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Mário Machado foi condenado por incitamento ao ódio, mas Mamadou Ba disse impunemente que “temos que matar o homem branco”?

Política
O que está em causa?
No mesmo dia em que o militante neonazi Mário Machado é condenado a pena de prisão efetiva por incitamento ao ódio e à violência contra mulheres de esquerda, há quem no X/Twitter compare a situação com a de Mamadou Ba que terá incitado a "matar o homem branco" e não sofreu "quaisquer consequências".
© Agência Lusa / Manuel de Almeida

No dia 7 de maio surgiu a notícia de que o militante neonazi Mário Machado foi condenado a dois anos e dez meses de prisão efetiva por incitamento ao ódio e à violência contra mulheres de esquerda em publicações nas redes sociais. No julgamento estavam em causa mensagens publicadas no X/Twitter, atribuídas a Mário Machado e também a Ricardo Pais, em que apelavam à “prostituição forçada” das mulheres dos partidos de esquerda. Visavam em particular Renata Cambra, dirigente do MAS – Movimento Alternativa Socialista.

Em reação a essa notícia, no X/Twitter compara-se essa situação com a de Mamadou Ba, ex-assessor do Bloco de Esquerda e dirigente da associação SOS Racismo. “Mário Machado é condenado a dois anos e dez meses de prisão efetiva por alegadamente ter apelado à ‘prostituição forçada’ das mulheres de esquerda. É de relembrar que Mamadou Ba afirmou que ‘temos que matar o homem branco‘ sem quaisquer consequências”, salienta-se num tweet publicado no mesmo dia.

Nesse tweet exibe-se mesmo um clip de vídeo que retrata o momento em que Mamadou Ba terá proferido tais declarações. Estava a participar numa conferência digital sobre o “racismo e avanço do discurso de ódio no nundo” que foi transmitida na plataforma YouTube, mais especificamente no canal “Pensar Africanamente”, no dia 21 de novembro de 2020.

Numa das suas intervenções, já na segunda metade da conferência, Mamadou Ba defendeu a necessidade de criação de uma nova narrativa para combater o discurso de ódio: “O processo de animalização, de desumanização, apresenta-se quotidianamente nas nossas vidas a partir da desvalorização da nossa própria condição de poder reclamar voz e condição de sujeito político. (…) Nós temos tanto para oferecer ao mundo. O que está mais em disputa é a nossa capacidade em termos autonomia da nossa voz. (…) O que mais importa para combater o discurso de ódio é propor uma nova narrativa, um novo discurso, uma nova forma de o aliado inventar a humanidade. É reclamar a ideia de que não há humanidade a partir desta ideia enganosa de que o alfa e o ómega do mundo partem desta orocentralidade do pensamento”.

Posto isto, Mamadou Ba avançou para a declaração mais controversa: “Nós temos é que matar o homem branco como sugeria o [Frantz] Fanon. O homem branco que nos trouxe até aqui tem de ser morto. Para evitarmos – como dizia Orlando Patterson – a morte social do sujeito político negro é preciso matar o homem branco, assassino, colonial e racista”.

Contactado pelo Polígrafo na altura em que despontou esta polémica, Mamadou Ba sublinhou que as suas palavras estavam a ser interpretadas de uma forma “muito errada” e “desonesta” nas redes sociais. “É uma citação que está na obra do Frantz Fanon. Essa frase foi, aliás, em resposta à intervenção anterior de Thula Pires que falou dele”, ressalvou.

“O que quis dizer foi que, para combater o racismo, é necessário combater a ideologia da supremacia branca, o subconsciente coletivo das sociedades marcadas pelo processo colonial e a ideia de superioridade da raça. A ideia de que o homem branco é superior a outras raças e outras culturas”, esclareceu.

Em suma, a frase isolada carece do respetivo contexto e por isso é enganadora, apresentada desta forma, ainda para mais quando se omite a parte em que Mamadou Ba disse “como sugeria o Fanon”. Tal como o visado explicou ao Polígrafo, aliás, “é uma citação que está na obra do Frantz Fanon”, em resposta a uma intervenção anterior na conferência em 2020.

Neste âmbito importa também lembrar que mais recentemente, em novembro de 2023, o próprio Mamadou Ba foi condenado a pagar uma multa de 2.400 euros por ter difamado Mário Machado, ao escrever nas redes sociais que o militante neonazi foi “uma das figuras principais do assassinato de Alcindo Monteiro” em 1995. Mas já em abril deste ano essa sentença foi anulada pelo Tribunal da Relação de Lisboa que mandou repetir o julgamento.

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Avaliação do Polígrafo:

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