", escreveu João Frazão, membro da comissão política do Comité Central do PCP, em artigo publicado no jornal "Avante!" (edição de 31 de janeiro de 2019).

"Assim foi com a situação na Síria e com os ataques aos legítimos representantes e à soberania do povo sírio, reproduzindo ao melhor estilo a argumentação dos falcões da guerra do outro lado do Atlântico. (…) Assim tinha sido já com o voto relativo aos ataques à Líbia por parte da NATO, com o argumento de se estar a condenar um dirigente líbio. Assim foi também relativamente ao Brasil e às críticas ao PT, pela governação naquele país, uma vez mais, esquecendo o perigo e o inimigo principais", prosseguiu o dirigente comunista.

Na perspetiva de Frazão, "assim volta a ser, inevitavelmente, nos recentes desenvolvimentos na Venezuela, com o BE a posicionar-se ao lado das vozes que reclamam eleições 'livres e justas', classificando mesmo a posição do Governo português, ou seja a posição dos grandes interesses da União Europeia a que o Governo português deu eco, de 'sensata'".

"Em matéria de política internacional, o BE parece um relógio suíço. (…) Assim volta a ser, inevitavelmente, nos recentes desenvolvimentos na Venezuela, com o BE a posicionar-se ao lado das vozes que reclamam eleições 'livres e justas', classificando mesmo a posição do Governo português, ou seja a posição dos grandes interesses da União Europeia a que o Governo português deu eco, de 'sensata'", escreveu João Frazão, dirigente comunista.

A posição do Governo português, no final de janeiro de 2019, consistia em exigir a realização de "eleições livres, justas, credíveis e transparentes", no "mais curto espaço de tempo possível". Nessa altura, o deputado bloquista Pedro Filipe Soares considerou que o Governo português assumira uma "posição sensata" ao defender eleições e ao não escolher um campo no debate sobre quem era o Presidente legítimo da Venezuela, Maduro ou Guaidó.

Em suma, é verdade que o BE tinha uma posição distinta em relação ao regime bolivariano da Venezuela quando era liderado por Chávez (pode recordar aqui ou aqui, entre outros exemplos), embora o mesmo se possa aplicar aos Governos do PS e do PSD/CDS-PP que promoveram intensas relações comerciais e diplomáticas com esse regime (pode recordar aqui ou aqui, entre outros exemplos). No entanto, o facto é que se verificou uma inflexão gradual desse posicionamento do BE com a subida ao poder de Maduro e sobretudo depois do agravamento da crise em 2018.

Voltando a citar Matias, em fevereiro de 2019, "o Bloco de Esquerda não apoia nem nunca apoiou Nicolás Maduro".

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Nota editorial: este conteúdo foi selecionado pelo Polígrafo no âmbito de uma parceria de fact-checking (verificação de factos) com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social.

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Falso: as principais alegações dos conteúdos são factualmente imprecisas; geralmente, esta opção corresponde às classificações "Falso" ou "Maioritariamente Falso" nos sites de verificadores de factos.

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